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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Impureza Sexual tem Cura? - PARTE 2


O meu corpo sou eu, ou não sou eu, afinal de contas?

Os espíritas e alguns irmãos neopentecostais dizem que somos espíritos que habitam em corpos -- mas isso não pode ser verdade. Afinal, Deus disse a Adão: “Tu és pó”. Então o corpo também sou eu. Estranhamente, no entanto, o apóstolo Paulo, que não era espírita nem neopentecostal, dizia que o seu corpo era a sua “casa”.

Ora, se eu sou meu corpo, mas também posso tratá-lo como a minha casa, então há algum tipo de complexidade em mim; talvez, haja uma dualidade. Sou capaz de não apenas ter um eu, mas saber que tenho um eu, e até mesmo dialogar comigo mesmo. E mais: posso me relacionar com o meu corpo (que também sou eu) a ponto de tratá-lo como “eu” e “ele” ao mesmo tempo, como Paulo faz em Romanos capítulo 7, dizendo coisas como “em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum”, e logo depois que “o querer o bem está em mim”.

Bem, acredito que essa dualidade tem tudo a ver com a questão da impureza sexual. No artigo anterior falei sobre a necessidade do amor ao próximo para lidar com a impureza sexual; agora vou tocar em outro ponto -- o amor do homem por seu próprio corpo. Porém, não quero tratar do assunto do ponto de vista tipicamente psíquico, ligado à questão da autoestima; é que, de algum modo, sinto que a nossa visão sobre a relação entre a personalidade e o corpo tem um impacto estruturante em nossa ética sexual. Certo, parece uma afirmação trivial. Mas minha experiência me diz que a trivialidade anestesia o nosso senso crítico.

Passemos então sem demora à discussão do assunto: como é essa relação entre mim e o meu corpo?

Dentro e fora

Vamos assumir que de um jeito ou de outro meu espírito e meu corpo sejam o mesmo “eu”, a “alma vivente”, feita de pó da terra e espírito de vida. Como poderíamos representar tal coisa? Talvez possamos dizer que somos como um tecido dobrado. Pela dobra o tecido se encontra consigo mesmo, uma ponta com a outra; e assim, dobrados, podemos olhar nossas faces no espelho, e esse fato curioso acontece: o olho atenta para a face, e vê a alma nela; e a alma olha pelos olhos, e sabe que aquela face é sua.

Difícil? Talvez seja melhor usar uma feliz expressão de Paulo: o “homem interior” e o “homem exterior”. Essa é, sem dúvida, uma boa imagem da coisa toda. Tenho um “dentro” e um “fora”; uma “superfície” e uma “profundidade”. Na profundidade está o meu centro -- o coração; e na superfície, torna-se patente o que o coração é. Sim, Paulo não inventou isso; a ideia é muito mais antiga: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Pv 4.23). Na antropologia bíblica, o homem tem um centro; um “self” no qual tudo o que ele é está concentrado. Poderíamos dizer que o corpo é o coração patente, e o coração o corpo latente.

Vou estender um bocadinho a metáfora e apontar algo que, creio, ela implica: que há uma espécie de “distância” natural entre “eu” e “eu”; mais precisamente, entre a minha autoconsciência, e o meu corpo. A distância entre o interior e o exterior faz com que haja um “atraso” entre os dois. Às vezes o interior é de um jeito, e o exterior de outro. A mudança de um não implica uma resposta imediata do outro. E podemos até colocar um contra o outro, pasmem!

Ora, os exemplos disso não faltam. O hipócrita é de um jeito por dentro, e de outro por fora. O homem vê o exterior, mas o Senhor vê o coração (1Sm 16.7). Tem gente feia por dentro e bonita por fora, feia por fora e bonita por dentro. “Não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero esse faço”, disse o velho rabi. Já me imaginei tocando piano de um jeito, mas constatei no último domingo que minhas mãos não me obedecem. Quero chorar, mas dou um sorriso para despistar. E, se a minha “casa” se desfizer, há outra para mim, “reservada nos céus” (2Co 5.1).

Em princípio, esse “atraso” é bom. Ele faz com que, de certo modo, possamos ser e não ser ao mesmo tempo. É algo como a diferença de potencial ou tensão entre dos fios elétricos; justamente essa diferença faz surgir a corrente elétrica. A tensão entre o homem interior e o homem exterior faz a gente ter “dinâmica”. Precisamos nos tornar conscientes do que somos e exercitar a vontade para harmonizar o dentro e o fora. Desse modo, a consistência deixa de ser algo dado, para ser objeto de conquista. Será preciso escolher ser consistente -- escolher ser uma pessoa integrada.

Dentro sem fora e fora sem dentro?

E aqui, como sempre, temos que falar do pecado. Por causa da queda do homem e de seu afastamento de Deus criou-se, mais do que um descompasso, uma ruptura entre o dentro e o fora. A ponto de “o pó voltar para a terra, e o espírito voltar para Deus, que o deu”. Cada homem, por causa do pecado, vive morrendo; vive o processo de ser lentamente rasgado, até que a corrente “elétrica” cesse dentro de si. E a característica dessa ruptura final é a perda do corpo, a sua superfície. Isso é o que significa a morte: não há mais imagem; não há mais uma face com músculos para mostrar o sorriso da alma.

Claramente, se nos damos conta dessa distância, compreenderemos que a morte é o que se mostra no alargamento dessa distância. É mortal tudo aquilo que me impede de ser consistente, de manter a conexão entre o interno e o externo. Todo conceito, decisão ou processo que produz a inconsistência é mortal; tudo o que promove a independência da alma em relação ao corpo, ou do corpo em relação à alma, é mortal.

Mortal é a filosofia de Descartes. Pois ele estabeleceu a razão como critério absoluto da verdade, e por isso duvidou de tudo o que não pudesse demonstrar racionalmente. Por isso duvidou até da existência do seu corpo, a “res extensa”, e identificou o seu ego com o pensamento, a “res cogitans”: “Penso, logo existo”. Daí pra frente, demonstrar como a alma racional se relaciona com o corpo virou um problemão. O pensamento ocidental permaneceu oscilando entre dois extremos: diminuir o corpo material (idealismo), ou negar a existência da alma (empirismo Humeano), dissolvendo-a no corpo.

A última opção anda bem popular hoje em dia. Mortal é o pensamento de Daniel Dennett, que considera a liberdade uma ilusão criada pelo cérebro, o qual não passaria de uma máquina bioquímica. Mortal é o pensamento do grande Claude Levi-Strauss, que aguardava ansiosamente pela aniquilação definitiva das ideias de “eu”, “self” ou “alma”, a partir de uma espécie de materialismo racionalista. Deve ter sido uma decepção para ele descobrir-se tendo um eu sem corpo -- o que é a sua condição atual desde o fim de outubro.

Assim, dentro da filosofia, se traça um suicídio do humano, negando-se a distinção entre o dentro e o fora, ou esticando-se a conexão até a ruptura -- tudo sempre em nome de uma superação do dualismo. Mas não se pode confundir dualidade com dualismo. Mortal é a destruição da dualidade.

Da filosofia para o sexo

Antes que o leitor desista de esperar, vou dizer logo o que isso tudo tem que ver com sexo, e com impureza sexual. Alguns leitores mais atentos provavelmente já pegaram a pista. É que há uma relação interna entre a nossa ética sexual contemporânea e a ruptura da dualidade fora/dentro, consciência/corpo.

O que os modernos pensam a respeito do homem é que ele deve ser livre. É preciso promover a liberdade humana nas artes, no pensamento, na política, e na sexualidade. E a liberdade significa a indeterminação, ou o arbítrio. Fala-se às vezes, devo conceder, em “autonomia” no sentido de que o homem deve “dar a si mesmo a lei universal”; mas essa ideia de autonomia, inventada por Kant, perdeu a legitimidade com a crise de fundamentação da modernidade, e prevalece cada vez mais a versão Nietzschiana de autonomia, segundo a qual a vontade de poder e a decisão individual criam “ex nihilo” a lei que o homem dará a si mesmo. A “liberdade” no mundo pós-moderno é a liberdade Nietzschiana.

Converteu-se, portanto, a liberdade, em liberdade para comprar e consumir produtos, liberdade para não ter posicionamentos políticos definidos, liberdade de criar a própria religião, ou de pertencer a todas e a nenhuma, de não ser de ninguém, para ser de todo mundo e todo mundo ser meu também. Campeãs nisso são as empresas de telefonia, garantindo que, se comprarmos seus produtos, teremos muito mais liberdade e viveremos num mundo “sem fronteiras”.

Com a necessidade de abrir espaços para o exercício da liberdade arbitrária, o corpo humano tornou-se a vítima imediata. Pois o corpo é o que está mais próximo do eu. Instrumentalizar o corpo para aumentar a liberdade de escolha interessa ao eu, quando este anseia por livrar-se de limitações rígidas, e interessa ao sistema, que precisa ampliar seus mercados. É claro que uma ética sexual que limite a exploração do prazer por meio do corpo constituirá um sério obstáculo ao crescimento da liberdade humana, desse ponto de vista libertário.

E foi assim que teve início a grilagem sexual e o loteamento comercial do corpo, da filosofia moderna com seu incontrolável impulso libertário-prometeico, para a dissolução de todos os valores, hábitos e estruturas sociais que impliquem o cerceamento da liberdade do prazer na sociedade contemporânea.

Daí o corpo vai virando esse campo de experimentação da liberdade: ele deve ser pintado, tatuado, cirurgicamente modificado; perfurado, dobrado, bombado, e cyborgificado; sua cor pode ser modificada, e todos os seus buracos deveriam ser experimentados, mas sempre ao gosto do cliente; se minha alma tem um sexo diferente, então o corpo será trocado; se ainda não pode ser trocado, será mutilado; se está grávido de um feto indesejado, será libertado; pois há que se preservar o absoluto e arbitrário domínio do indivíduo sobre o seu próprio corpo.

Civilizar a desonra

Ora, muitos dirão que isso é uma apropriação mais madura do corpo; que as pessoas hoje em dia têm mais liberdade para se expressar com o corpo e possuí-lo. Eu digo que não. Só um espírito vencido aceitaria explicação tão sonsa.

Pois é claro como o dia que todos esses usos do corpo são instrumentais. São idênticos, no conjunto, aos usos que fazemos da natureza, derrubando florestas naturais e plantando capim ou reflorestando com eucaliptos; ou queimando combustíveis fósseis em excesso, destruindo nascentes e emporcalhando os litorais. Façamos um exercício de autocrítica: a sociedade autoconsciente pode ser comparada a uma “alma”, incorporada em um “corpo” biofísico, que é a biosfera. Ora, não é verdade que, para aumentar a liberdade humana (de consumir produtos, basicamente), estamos estuprando o meio ambiente? Não há uma relação interna entre o impulso libertário da cultura moderna e a violência?

Pois então compreendamos, e vou dizer sem meias palavras, o que está por trás da presente cultura da “pegação”, da liberação sexual, da criminalização da crítica ao homossexualismo, do aborto, do poliamorismo, e de coisas ainda mais estranhas: nada menos que o estupro do corpo, perpetrado pelo próprio “self”. A violência do eu externo pelo eu interno.

O estupro é a violência de fonte biológica; a violência para assegurar o prazer, o sentido de domínio, e a propagação da carga genética. No mundo humano, o estupro literal é a manifestação sexual de uma pulsão de violência que se manifesta em outros níveis, como no do Estado totalitário, da intolerância religiosa, da guerra (se você duvida, preste atenção nesses grafites de banheiros universitários: porque a violência e o insulto aparecem associados ao sexo?). É claro que a sociedade moderna precisaria canalizar essas forças de algum modo -- e isso é o que está por trás do discurso sobre “aumento da liberdade” dos modernos. O fato é que a forma mais eficiente de manipulação técnica do desejo humano encontrada pelos modernos foi a cultura do consumo, da qual a liberação sexual é uma parte essencial.

Não seria aceitável, no entanto, que as pessoas se estuprassem mutuamente com uso direto de violência. Seria preciso, para canalizar os impulsos de prazer e violência dos indivíduos, facilitar o acesso ao corpo (a natureza a ser explorada e consumida) e modificar a vontade moral dos indivíduos. Enfim: não dissolver o desejo do estupro (de usar sexualmente o outro), mas dissolver a resistência do indivíduo à instrumentalização do seu corpo. Em outras palavras, seria necessário civilizar essa instrumentalização do corpo, civilizar o estupro. Mas como é que isso se pode implementar?

É aqui que chegamos ao verdadeiro coração do problema.

Ora, se estupro o meu corpo, não posso ter uma relação demasiado íntima com ele. Não posso tratá-lo como o meu eu, ou como parte do meu eu, se vou explorá-lo indiscriminadamente. A solução é tratar o próprio corpo como expressão apenas contingente do eu, desonrando-o. Assim o indivíduo poderá dar livremente o seu corpo, sem entregar a sua alma juntamente com ele. Homens e mulheres podem oferecer seus corpos, instrumentalizá-los, e utilizá-los como quiserem; não há mais perversão sexual, pois não se pode julgar o caráter de alguém pela forma como ele faz sexo; pois o caráter do indivíduo -- acredita-se -- nada tem que ver com o seu uso do corpo. Enfim: o corpo não sou eu; o corpo é “meu”. A desonra é, assim, a morte espiritual; é a entrega do corpo ao fogo.

Note-se a relação e distinção entre o estupro e a desonra: esta última tem a ver com o símbolo. Desonra-se uma nação pisando-se a sua bandeira, que é o seu símbolo. Desonra-se igualmente a pessoa (o interno) banalizando o seu símbolo visível (o externo).

Assim como, para abusar da natureza, o homem moderno precisou construir uma imagem da cultura como algo “fora” da natureza, como se ele estivesse muito além dela, o libertinismo sexual se torna psicologicamente viável pelo desligamento moral entre eu e corpo. Esse desligamento é evidente no discurso de que o uso sexual dado ao corpo não é importante, desde que traga prazer e aumente a liberdade do indivíduo.

Ocorre, no entanto, que tal separação não pode ser feita. Há um atraso entre interno e externo, mas não uma separação absoluta. Em última instância, aquilo que o homem faz com o seu corpo, faz a si mesmo. O corpo é o símbolo visível do coração. Portanto, a separação psicológica feita pelo homem ao usar seu corpo como instrumento externo de prazer é uma separação ilusória, completamente falsa. O atraso entre o interno e o externo torna possível que o interno estupre a si mesmo, como se não fosse a si mesmo, mas a um outro. Mas o outro (o corpo) ainda é o si mesmo. Ao estuprar o seu corpo, o homem estupra a si mesmo. Ao desonrar o seu corpo, o homem não pode amar a si mesmo.

Além disso, na medida em que estupra a si mesmo o indivíduo não tem mais porque resistir ao estupro do outro; se um corpo humano é instrumentalizado, todos o são igualmente por um princípio de reciprocidade (exatamente da mesma forma como o amor a mim mesmo e o amor ao próximo estão unidos). A afirmação da liberdade humana passa a equivaler assim à instrumentalização generalizada do corpo, com o desenvolvimento de uma nova ética sexual pública (sim, exatamente como o faz atualmente o Estado brasileiro), que pretende plausibilizar a distinção entre pessoa e seu corpo sexual policiando questionamentos públicos dessa distinção (do que a PLC 122/06 é apenas um exemplo). A ética sexual secular é a ética da desonra.

Impureza sexual e desonra na Bíblia
Ora, o que descrevemos acima é o que Paulo diz em Romanos 1. 24-27: que os homens rejeitaram o conhecimento de Deus e foram por isso entregues às concupiscências do seu coração, “para desonrarem os seus corpos entre si”, mudando o modo de suas relações íntimas, praticando coisas contra a natureza etc. Não é por acaso que o apóstolo associa a concupiscência à desonra do próprio corpo e do corpo do outro. É que a concupiscência leva ao desamor; cessa o amor por mim mesmo e pelo meu próximo, e o fim do amor aparece em nossa relação com o símbolo da alma, que é o corpo. A impureza sexual traz dentro de si o desprezo do indivíduo por si mesmo e pelo seu próximo.

É Paulo quem diz de novo: “Fugi da impureza. Qualquer outro pecado que uma pessoa cometer é fora do corpo; mas aquele que pratica a imoralidade peca contra o próprio corpo” (1Co 6.18).

Graças a Deus por um verso tão claro: a impureza sexual é o pecado do homem contra si mesmo; é a contradição, a desonra do próprio corpo, que deixa de ser tratado como o santuário de Deus, destinado à ressurreição dos mortos. Pois a impureza trata o corpo como um instrumento descartável, como alguns crentes helenistas faziam: “Os alimentos são para o estômago, e o estômago para os alimentos; mas Deus destruirá tanto estes como aquele”. Em outras palavras, “comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”. Não há futuro para o corpo; ele é só uma ferramenta temporária. Por isso alguns dos Coríntios até perderam a fé na ressurreição (1Co 15). Por trás da desonra do corpo está o desespero.

Paulo prossegue, afirmando que aquele que se une à prostituta é uma só carne com ela, e o que se une ao Senhor é um espírito com ele; e que não podemos tornar os membros de Cristo membros de uma meretriz. Ora, tudo isso implica que o corpo não pode ser concebido à parte do eu. O seu destino é o mesmo do eu; as suas relações são as mesmas do eu. Se dou meu corpo à meretriz, dei-lhe também minha alma; se dou a Cristo a minha alma, dei-lhe também o meu corpo. Para Paulo, o hebreu, era inconcebível imaginar que o corpo pudesse ser empregado de qualquer jeito, impunemente, segundo o delírio dos gnósticos. Amar a Deus, amar ao próximo, amar a si -- tudo isso implica honrar o corpo: “Que cada um de vós saiba possuir o próprio corpo em santificação e honra, não com o desejo de lascívia, como os gentios que não conhecem a Deus; e que, nesta matéria, ninguém ofenda nem defraude a seu irmão; porque o Senhor, contra todas estas coisas, como antes vos avisamos e testificamos claramente, é o vingador” (1Ts 4.4-6).

O ensino não permanece consistente? O corpo deve ser honrado; ceder à lascívia é desonra; usar o corpo do outro é desonrá-lo, defraudá-lo reduzindo seu valor. Desonrar o corpo é matar e morrer; é tentar separar o interno e o externo, mas destruir ambos.

Da desonra à consistência através da esperança

O que me impressiona é que o remédio de Paulo para a impureza-desonra do corpo seja escatológico. Ele poderia ter prescrito chás, banhos frios, ou quem sabe uma boa terapia, mas em vez disso lança sobre os pobres fornicadores de Corinto um petardo teológico: “O corpo não é para a impureza, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo. Deus ressuscitou o Senhor e também nos ressuscitará a nós pelo seu poder” (1Co 6.14).

De que modo a ressurreição é uma resposta? Em primeiro lugar, ela é o inverso da desonra do corpo; é a honraria absoluta. Ela significa que o corpo tem um valor singular e eterno -- pois se destina ao próprio Senhor. A doutrina da ressurreição nos diz que o prêmio máximo para o eu é a vitalidade eterna do seu corpo; que a vida espiritual que habita no homem interior finalmente brilhará -- embora, como dissemos, com algum atraso -- através do homem exterior. Portanto, vale a pena amar o corpo e honrá-lo.

Ora, isso é o que chamamos antes de consistência ou integridade. No núcleo da ética sexual cristã deve estar a seguinte doutrina: que o corpo não deve ser o que a alma não pode ser. O corpo e a alma devem estar juntos, e o corpo deve se tornar transparente ao espírito. Ou seja, não posso ser no corpo o que não puder ser no coração. Meu corpo deve se tornar translúcido em minhas relações com o meu próximo. Minha face não pode ser uma máscara a ocultar minhas intenções, mas uma janela para meu homem interior; meu corpo deve ser amado e honrado -- seja ele alto ou baixo, novo ou velho, bonito ou feio, gordo ou magro -- porque o seu valor é o valor da minha alma. Ele é o símbolo, a parte visível daquilo que tem valor incondicional. Devo unir-me ao meu corpo, de modo que o meu coração fique à flor da pele.
Por isso, não posso me relacionar sexualmente com alguém se não puder entregar a minha alma na mesma proporção. Se amo a Deus, amo a mim mesmo. Se amo a mim mesmo, amo ao meu corpo, que é a superfície visível do que eu amo. E se compreendo a natureza do corpo, compreendo que o amor ao próximo é mediado pela sacralidade do seu corpo, e que o seu amor por mim é mediado pela sacralidade do meu próprio corpo. Quem quer instrumentalizar o corpo do outro não o ama, nem se ama; quem aceita ser desonrado pelo outro também não se ama.

E a esperança? É aquilo que abre meus olhos para o valor do meu corpo, e para o desejo de ser consistente.

Se alguém não consegue reconhecer sua própria dignidade, nem pode ver valor em ser consistente, é porque lhe falta a esperança. Ele só vê a morte diante de si. Todo homem que defende a libertinagem sexual só vê a morte diante de si, pois é o desespero o que arranca do homem a integridade e o faz entregar o corpo ao prazer impuro.

Por isso Paulo deu aquela resposta escatológica: “Lembre-se da ressurreição”! Ela é a certeza de que o seu corpo tem valor e deve ser amado, e que o seu corpo e a sua alma não devem ser separados, pois foram feitos um para o outro -- ou melhor, eles foram feitos para ser um só.

E que outra coisa poderia ser a “pureza sexual”?

Não é essa a pureza das crianças?

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Impureza Sexual: Tem Cura?


Outro dia tive uma conversa estimulante mas também algo abaladora com um pastor, no final de uma palestra sobre educação. Na palestra eu havia mencionado um princípio do pensamento reformacional - a idéia de que não há contradições estruturais na ordem criada. Assim não há contradição essencial entre, por exemplo, a esfera da justiça e a da moral, ou entre a esfera estética e a esfera da fé, e assim por diante. Mas uma das minhas alegações fez acender luzinhas no painel dos presentes, incluindo no do amigo pastor: a de que não haveria contradição estrutural entre as esferas biológica e psíquica e a esfera moral.

Ao término da exposição ele reagiu prontamente com uma questão muitíssimo prática: a tentação sexual: "há pouco eu aconselhei um homem envolvido em adultério. O casal está aos poucos se refazendo, e a esposa está disposta a perdoar; quanto ao marido, ele deixou claro para mim que amava a sua esposa. Ele simplesmente foi fraco e caiu. Não lhe faltava amor; faltava-lhe forças para resistir à tentação sexual. Mas isso não implica em uma contradição entre o nível biológico e o nível moral?"

Sem dúvida, as impressões do pastor refletiam um lugar-comum da imaginação evangélica: a tentação seria uma fraqueza interna ao campo sexual, a ser vencida por meio de uma resistência ao desejo sexual, seja por uma intervenção diretamente biológica (arrancar os olhos, ou outra coisa, eventualmente) ou por uma equilibração psíquica. De um modo ou de outro, espera-se que o desejo sexual distorcido seja controlado. Mas se, enfim, perdemos o controle, é porque falta disciplina no trato com o desejo. Precisamos disciplinar o corpo, basicamente; dobrá-lo pela supressão do desejo.

Pois bem; essa é uma das mais falsas verdades que os cristãos gostamos de espalhar. É uma verdade, sim, que o corpo deve ser disciplinado, e o desejo controlado; não é o "domínio próprio" um fruto do Espírito? Entretanto, é uma baita falsidade que possamos controlar os desejos assim mecanicamente, ou mesmo "cirurgicamente".

Imagine o mundo sem o pecado

Façamos alguns exercícios de imaginação cristã; imaginemos o mundo sem pecado. Nesse paraíso, Adão tem desejos de todos os tipos, incluindo os desejos sexuais. Esses desejos tem uma base instintiva biopsíquica, e são acionados automaticamente por sinais óbvios: a forma do corpo da fêmea, certas cores, certos cheiros, etc. Adão está sujeito a tais estímulos exatamente como qualquer outro macho de sua espécie, sendo que sua sexualidade, nesse nível, tem forte analogia com a de outros animais.

Mas Adão não é apenas um animal, feito de pó como todos os outros. Adão é o pó com o sopro divino, é o portador da imagem de Deus. De algum modo essa imagem está impressa no mesmo pó do qual as outras criaturas foram feitas, e entre as características particulares que Adão apresenta está a sua função moral. Adão é capaz de um altruísmo perfeito, muito além do altruísmo de cães e golfinhos. Ele é capaz de amar de forma pura, reconhecendo na forma da fêmea não um corpo adequado ao acasalamento, mas a superfície material de uma pessoa; não como mero objeto, mas como evento dotado de profundidade pessoal, como um Tu que precisa ser amado incondicionalmente por meio do trato que se dispensará ao seu corpo.

Teríamos aqui uma contradição estrutural? Haveria aqui um choque da dinâmica biopsíquica contra a dinâmica moral? Penso que temos excelentes razões para crer que não; não apenas razões teológicas (tudo o que Deus criou é bom) mas também filosóficas. Vou lançar mão aqui da noção de sobredeterminação utilizada em ontologia (a teoria sobre a natureza da realidade). O conceito não é muito complicado, mas exige alguma atenção.

Sobredeterminações ontológicas

A idéia de sobredeterminação ontológica é a idéia de que a dinâmica própria de um nível superior da realidade não contradiz, mas sobredetermina a dinâmica de um nível inferior. Um exemplo clássico disso é a relação entre a dinâmica biótica seus processos químicos subjacentes. A matéria, como se sabe, se associa ou se desassocia segundo leis físico-químicas, e essas leis por si mesmas não produzem seres vivos. Por outro lado, seres vivos apresentam processos exclusivos em relação aos seres inanimados; processos como a reprodução, o metabolismo, e a conservação de informação complexa.

Naturalmente, para realizar todos estes processos, os seres vivos dependem de processos físico-químicos, que seguem leis físico-químicas. Mas se as moléculas que compõe a estrutura de uma célula viva apenas obedecessem a leis físico-químicas, ela se desfaria. As moléculas da célula obedecem às leis físico-químicas dentro de restrições e especificações impostas pela dinâmica biológica do organismo, segundo modos absolutamente improváveis, de um ponto de vista puramente químico. Quando as moléculas da célula seguem apenas as leis físico-químicas, sem nenhum controle biótico, ela se desfaz - porque, obviamente, ela está morta. Dizemos, portanto, que há na célula uma sobredeterminação das leis bióticas sobre as leis físicas.

A sobredeterminação moral

Ora, o mesmo vale para outros níveis da realidade. Há uma sobredeterminação psíquica sobre os processos biológicos do ser humano; e uma sobredeterminação sociológica sobre processos psíquicos; e no final da escala, uma sobredeterminação religiosa e moral sobre todos os níveis estruturais do ser humano. As normas de um nível superior de função humana não contradizem as normas do nível inferior, mas lhe dão formas particulares, habilitando-as a existirem no nível superior. Pense nas moléculas da célula: pela "obediência" às leis bióticas, elas deixam de ser apenas "matéria", e se tornam parte de um ser vivo.

Ora, o que queremos dizer com isso é que é preciso ser um animal para ser um homem; no entanto essa é uma condição "necessária mas não suficiente". A vontade moral e a capacidade humana de amar opera por meio de sua estrutura sexual, mas a transcende, elevando o corpo do homem à condição de espírito, de pessoa. Mas assim como a célula pode morrer entregando suas moléculas às leis brutas do mundo físico-químico, o homem pode morrer moralmente entregando o seu corpo aos estímulos biopsíquicos. O humano no homem pode ser negado e perdido por falta de vontade.

Onde se localiza, então, a falha da impureza sexual? Não no nível sexual, seja em seus aspecto biológico ou psíquico, mas no nível moral. Quando pecamos por impureza sexual, não pecamos por excesso de sexualidade, por excesso de desejo sexual, ou por excesso de estímulo sexual (primariamente falando), mas por falta, por ausência. E aqui estamos simplesmente sendo Agostinianos: o pecado é a privação do bem. O problema da impureza é a ausência moral, não o excesso sexual.

Um Truísmo?

Estaríamos nós dizendo o óbvio? Sim e não. Sim porque isso é simplesmente o que as Escrituras e a tradição ensinam. Não porque isso não é de modo algum a teologia moral popular no meio cristão. Pensemos na conversa com o pastor, que mencionamos acima. Ele afirmou com grande convicção que o marido traidor, no fundo, amava a sua esposa. Ele caiu por ser fraco, não por falhar no amor.

À luz do que acabamos de considerar, no entanto, eu diria que não. Com certeza, o marido traidor amava a sua esposa; mas ele não a amava o suficiente. Na verdade, ele não caiu por fraqueza sexual (ou excesso de desejo sexual), mas por falta de amor. Não foi isso o que nos disse o Apóstolo? "O amor não faz mal ao próximo". Jesus não caiu e não cairia nessa tentação, não porque não tivesse os mesmos desejos sexuais, mas porque ele saberia olhar para cada pessoa envolvida com amor de verdade.

Sejamos específicos: aquele que adultera deixa de amar à sua esposa e de considerá-la como pessoa de valor infinito. E deixa também de amar à sua "amante", tratando-a egoisticamente. Aquele que procura a prostituição, seja ela real ou virtual, não ama aqueles que estão escravizados ao mercado sexual, e tampouco ama a si mesmo; pois se sujeita a ser manipulado e explorado por indivíduos que não tem um pingo de respeito ou preocupação com o seu destino, desde que esvaziem os seus bolsos.

De modo algum eu pretendo dizer com este argumento que não exista o vício sexual; mas sustento que até mesmo o vício tem os seus começos na falta de amor genuíno pelo outro. Todo aquele que sofre com a impureza sexual deve saber, e dizer para si mesmo claramente, que ele não é um pobre coitado, aprisionado por impulsos sexuais e por uma dinâmica biopsíquica ultimamente má inventada por um Criador maldoso. Mil vezes não. A concupiscência existe, sim; mas é uma erva danina. Ela só cresce quando o amor está ausente. E quando ele está presente, alguma coisa forçosamente mudará. É por isso que Santo Agostinho pôde declarar com tanta confiança: "ama e faze o que quiseres".

Problemas oftalmológicos

De acordo com Jesus, a impureza é uma doença dos olhos, de certo modo; um problema oftalmológico, mas altamente infeccioso, a ponto de ele receitar a amputação: "se o teu olho de faz tropeçar, arranca-o". Mas Jesus sabia o que dizia. Ele deixou claro que o que contamina o homem é o que sai do seu coração, não o que entra pela sua boca. A doutrina da "amputação" é uma referência metafórica à mudança dos olhos.

O ser humano tem sérios problemas com os olhos. E eu quero chamar a atenção dos meus companheiros, os homens. Recentemente recebeu alguma cobertura o resultado de uma pesquisa feita na universidade de Princeton, sobre os padrões de resposta neurológica de homens diante de imagens de mulheres. O que Susan Fiske, a diretora da pesquisa descobriu, é que as imagens de mulheres com teor erótico ou sensual, e especialmente as imagens de partes específicas do corpo sem a revelação da face, despertam as mesmas áreas do cérebro masculino tipicamente associadas ao uso de ferramentas e objetos inanimados, ao mesmo tempo em que desativam as partes associadas às relações sociais.

Ou seja, de algum modo a nossa sociedade desenvolveu uma forma de desassociar o interesse sexual da sensibilidade moral a partir da nossa forma de olhar as mulheres. Fomos literalmente submetidos a um maciço treinamento pavloviano para nos acostumarmos a olhar mulheres como objetos, como superfícies materiais sem profundidade pessoal. Nas palavras de Susan Fiske, "eles não as estão tratando como seres humanos tridimensionais".

Isso é o que acontece quando suprimimos a nossa intuição moral e deixamos de ver pessoas diante de nós. Restam apenas corpos impessoais.

Olhar com Amor

Como, então, o amor se manifesta, no que tange à impureza sexual? De novo quero apelar para Paulo: "Não repreendas ao homem idoso; antes, exorta-o como a pai; aos moços, como a irmãos; às mulheres idosas, como a mães; às moças, como a irmãs, com toda a pureza." (1Tm 5.1).

Paulo sabia muito bem o que estava dizendo. Ninguém pode alegar (a não ser, é claro, em casos evidentemente patológicos) que não sabe o que significa olhar para uma mulher linda e não cobiçar. Basta ter mãe ou irmã - ou filha, eu diria. Todos nós sabemos muito bem o que é olhar alguém que, biologicamente falando, poderia ser apenas um objeto sexual, mas simplesmente não sentir interesse sexual por causa do amor, de uma relação de respeito e cuidado em que o outro é verdadeiramente reconhecido como pessoa e valorizado incondicionalmente. O amor faz a gente ter um olhar diferente.

Como é que o jovem Timóteo olharia para uma moça com "toda a pureza"? Olhando-a como se fosse uma irmã de sangue. Paulo nos convida aqui a usar a imaginação, e considerar as moças como se fossem irmãs. Ou seja, tomando-as como pessoas, não como objetos. Isso demandará uma revolução, nos dias de hoje, em que somos ensinados a enxergar os corpos humanos como bonecos de plástico. Jovens e adultos, homens e mulheres, olhando para seus pares, amigos e semelhantes como pessoas - não como nacos de carne, como pernas, bundas e peitos, mas como gente, como humanos com faces, como superfícies físicas de pessoas reais.

Honestamente, preciso dizer a todos os meus companheiros pecadores que não há uma cura completa para essas doenças do olhar, até que a nossa ressurreição seja consumada. Mas há o que Schaeffer chamava de "cura substancial". A impureza no olhar tem cura de verdade, embora seja um caminho difícil; pois amar de verdade é ainda mais difícil que reprimir desejos.

Mas, enfim, não há vitória na "pureza" obtida à custa de repressão do desejo. É inútil congelar uma célula morta para que ela não se desfaça. A única solução genuína e de longo prazo para o problema da impureza sexual é ter amor nos olhos.

Parodiando Santo Agostinho, eu diria: "ama e olha como quiseres".

quarta-feira, 9 de julho de 2008

André Petry e Tony Belloto sobre a Fé dos Homofóbicos: VEJA e COMPREENDA

Na quarta feira 25/06, evangélicos promoveram uma manifestação contra o projeto de lei contra a homofobia. Alguns tentaram "invadir" o senado para apresentar suas reivindicações pessoalmente.

Duas reações me chamaram a atenção - a coluna de André Petry, na Veja, e a sua versão inferior, no dia 02/07, por Tony Belloto. O primeiro compara a resistência evangélica ao projeto de lei com a resistência às leis contra o racismo, e afirma que tal atitude seria "tão reacionária" quanto uma Ku-Klux-Klan defender um "direito" ao preconceito. E argumenta que haveria um erro de interpretação dos evangélicos, quando estes entendem que a lei seria uma limitação à sua liberdade. Diz Petry:

Alegam que a liberdade religiosa fica limitada porque combater o pecado vira crime. É um duplo equívoco. O primeiro é achar que uma doutrina de crença em forças sobrenaturais autoriza o fiel a discriminar o herege. O segundo é atribuir à lei valor moral. O direito penal não é instrumento para infundir virtudes. É um meio para garantir o convívio minimamente pacífico em sociedade. Matar é crime não porque seja imoral, mas porque a sociedade entendeu que a vida deve ser preservada. Dúvidas? Recorram ao Supremo Tribunal Federal. Na democracia, é assim. Lei não é bíblia de moralidade.

Daí Tony Belloto se entusiasmou e não apenas postou uma foto da Ku-Klux-Klan, mas afirmou que "A Ku-Klux-Klan faria boa companhia aos cristãos homofóbicos de Brasília." Descreveu a oposição evangélica como "Jihad Particular". E indicou o filme "Missisipi em Chamas", para temperar mais a discussão.

O texto do Petry tem um pouco mais de conteúdo que o do Belloto, que se contenta em lançar uma bomba de efeito moral. De modo que vou comentá-lo primeiro.

André Petry

Em sua opinião, a posição evangélica seria uma "discriminação do herege", e seu fundamento último seria a "crença em forças sobrenaturais". Bem, não é preciso dizer que isso constitui uma bobagem sem tamanho. O fundamento da oposição cristã ao homossexualismo é uma determinada antropologia, não a crença em forças sobrenaturais. Mesmo quando estas são trazidas à frente, como justificativa, no fundo o ponto em questão é a natureza humana e o lugar da sexualidade na vida humana.

Mas é claro que há outras razões para os evangélicos atribuirem a Lei à "obra do demônio". Outras muitas razões, todas bem terrenas, sociológicas e até políticas. A resistência tem a ver com a perceção de transformações profundas e estruturais nas relações humanas, no ocidente e no próprio Brasil. Entender o que está acontecendo é ler esses temores e motivações mais profundas, sociológicas, religiosas e culturais, abaixo do discurso feito ao microfone.

Petry errou pra mais de metro, portanto, em sua interpretação do que está acontecendo. Faltou hermenêutica; faltou antropologia. Estaria tudo bem, não fosse o nosso mau antropólogo um colunista da Veja.

Ao mesmo tempo, Petry mostrou um evidente preconceito contra a religião em sua fala. O que ele quer dizer? Que descrença em realidades sobrenaturais, e uma visão naturalista de mundo, dão a ele o direito de discriminar "hereges anti-modernos", como os evangélicos? Que por terem tais crenças esquisitas eles estão excluídos de discussões e manifestações na arena pública?

A definição de religião de Petry, ao menos aquela implícita em suas observações, é um pouco pobre, para dizer o mínimo.

Preciso comentar ainda as idéias de Petry sobre moralidade e direito. Veja só o que ele diz:

O segundo [erro] é atribuir à lei valor moral. O direito penal não é instrumento para infundir virtudes. É um meio para garantir o convívio minimamente pacífico em sociedade. Matar é crime não porque seja imoral, mas porque a sociedade entendeu que a vida deve ser preservada. Dúvidas? Recorram ao Supremo Tribunal Federal. Na democracia, é assim. Lei não é bíblia de moralidade.

Ora, ora... ;-D

Em primeiro lugar, este é o caminho da ruína cultural. É uma meia-verdade que a lei não é instrumento para infundir virtudes. Matar é crime porque a sociedade entendeu que devemos preservar a vida. Mas eu pergunto: porque a sociedade entendeu isso? Não é porque ela entendeu que matar é moralmente incorreto? Afinal, em muitas sociedades se mata. Deveríamos recomendar outra coisa, se aquela sociedade não entendeu que a vida deve ser preservada? E se a sociedade entender que os evangélicos deveriam ser enjaulados? Pior: e se ela entender que os homossexuais deveriam ser mortos?

Petry nos presenteia com uma completa ficção, quando diz que foi a lei que proibiu o assassinato. Isso jamais aconteceu. De onde será que ele tirou isso? De algum manual empoeirado de positivismo jurídico?

Muito pelo contrário, a sensibilidade moral das pessoas é que as obriga a fazer a maior parte das leis. A lei não infunde moralidade; é infundida por ela.

Consideremos, por exemplo, a lei da homofobia. Tanto o legislador, como a mídia, os movimentos homossexualistas, e o próprio senhor Petry apelam para a nossa sensibilidade moral ao justificar o projeto de lei. Veja o que o Sr. Petry diz:

"Outra coisa é humilhar os gays, apontá-los como filhos do demônio, doentes ou tarados."

"O que essa proposta pretende dar aos gays, e sabe-se lá se terá alguma eficácia, é aquilo a que todo ser humano tem direito: respeito à sua integridade física e moral."

"Os seres humanos diferem das coisas porque, além de tudo, têm dignidade."

Ora, não disse o Sr. Petry que a lei não é bíblia de moralidade? Porque então ele deseja nos entulhar com esses elevados ideais de moralidade - não humilhar, respeitar, reconhecer a sua dignidade - para defender a lei da homofobia? Pode-se desenvolver uma legislação não-moral para defendê-los, mas o seu fundamento não será mais jurídico. Será moral.

Puxa, ver uma contradição tão gritante, sobre um tema tão sério, num texto tão curto, de uma revista tão influente, dá vontade de chorar. Uma coisa horrorosa mesmo.

A propósito, se a sociedade não quiser aprovar a lei da homofobia (não nos esqueçamos de que boa parte dos brasileiros aceita a moral cristã), a resistência ao comportamento homossexual não será crime. Mas dentro do raciocínio do Sr. Petry, ela ainda será imoral, injusta, inumana, etc. Ora, deveríamos por isso condená-la? Deveria a lei brasileira seguir a bíblia do Sr. Petry?

Talvez o Sr. Petry não o saiba, mas não é possível dar conteúdo a um sistema de leis, sem apresentar pressuposições antropológicas e, enfim, morais. E sabe de uma coisa? Eu concordo com ele: precisamos defender a dignidade dos homossexuais. Por razões morais. Meu senso moral me diz que precisamos respeitar a dignidade dos homossexuais. Isso me estimula até mesmo a pensar que algumas leis a respeito fariam um grande bem.

Mas o problema com a lei da homofobia é que ela protege alguns princípios morais à custa do estupro de outros. Nós, evangélicos, estamos justificados em rejeitá-la incondicionalmente. Ela está carregada de valores morais que não aceitamos, e pessoas desinformadas a respeito como o Sr. Petry querem nos fazer acreditar que nós é que queremos impôr uma moralidade aos outros.

Essas pessoas querem usar a moral para justificar a aprovação de uma lei, mas ao mesmo tempo querem separar lei de moralidade, para silenciar toda a oposição moral a essa lei. Meu Deus. É uma contradição tão grosseira que, nas palavras de Petry, "é difícil crer que seja de boa-fé".

Tudo isso é uma grande hipocrisia. A lei não é bíblia de moralidade, mas as pessoas que fazem a lei sempre trazem as suas próprias bíblias. Pessoalmente, eu dispenso a bíblia moderna do Sr. Petry.

Tony Belloto

E quanto aos comentários de Tony Belloto? Como poderiam ser mais preconceituosos em relação aos evangélicos? Que absurda comparação foi aquela, com a Ku-Klux-Klan, estimulando entre os leitores o medo e o ódio aos evangélicos por associação? Sugerindo que a atitude dos evangélicos contra o comportamento homossexual seria comparável à atitude dos racistas que queriam "fazer piadas" "queimar as casas", "açoitar as costas" e "tirar as vidas" dos negros?

A comparação é descabida. A KKK jamais fez qualquer coisa que prestasse. No seu currículo consta apenas a violência. Já os evangélicos brasileiros não tem qualquer histórico de violência ou perseguição ativa de minorias. Nem mesmo dos homossexuais.

O que o Sr. Belloto faz além de ganhar dinheiro do alto de sua coluna na VEJA? Será que ele tem idéia do que fazem todas as semanas milhares de pastores e missionários evangélicos, sem falar dos religiosos católicos, cuidando de pessoas sofridas, pobres, viciadas e escravizadas pelo crime nas favelas deste país? Sua crítica não reflete um patente preconceito?

Um típico moderno ingrato, que celebra as suas liberdades individuais e os avanços da modernidade, sem tomar conhecimento da importância do cristianismo para que tal mundo viesse à existência.

Provavelmente o Sr. Belloto ignora que a abolição da escravatura só começou no mundo pelo trabalho de um evangélico, o inglês William Wilberforce (também tenho um filme na manga: "Jornada para a Liberdade" - Amazing Grace, em inglês). E que vários dos grandes defensores da abolição na América eram evangélicos. E que os protestantes no Brasil eram abolicionistas. E que muitos evangélicos lutaram pelos direitos civis na América.

Será que ele sabe que o movimento pentecostal, que domina o movimento evangélico brasileiro, começou entre negros americanos e foi instrumento de emancipação para eles e para muitas mulheres? Será que ele sabe que a maior parte dos negros brasileiros é pentecostal? E que as Assembléias de Deus tem o maior contingente de ministros religiosos negros do Brasil?

Ele não sabe. Se soubesse não faria essa torpe, indecente e ridícula comparação dos evangélicos de Brasília com a Ku-Klux-Klan. Ele teria vergonha (espero).

Raça não é comportamento. Não é um valor com carga moral. Não se pode colocar o comportamento homossexual no mesmo balaio, junto com a discriminação por sexo ou por raça, ou por nacionalidade. As coisas são simplesmente diferentes.

Mas com certeza, a KKK faria boa companhia àqueles cristãos homofóbicos de brasília (os realmente homofóbicos). Assim como o sr. Tony Belloto.

Só a Heterossexualidade é Excêntrica

Os cristãos tipicamente crêem em seres sobrenaturais, mas não é por isso que o cristianismo rejeita o homossexualismo, como sugere o sr. Petry do alto de sua paupérrima teologia moral.

Para o cristianismo, basicamente, a relação homoerótica é falsa, inautêntica, porque não envolve uma entrega a um semelhante "de outro tipo". A relação "hetero" é uma ponte entre dois mundos estranhos, e por isso mesmo é corajosa e ex-cêntrica, para fora do ego em direção ao outro. A relação "homo" busca "o meu tipo" dentro de outro, ao invés de buscar o irredutivelmente diferente. Ainda que a pessoa seja outra, no nível sexual a alteridade é eliminada. Por isso mesmo, para o cristianismo, não pode existir uma família cujo centro seja uma relação homossexual. Essa relação é deficitária na posição cristã, não por causa de algum dogma irracional, mas porque é errado fechar um círculo relacional (em qualquer nível, inclusive no nível do sexo) no qual a diferença seja eliminada exatamente no ponto em que deveria ser corajosa e entusiasticamente vivenciada.

O movimento homossexual fala muito em "diferença" e em "igualdade de direitos", mas o que ele quer é o direito de evitar a verdadeira diferença sexual sem ser reprovado por isso. Isso é inautêntico. Ninguém deveria ter o direito de esconder este fato atrás de uma legislação. As pessoas que escolherem este caminho precisam ser respeitadas, mas o caminho em si não pode ter uma proteção legal especial. Isso, sim, é uma interferência ilegítima da lei no campo moral.

A aventura sexual não deveria ser um exercício narcisista. Como os defensores das bases evolucionárias e genéticas do homossexualismo vem demonstrando, o comportamento homossexual é compartilhado por todos os animais (inclusive o animal humano), mas isso não significa de modo algum que ele seja humanístico no sentido pleno. Isso só pode ser decidido no nível pessoal e interpessoal, no nível ético da vida humana. Por esse ângulo, no entanto, é evidente o ethos con-centrado, narcísico do comportamento homossexual.

O mero fato de muitos de seus defensores apelarem para o comportamento dos animais já depõe contra eles. Só a negação de qualquer ética sexual pode justificar isso.

Todo aquele desfile colorido e esquisito, de pessoas "diferentes", "alternativas", que não se encaixam nos padrões comuns, apenas disfarça a verdade: boa parte delas falhou em lidar com a diferença, e agora quer apresentar essa falha como uma genunína diferença. É trágico que elas estejam encerradas nessa condição; mas nem por isso ela se torna correta.

O homossexualismo é excêntrico, sim, em relação ao heterossexualismo; ou seja, como fenômeno social e até contracultural. E precisamos aprender a respeitar e conviver com a homossexualidade. Mas o fato é que a relação homossexual é excêntrica para compensar sua falta de excentricidade. Só a heterossexualidade é ontologicamente excêntrica, excêntrica onde deve ser.

O que Precisamos Aprender

Para finalizar, eu diria que os evangélicos precisarão aprender duas coisas.

Em primeiro lugar, aprender a manter uma posição com dignidade. Muitos cristãos se acovardam na hora de criticar abertamente o que precisa ser criticado, com medo de serem considerados intolerantes. Mesmo diante de críticas absurdas e cheias de elementos abusivos como as comentadas acima.

A despeito disso, precisamos fazê-lo. Não podemos temer tanto a opinião dos homens. Os cristãos primitivos eram acusados pela opinião pública como "devoradores de crianças" (os pagãos não conseguiam entender a coisa de "comer a carne e beber o sangue do filho de Deus" :-D). Pessoas como Tony Belloto continuarão dizendo esse tipo de bobagem preconceituosa contra os cristãos.

Em segundo lugar, precisamos encontrar um jeito de defender os direitos dos homossexuais, se não quisermos ter a nossa posição sobre o assunto definida e manipulada pela noção ideológica de "homofobia". É evidente que o termo foi cunhado a fim de empacotar toda e qualquer crítica aberta ao comportamento homossexual. O conceito não foi desenhado para libertar os homossexuais de alguma prisão, mas a fim de promover a repressão dos críticos da promiscuidade homossexual. Será (e vem sendo) uma desgraça, no entanto, se os evangélicos simplesmente vestirem a "carapuça", sem pensar com autocrítica no que pode ser feito para promover a humanidade do homossexual.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

O Homossexualismo não Vai Contra a Natureza. Será?

Tenho uma cadela muito espertinha que de vez em quando faz cocô na minha cama. Previsivelmente, eu fico bravo. Mas minha esposa sempre diz: "Ora, Guilherme, é uma cadela!" Bem ela dizia isso antes. Agora já está ficando brava também. Sim, eu sei, isso é pura e simplesmente uma cachorrice, uma coisa de cachorro, da natureza canina - não o cocô na cama, propriamente, mas num lugar com o qual a minha cama, por uma ironia da providência, é semelhante. Sim, sim, mas... Cocô na cama é contra a minha natureza, bolas!

Mas será mesmo?

Na Folha Ciência

Com toda a certeza essa não seria a resposta do Dr. Andrea Camperio Cianni, geneticista da Universidade de Pádua, que concedeu entrevista à Folha Ciência publicada em 21 de Junho de 2008. A entrevista foi motivada por um estudo publicado por ele na revista PLoS One, no qual ele apresenta um modelo genético para explicar por que a homossexualidade aparece conectada ao aumento da fertilidade e mães e avós na linhagem materna do indivíduo.

De acordo com o modelo, haveria um gene (ou uma combinação?) que, presente em indivíduos do sexo feminino, aumenta a fertilidade e, em indivíduos do sexo masculino, gera uma "ligeira" atração por homens. Assim o gene que produz vantagem reprodutiva em mulheres produz, em homens, desvantagem reprodutiva. O Dr. Cianni nega explicitamente que sua teoria implique um determinismo genético - que o homossexualismo seja determinado pelos genes. Seu ponto apenas é que provavelmente há mesmo fatores genéticos que favorecem a "androfilia", ou a atração por homens, e que podem ocorrer tanto em homens como em mulheres.

A teoria parece de fato bem interessante. Sendo o homossexualismo tão comum e recorrente em diferentes comunidades humanas, seria de se esperar mesmo que ele tivesse algum tipo de base genética. Mas isso não é tudo. O Dr. Cianni apresenta algumas interpretações do significado de seu modelo que vale a pena considerar:

Há genes influenciando algumas pessoas, tornando mais fácil para elas optar pela homossexualidade. Ser ou não ser homossexual, porém, é resultado de história de vida, além de genes. O que queremos saber é por que os genes que influenciam a homossexualidade existem. Um gene que reduz a taxa de reprodução das pessoas deveria desaparecer. Esse é o dilema darwiniano da homossexualidade. A posição da Igreja tem sido por muito tempo a de dizer que o homossexualismo seria um vício, um pecado contra a natureza. Com o nosso estudo, podemos dizer claramente que o homossexualismo não vai contra a natureza. Ele faz parte da natureza, e é demonstrado precisamente pela seleção sexual darwiniana.

Pode-se, sem dúvida, dar diferentes interpretações do fato. Vamos tentar uma.

Talvez o nosso mecanismo genético seja deveras imperfeito, realmente. Na falta de uma boa solução para promover a fertilidade feminina, temos um gene que, ao invés de ter seu efeito androfílico neutralizado por uma compensação hormonal ou até genética, atua livremente em indivíduos de sexo masculino. Assim, a nossa espécie convive com o indesejável efeito colateral de produzir - homossexuais! Nas palavras do próprio Cianni, afinal, eles seriam indivíduos em desvantagem reprodutiva.

Ora, temos conhecimento da presença de mecanismos bastante desajeitados ou até desvantajosos, que eventualmente complicam a vida de determinadas espécies. Mas seriam meramente imperfeições (ao menos, é assim que elas são nomeadas pelos críticos do Design Inteligente) associadas às vicissitudes do processo evolucionário. Não poderíamos falar em doenças, a não ser que aplicássemos o termo a espécies como um todo.

Seja como for, seria mesmo muito chato, e politicamente incorretíssimo sugerir que o homossexualismo não é contra a natureza, porque imperfeições adaptativas, propensões genéticas potencialmente desvantajosas, ou até por um anomalia evolucionária são fatos da natureza. Pois até mesmo o câncer é resultado do mesmo mecanismo que torna possíveis as mutações, indispensáveis à evolução. Em outras palavras, sugerir que a homossexualidade é um acidente evolucionário; um efeito colateral...

Bem, acho que o Cianni não seria tão bobo de colocar as coisas nesses termos (embora não seja preciso muito esforço para enxergar que o rei está nu).

O mais curioso, no entanto, é a conclusão brilhante que Cianni tira desse fato: "podemos dizer claramente que o homossexualismo não vai contra a natureza. Ele faz parte da natureza". Uai, eu perdi alguma coisa? ;-D

A Falácia

Bem, vamos por partes:

1) Em primeiro lugar, Cianni supõe que uma coisa "faz parte da natureza" porque tem base genética e pode ser explicada pela evolução Darwiniana;

2) Em segundo lugar, ele rejeita a idéia de que o homossexualismo seja um "pecado contra a natureza", porque tem base genética.

Mas, convenhamos: que tipo de comportamento humano pode ser considerado contrário à natureza por esse critério? Com toda a certeza, todo tipo de comportamento humano deve ter alguma base genética, nem que seja indireta. Tudo o que o homem pode produzir em termos culturais, está baseado em possibilidades genéticas. Mas o invés de multiplicar exemplos disso aqui, vamos apenas tomar os exemplos de Cianni:

A comunidade gay sempre fica muito infeliz quando pessoas falam sobre esse assunto e os jornalistas começam a usar manchetes como "Descoberto o gene gay". Isso é besteira. Nós, geneticistas comportamentais, sabemos há muito tempo que o debate de natureza contra criação é fútil. Todos os genes têm de se expressar em um ambiente. O ambiente influencia a expressão do gene, assim como o gene influencia o ambiente onde ele se expressa. Vou dar um exemplo. Todos nós temos genes que favorecem o roubo, porque se não tivermos o comportamento do roubo, não sobreviveremos em uma emergência onde ele pode ser necessário. Isso não significa que sejamos forçados a sermos ladrões.

Ótimo. Não podia ser melhor.

Todos nós temos genes que favorecem o roubo. Então o roubo não é contra a natureza, não é mesmo? Coitado daquele ladrão. Ele apenas tem uma desvantagem associativa de base genética. Coitado de mim também. Afinal, eu sou um bobão que tem uma desvantagem moralista de base genética. Eu acho que o ladrão é um safado que precisa ir em cana. Espero que tenham pena de minha desvantagem genética.

Sim, vamos ser justos. O Dr. Cianni está explicando que alguns genes nos ajudam, em uma situação, e nos atrapalham em outras. Não dá para taxar os genes de "maus" e "bons" (embora Richard Dawkins insista em dizer que eles são egoístas). Então o que precisamos considerar, ao julgar um comportamento, segundo as suas próprias palavras? O ambiente. Aquilo que vai além dos genes.

A despeito disso, a conclusão consistente do raciocínio de Cianni é de que a ladroagem não é contra a natureza. E como sabemos que o estupro, o assassinato, a pedofilia, a violência em geral, diversas formas de sociopatia e psicopatia, depressão, irritabilidade, toxicomania, e uma infinidade de outros "desvios comportamentais" tem, todos, bases genéticas reconhecidas, devemos concluir que todos são naturais. Não são contra a natureza. Todos tem explicações em termos da seleção natural Darwiniana (e tem mesmo, não estou brincando).

Diante dos fatos, tudo o que posso dizer é repetir as palavras do nosso amigo italiano: "isso não significa que sejamos forçados a sermos ladrões".

Igualmente, "Isso não significa que alguém é forçado a ser homossexual" - mesmo que alguém tenha genes que favorecem essa prática, isso não significa de modo algum, absolutamente, que o homossexualismo seja bom para o ser humano, ou válido, ou que não seja um pecado.

E por falar em pecado: em primeiro lugar, o pecado é contra Deus, e em segundo lugar, contra o homem. Sem dúvida concordamos com o Dr. Cianni, de que não há pecado contra genes (ou "a natureza" em suas palavras). Só parece estranho que ele atribua a afirmação dessa tolice à Igreja.

Contra que Natureza?

Quero avançar um pouquinho na reflexão.

Um mínimo de sensibilidade demonstrará que o Dr. Cianni está relativamente confuso (ou talvez, tenha se confundido apenas na sua entrevista, o que é provável) a respeito do conceito de "natureza". Ele diz sem meias palavras que o que tem base genética não é contra a natureza. Isso equivale a dizer que "o que é, é certo".

A não ser que ele postulasse a existência de duas realidades separadas: a "natureza", que seria tudo o que é material ou biológico, e a "cultura", que seria uma criação arbitrária da liberdade humana. O problema com este modelo, é que se a liberdade humana e a criatividade cultural forem reais, a ponto de afetar a nossa resposta aos genes, isso significaria que elas são, efetivamente, uma "segunda natureza" distinta da "natureza física". Mas eu pergunto: de onde teria vindo tal natureza? Do espaço sideral?

Uma solução mais interessante seria simplesmente admitir que o que é natural para o homem não é o que tem uma base genética, mas o que realiza as possibilidades criativas do homem. Em outras palavras, para julgar um comportamento, não é suficiente empregar um termo genérico como "natureza". Precisamos de um conceito de "natureza humana". O Dr. Cianni efetivamente emprega um conceito de natureza humana como sendo indistinto de "natureza biológica". Isso não é suficiente, é óbvio. Um conceito válido de natureza humana precisa dar conta da base biológica, mas também dos aspectos social, estético, jurídico, ético, religioso, racional, e assim por diante.

A partir do conceito de "natureza" do Dr. Cianni, até o nazismo não é contra a Natureza. Afinal, quem sabe se a mãe natureza não está tentando nos extinguir, agora que descobriu que somos prejudiciais à vida na terra? É por isso que temos bombas atômicas, Osama bin Laden, Bush, a rede Globo, e a Folha Ciência, afinal. E o Dr. Cianni, é claro.

Eu estaria disposto até mesmo a admitir que, talvez, o gene (se ele existe mesmo) que favorece a androfilia nos homens (o homossexualismo) tenha uma finalidade interessante, útil, como é o caso do gene do roubo (que ajuda na autodefesa). Talvez, por exemplo, ele sirva para que exista o celibato clerical. Por que não? Uma procissão é algo muito mais interessante do que a Parada Gay, aquela coisa horrorosa.

Aprender a "Natureza"

Apenas para estabelecer um contraponto, cito a entrevista do educador e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, Yves de La Taille, para a revista Nova Escola deste mês. Discutindo o problema da falta de princípios na escola, e a necessidade de uma educação ética, ele dizer que "A dimensão moral da criança tem de ser trabalhada desde a pré-escola. Ética se aprende, não é uma coisa espontânea".

O que seria ensinar ética a uma criança? Se ética não faz parte da "natureza", nem deveríamos ensiná-la. Afinal, seria uma forma de reprimir a natureza, que é sempre "espontânea".

A ética pertence à natureza humana, não à natureza "em geral". O fato de ela precisar ser aprendida não significa que não seja parte de nossa constituição. É por isso que o homossexualismo não é contra a "natureza" em geral, mas é contra a "natureza humana": é éticamente problemático. Mas em tempos de reducionismo materialista, ou genético, ou sociológico, é difícil, muito difícil fazer as pessoas encararem a verdade.

Tudo o que posso dizer...

Bem, seja como for, tudo o que posso dizer é que a entrevista, do entrevistado ao entrevistador e à escolha do título, reflete a mesma monstruosa, colossal, titânica ignorância do homem moderno em relação à sua verdadeira natureza. Se não sabemos mais o que é a natureza humana, como teremos condições de dizer o que é contra a natureza, e o que não é?

Assim, o jornalismo científico popular continuará "demonstrando" que, já que existe homossexualismo entre macacos e ratos, isso é simplesmente "a natureza". Que natureza minúscula.

E a mim, meu Deus, o que me resta? Vou me juntar à minha cadela e evacuar na minha própria cama.

Mas não vai ficar assim não. Vou fazer dentro da casinha dela também.