terça-feira, 17 de abril de 2007

Vou lhes dizer o que há de Errado com o Teísmo Aberto

“Porque, tendo o conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças... e trocaram a glória do Deus incorruptível em semelhança de imagem de homem corruptível”.

Rm 1.21,23

Sim vou lhes dizer.

Sem grandes pretensões teológicas, ou profundas explanações.

Certo, vou pintar uma caricatura. Ser caricaturado é geralmente uma experiência desagradável. Eu já fui caricaturado. Uma vez dois alunos desaforados fizeram-me uma ótima caricatura, com foco especial em meu abdômem, que me custou meia hora de aula.

Enfim, caricaturas têm sua utilidade, quando não estão meramente desviando a nossa atenção para o que é menos importante (como o meu abdômen, no meio de uma exposição sobre a história do Novo Testamento). Os amigos me desculpem, se a minha caricatura parecer demasiado caricatural. Ademais, nunca fui bom desenhista.

Faço apenas uma ressalva, quanto à minha caracterização dessa doutrina: é que, enfim, toda teologia atinge a sua forma popular e, a forma popular do teísmo aberto não será algo muito diferente da minha caricatura. Talvez porque a forma popular é, em si mesma, uma caricatura.

A característica central do Teísmo Aberto é a afirmação coerente da liberdade ontológica da criação em relação a Deus. Isto é, a autodeterminação proporcional das criaturas, culminando na liberdade criativa do homem. Sobre esta base se assenta uma revisão da doutrina de Deus, segundo a qual a sua relação com as criaturas não é de soberania e controle absoluto, mas de diálogo e negociação. Deus se relativiza para abrir espaço para as criaturas; se temporaliza de modo que o futuro passa a ser uma construção comum Dele mesmo com as suas criaturas.

Daí dizer-se que Deus “não sabe o futuro”, no Teísmo Aberto. É que ele não pode saber algo cuja existência depende da vontade de suas criaturas, em cuja liberdade Ele não pode penetrar, e cujas decisões Ele não pode prever. O presente, no Teísmo Aberto – como no Teísmo do Processo, seu irmão “liberal” – é fruto da conjunção aleatória de diversas vontades, sob a supervisão amorosa e jamais impositiva de um Deus que luta para “não deixar a peteca cair”.

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Andrew Fellows, agora meu vizinho duas casas abaixo em L’Abri é um sujeito cativante. Alessandra comentou com uma ponta de inveja que até o seu cachorro é feliz. Mas não se tratava do cachorro, eu sei (se bem que uma vez eu tive inveja de uma formiga, por não ser ela capaz de partilhar de meus sofrimentos intelectuais).

Era o momento: o sol, a família, a música – ah, a música! Ella Fitzgerald, numa brilhante manhã de Páscoa, enquanto Andrew saía de sua sala exclamando com a alegria estampada nas faces: This is ressurrection music, yes? This is!

Mas todo o momento era ressurreição. Pela primeira vez desde que chegamos na Inglaterra sentimos o calor do sol na pele. O céu estava aberto, e a primavera começara a revelar suas cores no maravilhoso jardim que se estende bem diante da varanda dos Fellows – a varanda de onde Andrew anunciou a “música da ressurreição”. De fato, a suavidade da voz e a doçura de uma harmonia previsível, mas, absolutamente feliz, como que celebravam artificialmente o que nos era dado naturalmente;

Eis, então, que uma maravilhosa inversão de sentido se consumava bem diante de nossos olhos e ouvidos; e todos sentimo-la: era como se toda aquela beleza, tranqüilidade e harmonia houvesse sido criada para aquele momento; como se a música, as conversas, as pessoas – o elemento humano naquele instante – fossem a coroação e a plenitude do que estava ali. Não, mais do que isso: é como se o momento em si, reunindo natureza e personalidade numa totalidade de sentido feliz, fosse a coroação de tudo. Aquele momento foi uma dádiva.

Perdoem-me. A poluição humanista pesa em minha língua. É claro que não houve nenhuma inversão de sentido, exceto aquela que nos fez destruir a unidade do dom divino, aquela maldita e hipócrita “laicidade”ocidental. Então aquele domingo foi uma dupla dádiva. A dádiva do sentido, e a dádiva de percebê-lo.

“Guilherme!” “Não passa uma manhã, em todos os anos em que temos vivido aqui, na qual eu e Helen não agradeçamos de todo o coração por viver neste lugar, e ver esta paisagem maravilhosa” – Foi o que Andrew me disse naquele almoço, entre uma batata e outra.

Poucos minutos antes havíamos trocado alguns pareceres sobre o Teísmo Aberto, e o ponto emergiu novamente. “Andrew” – eu respondi – “você sabe que eu sou um calvinista. Para mim Deus está diretamente envolvido em todos os acontecimentos, seja na natureza, na história, ou nas escolhas individuais. Isso significa que não posso ver este momento senão como um dom. Cada flor, cada raio de sol; cada pessoa, cada pássaro; esta casa, esta varanda, este lago; Ella Fitzgerald, e estas lindas flores amarelas bem diante de nós, e esta manhã de ressurreição. Um defensor do Teísmo Aberto não pode crer nisso coerentemente, porque em seu mundo o presente é o resultado misto da vontade divina e da liberdade das criaturas, de um modo imprevisível para o próprio Deus. Assim, um momento maravilhoso não é uma dádiva; é uma conjunção casual de escolhas diferentes e independentes. Um milagre da sorte, à qual o próprio Deus deverá oferecer ações de graças”.

Ao que Andrew concordou prontamente. Se há alguma coisa bem definida na sua teologia, ao que eu pude compreender, é a crença, a confissão, e prática de agradecer a Deus por todas as coisas.

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Vou-lhes dizer o que há de errado com o Teísmo Aberto.

Sem me desculpar por minha caricatura, sem arrazoado rigoroso, sem densidade maior do que a do ar, quero dizer algo que sinto vital. Como o ar mesmo. Tão rarefeito que não se pode apanhar com as mãos, mas tão delicioso quando o inspiramos puro...

É a pura verdade. O defensor do Teísmo Aberto não pode realmente agradecer a Deus. Pode, sim, agradecer pela vida – em parte. Pela beleza das flores – em parte. Por Ella Fitzgerald – em parte. Pela felicidade humana – em parte. Pois a outra parte não lhe pertence. A outra parte é a dádiva da sorte. A sorte de ver a liberdade das criaturas somar-se à sua própria num momento maravilhoso mas completamente instável; cheio beleza mas sem fundamento absoluto: uma virtualidade cósmica.

O mundo do Teísta Aberto é um mundo sinérgico, em última instância. Um mundo fora de controle e sem sentido supremo; um mundo no qual podemos dizer com satisfação, ao oponente ateu, que “Deus não tem nada a ver com a maldade humana, nem com os tsunami, nem com a guerra”. E ao mesmo tempo, por uma irresistível conseqüência teológica, um mundo no qual os momentos de felicidade e plenitude não podem ser atribuídos a Deus. Pois Deus é apenas uma força entre outras – a mais potente, sim, mas não a causa intencional.

Como pode ser verdade que aquele momento não foi uma dádiva divina para nós? Ella Fitzgerald, a primavera, as flores amarelas, e as batatas temperadas da Helen? O ar fresco, o sol, e max, o cão feliz? E nós, naquele momento, com aqueles sentimentos, aquelas experiências, aquelas palavras...

Vou lhes dizer:

O Teísmo Aberto é uma pintura pós moderna, um salto no escuro. Aparentemente humilde, oferecendo-nos um deusinho humilde, e um cristianismozinho humilde, tolerante, aberto. Mas seus ossos são de aço. O aço frio do humanismo secular. Da autonomia humana e do desencantamento radical da visão de mundo teísta. Uma cria abortiva da modernidade.

É mentira. Provavelmente o seja filosoficamente – talvez isso venha a ser demonstrado, ou já tenha sido demonstrado – mas com toda certeza é mentira esteticamente. É feio. É kitsch, porque é por demais bem-proporcionado. Um deusinho dos sonhos, do qual ninguém tem medo. Um deus domesticado, homem bom elevado à bilionésima potência, sem qualquer elemento aterrorizante. Uma divindade cuja graça pode me levar pra bem pertinho do céu, mas não pode me pôr lá dentro. No final, todos os que seremos salvos, o seremos graças a Deus e a nós. Lutero riria desse Deus. É Erasmiano demais para um bom protestante.

É mentira. Só pode ser mentira. Eu sei que aquele momento foi uma dádiva. Pois ele queimou em meu ventre, tanto quanto o dia da minha conversão. Cada cor, cada cheiro, cada milímetro, cada segundo, e cada ação humana, foi uma dádiva única. Por isso tudo fazia sentido. Todo aquele momento foi expressão, em sua unidade e plenitude, da beleza divina e de seu amor. Essa é a verdade deliciosa. Respire-a, sinta-a em seus pulmões!

Graças a Deus! Graças a Deus!

Pois eu não vivo no mundo antropocêntrico do Teísmo Aberto. E também porque o teísta-aberto vive comigo, no mundo de Deus.

Graças a Deus! Pois todos nós vivemos no mundo real – eu e meus irmãos teístas-abertos. O mundo real, sobre o qual Deus é soberano sobre todas as coisas. O mundo no qual podemos encher a boca e exclamar,

Graças a Deus!

7 comentários:

Anônimo disse...

Não é necessário cometar, meu caro Guilherme... Você é brilhante!!!

Uma sugestão: nós aqui no CADI estamos nos degladiando (no bom sentido) sobre esta questão do Teísmo Aberto. Escreva uma breve refutação a esta teologia com fundamentação bíblica e teológica, seria bem-vinda e necessária para os teus amigos aqui.

Mande abraços para a tua família maravilhosa e para o Adrew!!!!

Gustavo disse...

Guilherme,
Como Deus é bom! Depois de uma semana difícil, em plena Sexta-Feira ler um texto tão precioso. Uma dádiva de um Deus que cuida dos seus.
Deus te abençoe.
um abraço
Gustavo Ávila

Ewerton B. Tokashiki disse...

oi Guilherme

Fico feliz com a porta que o Senhor lhe abriu para estudar neste lugar abençoado!

Eu e minha família estaremos orando por você pelo seu lar.

Abraços

Guilherme de Carvalho disse...

Obrigado Ewerton. As lutas são muitas, mas as bênçãos são maiores. Vou contar com as suas orações!

Guilherme

Carlos disse...

Guilherme, o seu texto é bonito pra proposta colocada mas falta algumas coisa e procurei reformula-lo com as suas proprias palavras e poderia recitar o mesmo para o andrew, veja abaixo:

Poucos minutos antes havíamos trocado alguns pareceres sobre o Teísmo Aberto, e o ponto emergiu novamente. “Andrew” – eu respondi – “você sabe que eu sou um calvinista. Para mim Deus está diretamente envolvido em todos os acontecimentos, seja na natureza, na história, ou nas escolhas individuais. Isso significa que não posso ver este momento senão como um dom. Cada criança boiando afogada apos o tsunami, cada bala perdida e não perdida nas favelas que encontra aquele lindo bebe na barriga da pobre mãe; cada pessoa morta nos holocaustos, cada favela; esta casa destruida pela bombas atomicas, cada criança negra morta na áfrica pela fome e a aids, cada desgraça; Adolf Hitler, e estas lindas flores amarelas bem diante de nós, e esta manhã de ressurreição. Um defensor do Teísmo Aberto não pode crer nisso coerentemente, porque em seu mundo o presente é o resultado misto da vontade divina e da liberdade das criaturas, de um modo imprevisível para o próprio Deus. Assim, um momento maravilhoso, e um mundo destruido, não é uma dádiva; é uma conjunção casual de escolhas diferentes e independentes. Um milagre da sorte, à qual o próprio Deus deverá oferecer ações de graças”.

Guilherme de Carvalho disse...

Bem Carlos,

Yes, sua paródia foi sem dúvida nenhuma grotesca...

Mas temos aqui o grande problema do teísmo, o problema do mal. Devo dizer que, mesmo tendo uma idéia do que seria a resposta a este problema, não estou seguro de que tenha a solução para ele. Digo, uma solução teórica satisfatória. Mas não penso que agora seja o momento de discutir isso.

Por outro lado, concordo com vc. É horrível. Vc está assustado com algo realmente revoltante. Ocorre, no entanto, que não temos condições de dizer a Deus o que ele deve fazer, nem de prever como ele deve ser. Deus não é o papai noel. Esqueça isso. O Deus da religião bíblica é o Salvador mas, também, o aterrorizante. Ele é representado como o poder que move montes, cria tempestades, e desastres naturais. Ele ordena fomes e guerras (leia Amós).

Não sei sua orientação religiosa, mas realmente, isso é incompreensível. Mas o que vc queria de um "Deus"? Que ele fosse uma versão GG do vovô? Até Gilberto Gil entendeu: se vc quiser falar com Deus, depois de comer o pão que o diabo amassou, não vai encontrar NADA do que esperava encontrar. Deus é incontrolável. Sua única esperança é CONFIAR nele.

Santo Agostinho disse: Si Comprehendis, Non Est Deus. Isso diz tudo. O Deus do teísmo aberto é um simulacro que, em nome da consideração pelo sofrimento humano, torna Deus um mero homem.

Mas veja: o que eu posso dizer é que mesmo causando providencialmente (ou permitindo, se vc preferir) todo este sofrimento, como parte de seu plano, Deus participa do sofrimento. Como Atos nos ensina: Deus predestinou a traição e o assassinato de seu Filho, e neste momento realizou a salvação. A fé dirá: Deus está realizando o seu plano em fim, neste mesmo momento em que o mal parece triunfar.

Enfim, sinto muito mas, se vc realmente insistir em postular uma completa desvinculação de Deus e o mal, precisará postular um princípio antidivino positivo, e cairá numa forma de dualismo metafísico maniqueísta (mesmo que em estilo moderno). Se vc quiser ser um teísta consistente, na minha opinião, precisará sair do teísmo aberto (mesmo que não creia num calvinismo estrito, ou algo assim).

Desculpe se o ofendi mas, o teísmo aberto é um insulto ao teísmo clássico e bíblico.

abr,

Guilherme

Carlos disse...

Respondendo bem atrasado rs..
bom, apartir do que você escreveu podemos ver que você faz teologia apartir dos predestinados ao céu(fato pelo qual você olha sempre as coisas bonitas) e eu falo teologia apartir dos predestinados ao inferno(fato que quero dar respostas lógicas ao mal).

Não ouve ofensa porque não quero falar ex-catedra, fundamentalismo, e nem sinto eu dono da verdade, nem quero transparecer que acho isto de você. Nós divergirmos nos nossos pensamentos. Eu não consigo definir-me teista aberto porque quando faço isto me sinto como se fosse um calvinista que se acha dono da reta doutrina. Tenho mais incertezas que incertezas.



abraços