FAMÍLIA CARVALHO
PROJETO PRO-L’ABRI BRASIL
The Manor House
Greatham, Liss
Estamos agora em nosso último mês no L'Abri da Inglaterra!
No dia 11 de Setembro vamos viajar para o L'Abri da Holanda, onde estaremos até 26 de Novembro. Depois voltamos para o Brasil. O próximo relatório será em outras terras, portanto...
Este relatório veio com algum atraso, devido às semanas que estive fora em Cambridge e à ocupação com algumas atividades no princípio do mês, mas vamos cobrir nele apenas o período que vai do último relatório (dia 15 de junho) até o final de julho. Foi um tempo muito rico de experiências e aprendizado, e estamos muito gratos a Deus por isso!
Adaptações (até demais...) e Mudanças
Eu diria que na última quinzena de junho - após pouco mais de três meses na inglaterra - o processo de "adaptação" das meninas se completou. Ou, ao menos, uma fase do processo - missionários mais experientes saberiam explicar melhor...
Seja como for, aquela vontade louca de voltar para o Brasil passou. As meninas não pedem mais para voltar para o Brasil; até começaram a gostar do lugar. O aproveitamento da Ana Elisa na escola foi muito bom, e seu inglês é excelente. Marsh Moyle nos disse outro dia que ela tem um perfeito sotaque do sul da Inglaterra (mais "inglês", ele quis dizer). De fato, ela me corrige o tempo todo. Eu confesso: não consigo dizer "alone" do jeito que ela me pede. Teria que andar com um pregador no nariz para dizer "alone" daquele jeito.
Trabalho, Arte, e Verdade
O dia 27 de junho foi uma data bastante interessante em L'abri. Foi um dia de muito trabalho; trabalho realmente duro. Uma troupe teatral iria apresentar a peça Twelfth Night, the Shakespeare nos jardins da Manor House (L'abri) à noite (na verdade, até 21:30 ainda é dia por aqui, no verão). Assim a comunidade inteira se reuniu de manhã para dividir o serviço, e trabalhamos o dia inteiro preparando cada parte do jardim: cortando grama, podando árvores, limpando e refazendo cercados, arrancando grama dos caminhos (paths).
Terminamos o serviço por volta das 18 hrs, exaustos! A chuva fina que nos "refrescou" durante
O interessante foi a combinação de trabalho duro, comunidade e arte. A arte, no fim, veio quase como uma recompensa, ou uma coroação do dia de trabalho. Isto é típico do L'abri: sempre temos momentos para desfrute estético, para experiências com a beleza. E não somente em alguns momentos; até mesmo na decoração das mesas para as refeições, há uma preocupação com enfeites, flores e velinhas. Trata-se de uma tradição que vem da Edith Schaeffer, e que permeia o lugar.
É claro que isto não é suficiente para a fé salvadora - preciso dizer isso antes que aqueles reformados mais reformados do que eu se desesperem. Sim, talvez precisemos qualificar severamente Dostoyevski. Mas Andrew expressou nada mais que o pressuposicionalismo Schaefferiano: confrontar a plenitude da experiência que alguém tem, como ser humano, com as suas crenças anti-cristãs, para mostrar que o seu mundo, a realidade de sua experiência, não faz sentido sem Cristo. Não penso, contra os Vantilianos, que isto implique um anknufungspunkt, para usar os termos do debate entre Barth e Brunner.
Atividades no L'Abri
Os meses de junho e julho em geral foram foram bastante movimentados! Nas duas últimas semanas de junho, além da rotina diária do L'abri, eu me ocupei basicamente com as notas para o projeto da BBE e com a preparação da minha lecture, apresentada no dia 11 de julho.
Como nem todos sabem a respeito, vou explicar melhor o projeto da "BBE" - a Bíblia Brasileira de Estudos. No princípio deste ano participei de uma reunião em São Paulo com outros 30 ou 40 teólogos e acadêmicos, convocada pelo biblista evangélico Luiz Sayão e pela editora Hagnos, para a criação da primeira Bíblia de estudos totalmente nacional - todos os contribuintes seriam cidadãos brasileiros, e as notas e recursos da Bíblia adaptadas à cultura brasileira. Na ocasião eu me comprometi a participar do projeto escrevendo notas para livros do Novo Testamento.
As primeiras 30 notas foram enviadas no princípio de julho e, até o final do mês, eu enviei mais 20, fechando 50 notas, todas em Colossenses. Na preparação, além de recorrer a alguns dos comentários clássicos mais científicos, fui bastante enriquecido pela leitura do comentário de Sylvia Keesmaat e Brian Walsh, Colossians Remixed: Subverting the Empire. Para ver uma resenha por Craig Blomberg (que é um dos mais importantes biblistas evangélicos americanos), clique aqui. Sylvia e Walsh já são bem conhecidos por escreverem sobre cosmovisão cristã a partir de uma perspectiva neocalvinista.
O resultado aparentemente foi muito bom. Acho que nunca o meu inglês esteve tão bom antes - este era um dos meus temores, naturalmente... A resposta geral foi positiva, mas os estudantes mais interessados em filosofia, como o Spencer (concluindo a High School), Nathan (graduando em ciências) ou o coreano Young (começando o doutorado em História Política em Warwick) responderam com muito entusiasmo. O Young até disse que sua visão sobre os brasileiros mudou completamente (bem, não sei se isso é uma boa ou má notícia...), e que agora estudará o pensamento político de Kuyper. Andrew Fellows ficou exultante; até incluiu algumas metáforas e expressões minhas (como "the semantic richness of reality") no livro que ele está escrevendo. Mas quem ganhou mais com a experiência fui eu mesmo.
Durante o período recebemos estudantes em diversas ocasiões para refeições na School House.
Atividades Out L'Abri: Curso com Wayne Grudem em Cambridge
Christian Heritage é um ministério dedicado à recuperação e atualização da
No curso de teologia de verão deste ano o preletor foi Wayne Grudem. A experiência foi bem interessante, considerando que eu adotei a teologia sistemática de Grudem por diversas vezes nos cursos de teologia sistemática, como professor da FATE BH. E também utilizei bastante seus trabalhos sobre o dom de profecia no NT em minha dissertação de mestrado pela Teológica Batista de São Paulo, sobre 1Coríntios 14, em 2003.
Eu e Rodolfo ganhamos uma bolsa completa para o curso, que foi realizado no Sidney-Sussex College, bem no centro histórico. Um lugar muito bonito, com excelente comida e acomodações. E com uma grande história também - um dos ex-alunos do Sydney-Sussex foi ninguém menos que Oliver Cromwell, o herói puritano anti-monarquista.
Curso no Faraday Institute
O centro é dirigido pelo Dr. Denis Alexander, um fellow do St. Edmunds
A propósito, o número de peixes grandes no congresso era absolutamente desproporcional (uns vinte), considerando-se o número de alunos (uns 30). Só haveria uma explicação possível para tal conjunção celeste: o financiamento do John Templeton, que banca o Faraday. De fato foi difícil de acreditar quando tínhamos em uma mesa, por exemplo, simultaneamente (da esquerda para a direita), John Hedley Brooke, Peter Harrison, John Polkinghorne, Ernan McMullin e Rodney Holder - e mais alguns peixes grandes na assistência.
O curso foi bem "transdoxástico" (para não dizer "ecumênico"): a linha geral do Faraday é evangélica, mas há cooperadores católicos e simpatizantes da religião. Vários deles foram muito influenciados por Schaeffer. Denis leu livros de Schaeffer no princípio de sua carreira, e sua esposa até mesmo foi ao L'Abri da Suíça. O Dr.
Aparentemente, as questões mais fundamentais no diálogo religião-ciência - como o sentido religioso do Big Bang - não tocam diretamente os pontos mais superficiais que separam as denominações cristãs (como o batismo), mas afetam as bases
Um ponto bem claro foi a rejeição, por quase todos, do assim-chamado "young earth creationism" (criacionismo da terra jovem) bem como do Design inteligente, descrito como "micro-design", o planejamento de cada entidade biológica individual. Ao invés disso, os cientistas defenderam o "macro-design" - a idéia de que Deus na verdade criou um conjunto de condições físicas que levariam necessariamente ao surgimento do homem. O chamado "princípio cosmológico antrópico", apresentado de forma rigorosa pela primeira vez por Frank Tipler e John Barrow (na charge publicada na Nature).Para reunir a idéia do princípio cosmológico antrópico à teoria da evolução, eles vem recorrendo a teorias de emergência e níveis explanatórios (por exemplo, dizendo que a vida é uma forma de existência que se baseia no nível físico, mas é qualitativamente diferente, demandando uma explicação bio-lógica), estudando sistemas auto-organizatórios, e desenvolvendo aspectos pouco estudados da biologia contemporânea como o fenômeno da convergência evolucionária (quando animais se desenvolvendo em ambientes diverentes adquirem capacidades semelhantes).
De fato, há uma longa tradição de evangélicos, muitos deles calvinistas, que defendiam a coerência entre a doutrina da Criação e a teoria da evolu
ção. Um dos mais famosos foi Benjamin Warfield (na foto), que foi um dos principais formuladores da doutrina da Inerrância Bíblica (vide seu artigo clássico na primeira edição da International Standard Bible Encyclopaedia) e teólogo calvinista da chamada "Old Princeton" (antes da saída do Gresham Machen para fundar o Westminster). Warfield sustentava que a teoria da evolução não é essencialmente contrária ao cristianismo bíblico, e deve ser harmonizada com a doutrina da inerrância bíblica. Outro teólogo calvinista recente, na mesma linha, é o Dr. Alister McGrath, cuja obra"Vida de Calvino" foi publicada em português pela Cultura Cristã.De um modo geral, eu posso ver sentido no esforço do Faraday em reunir ciência, religião, e biologia evolucionária em especial. Concordei mais do que discordei, mas tenho ainda duas divergências principais: (1) penso que a polêmica de alguns dos professores (como a do biólogo católico Kenneth Miller) contra o DI não leva em consideração o suficiente a viabilidade racional de uma ciência do Design, mesmo que esta seja desenvolvida à parte do naturalismo metodológico tradicional (talvez como uma forma sofisticada de "teologia natural"), e independentemente da investigação biológica tradicional. Mas entendo que isto é em parte uma reação ao radicalismo de parte dos proponentes do Design Inteligente;
(2) não posso aceitar a tentativa de explicar a Queda do homem como a mera presença de impulsos animais egoístas, provenientes de estágios evolucionários anteriores. Essa não é a posição do Faraday propriamente, mas alguns palestrantes defenderam algo próximo disso, como o Dr. Ernan McMullin. A propósito, McMullin, que é um velhinho genial, foi membro de uma comissão do Vaticano que reexaminou a posição católica em relação a Galileu. E ele é colega de Alvin Plantinga no Centro para Filosofia e Religião da Notre Dame University. Quando perguntei o que ele achava da crítica de Alvin Plantinga ao naturalismo metodológico, a sua resposta foi: "it's really bad..." Rsrs... Bem, não concordo com o Dr. McMullin, mas também acho Plantinga pessimista demais a respeito.Bem, o fato é que tenho razões não somente teológicas, mas filosóficas para acreditar que precisamos de uma Queda histórica do homem para ex
plicar a universalidade do pecado e de Cristo - vide o que Kierkegaard no ensinou a respeito do pecado, por exemplo. A multidão não pode "pecar"; o lesa majestatis, o pecado com "P" maiúsculo, que é uma revolta teológica, só pode ser cometido por um indivíduo. Isso de uma queda "coletiva" e "atemporal" de Adão é uma balela filosófica - se defendida à parte de uma queda individual, naturalmente. O pecado é uma coisa intensamente pessoal e temporal.
Nas críticas à idéia de "Queda", às vezes se ridiculariza a noção de transmissão biológica do pecado original (como em Paul Ricoeur) - mas isso não é problema para os Calvinistas; Calvino já havia rejeitado isso no século XVI, sugerindo no lugar a noção de pacto e união federal. Penso que esta pode ser a melhor linha de defesa da viabilidade racional da crença em uma Queda histórica de um Adão histórico (talvez não necessariamente o primeiro homo sapiens, biologicamente, mas certamente o primeiro homem no estrito [homo religiosus], e o primeiro "representante federal"; de qualquer modo, um personagem histórico). Para lidar com o assunto então seria preciso integrar estudos antropológicos, filosofia moral e, talvez, psicologia. Em outras palavras: este aspecto dos estudos de teologia e ciência depende da entrada das ciências humanas na arena de debates.Concordo com os criacionistas mais estritos em que a negação da historicidade e da inocência original de Adão e Eva entre parte dos evolucionistas teístas não faz justiça à autoridade bíblica. Precisamos, no entanto, dar um passo além, e explicar "porquê" este ensino bíblico deve ser considerado factual, relacionando-o com as outras doutrinas bíblicas e com os outros campos do conhecimento. A Bíblia diz que Deus fez a chuva, mas isso não é uma explicação filosófica ou científica da chuva. Explicar, em perspectiva cristã, é muito mais do que dizer "A Bíblia diz". O ensino bíblico é a base da explicação, não a explicação em si. O meu desacordo com os evolucionistas-teístas (ou parte deles) é que eles não são capazes de dizer: "A Bíblia diz". E o meu desacordo com os criacionistas (boa parte deles) é que eles só sabem dizer isso. Acho que precisamos de uma forma de criacionismo evolucionário, como o que Alister McGrath vem desenvolvendo.
E caso alguém me pergunte: sim, acho que o Richard Dawkins pode ser um caso de regressão no processo evolucionário; se, de fato, ele é um homo sapiens que perdeu completamente a dimensão religiosa (veja bem: Se...). Bem, seria um interessante exemplo do que a Bïblia diz: "à lama pré-humana tornarás...".Agradecimentos, Desafios e Planos
Coisas para agradecer a Deus:
Pedidos de Oração:
Viagem à Holanda: já está decidido: vamos para o L'Abri da Holanda no dia 11 de setembro, e ficaremos lá até o dia 26 de novembro, quando retornamos ao Brasil. Precisamos ainda levantar 400 dólares para cobrir a troca da data de retorno das passagens.
Pelo visto de entrada na Holanda;
Agradecemos aos irmãos da Igreja Batista do Caiçara, aos nossos mantenedores, e a toda equipe do pro-l’abri “em terra”!
Abraços,
Guilherme, Alessandra, Ana Elisa e Helena Carvalho
Contatos e Apoio:
Para receber mais informações e apoiar o projeto pro-L’Abri Brasil, escreva diretamente para nós, pelo email guilherme.alessandra@gmail.com, ou entre em contato com Vanessa Belmonte, nosso contato no Brasil, pelo email vabelmonte@yahoo.com.br.
Contribuições podem ser feitas diretamente a Vanessa Belmonte, ou através de depósito bancário na conta abaixo:
AG: 0036
CONTA: 8723498
TITULAR: Guilherme V. R. Carvalho
3 comentários:
Guilherme,
Deliciosa leitura, muito bem ilustrada e construída. Excelente report de seu tempo aí!
Uma alegria muito grande ver vc aí com sua família e toda a riqueza desde o aprendizado como da experiencia.
Parabens por sua dedicação - nós brasucas estamos ansiosos para receber mais de vc - enquanto aí e quando de sua volta!
Essa semana quem estará aqui é o Os Guinness falando no Mackenzie.
Deus abençoe vc e sua família maravilhosa. Fiquem todos na paz.
abs
Ora, obrigado volney!
Estou sabendo do Os Guinness. É uma pena que não estaremos no Brasil ainda para ouví-lo. Aproveitem aí!
Obs: então vc foi ao l'abri também? Diz aí! :-D
Guilherme,
parabéns pelo trabalho! Ficamos admiridos e muitissimos gratos, eu e minha irmã, pela experiência em l'abri.
Obrigado por tudo!
Napoleão Furbino
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