quarta-feira, 18 de junho de 2008

A Epistemologia da Ortodoxia

Chesterton é mesmo impagável...

Se você discutir com um louco, é extremamente provável que leve a pior; pois sob muitos aspectos a mente dele se move muito mais rápido por não se atrapalhar com coisas que costumam acompanhar o bom juízo. Ele não é embaraçado pelo senso de humor ou pela caridade, ou pelas tolas certezas da experiência. Ele é muito mais lógico por perder certos afetos da sanidade. De fato, a explicação comum para a insanidade nesse respeito é enganadora. O louco não é um homem que perdeu a razão. O louco é um homem que perdeu tudo exceto a razão. A explicação oferecida por um louco é sempre exaustiva e muitas vezes, num sentido puramente racional, é satisfatória. Ou, para falar com mais rigor, a explicação insana, se não for conclusiva, é pelo menos incontestável. [...] Se um homem disser, por exemplo, que os homens estão conspirando contra ele, você não pode discutir esse ponto, a não ser dizendo que todos os homens negam que são conspiradores; o que é exatamente o que os conspiradores fariam. Apesar de tudo, ele está errado [...] Talvez a maneira de nos aproximarmos ao máximo dessa descrição é dizer o seguinte: que a mente dele se move num círculo perfeito, porém reduzido (G. K. Chesterton, Ortodoxia).


Ao longo de minha ainda curta trajetória como teólogo e pastor, encontrei um sem-número de vezes aquele tipo, descrito por Chesterton, que defende com vontade e com uma consistência exasperante a racionalidade de uma visão simplista do real.

Simplista, seja ele quem for: do ateu ao fundamentalista evangélico, aquele tipo estereotipado, apologético, que segue com lógica inflexível e fatal uma idéia que, obviamente, se não é falsa, é unilateral. Não que seja sempre inconveniente a lógica inflexível; mas é que ela é como a beleza: pode-se ser belo e mau. Ou feio e bom.

Sabedoria é reconhecer quando um argumento é lógico mas falso, e quando é construtivamente feio mas verdadeiro. Feio na forma, na formulação, na fôrma discursiva. Torto, desengonçado, balbuciado - mas verdadeiro, e daí?

Sim, para ser justo, preciso reconhecer que a verdade também é feia, às vezes. Mais vale um pouco de realidade feia do que muita falsidade bonita. E para ser justo, preciso reconhecer que às vezes a consistência lógica conduz a uma conclusão feia (e não bela) que é verdadeira. Mas, no caso, a beleza da consistência lógica está em mostrar a feiúra da realidade. Palmas para ela. Sua beleza serviu à verdade.

Quem me dera fosse sempre assim. No mais das vezes, vejo pessoas embelezando argumentos para defender bobagens como o ateísmo, o comunismo, o individualismo ou a irrelevância da ciência para a fé (onde fundamentalistas e Dawkinianos se beijam). Ora, ora, vaias para essa consistência lógica. Sua beleza serviu à mentira. Mesmo que seja bonitinha, consistente, proporcionada, não passa de mulher da vida...

Este é o "círculo" denunciado na epistemologia de Chesterton: infinito, mas ainda assim minúsculo. Minúsculamente infinito, fechado para si mesmo, incurvatus in se (Lutero).

Como o materialista que nega a realidade da personalidade humana, com a qual acorda e vai dormir todos os dias, porque não é consistente com seu "sistema". Ou o marxista que dorme e acorda todos os dias com a realidade de que o homem é irredutível aos "meios de produção" mas quer negá-la, porque não concorda com o "sistema". Ou como o criacionista científico, que acorda e vai dormir todos os dias com a massa de evidências da longa idade da terra, mas prefere apostar num relativismo epistemológico a dar crédito à ciência (exceto, naturalmente, quando ela confirma algo escrito na Bíblia. Daí, de repente, as regras mudam), porque não concorda com o "sistema" (teológico). E assim por diante: deixando o bom senso em nome da consistência.

Se precisar escolher entre consistência e bom senso, fique com o bom senso. Não perca tudo para ficar só com a razão.

7 comentários:

Christie disse...

Quem disse que não conspiram contra o louco? Só por ele ser considerado louco o que ele diz não é digno de crédito?

Glauber Ataide disse...

E o que é o "bom senso"?

Igor Miguel disse...

Olá Guilherme,

Obrigado por seus "insights", como sempre me tocam em muitos aspectos. Sua angústia é comum com aqueles que estão um tanto fartos do reducionismo espiritualizante do evangelicalismo sul-americano. Me perturba, respostas reducionistas, pressupostos pendurados em epistemologias idólatras. O bom senso, poderia ser pensado a partir de máximas como do grande filósofo judeu Maimônides, que apesar de algumas limitações por seu apego ao aristotelismo, afirmava: "O melhor caminho é o do meio, e se te veres em um extremo, vá para o outro extremo, e retornarás naturalmente ao caminho do meio". Isso não é relativismo e tão pouco neutralidade, é bom senso ante as demandas de uma fé que dialoga com seu tempo.

Abraços,
Igor Miguel

Guilherme de Carvalho disse...

Oi Christie!

Bem, seu comentário foi um pouquinho fora de contexto :-D É claro que um louco também pode ser perseguido e dizer algo digno de crédito. Mas, no caso, a "loucura" consiste exatamente na certeza da perseguição, mesmo que ela não exista; aquela certeza impossível de remover, mesmo sendo completamente irreal.

A propósito, sugiro que vc leia Chesterton. Vc vai gostar muito, eu garanto!

Gui

Guilherme de Carvalho disse...

Olá Glauber!

Faz tempo que não te vejo por aí...

Bem, nos termos de Chesterton, eu diria que o bom senso é o nosso contato com a realidade, que vai além da própria racionalidade, ainda que a inclua. É o nosso contato com a nossa natureza humana, criada por Deus.

É com base nesse contato que somos capazes de raciocinar, e construir argumentos válidos. Mas o mero fato de podermos elaborar argumentos para negar a realidade já mostra que a sua conexão não é imediata, direta.

Isso significa que o argumento racional não é capaz de nos levar à verdade. Ele pode apenas nos ajudar a compreendê-la, se a temos, ou a esclarecer a falsidade do que acreditamos, se estivermos abertos a reconhecê-lo.

Se a lógica garantisse alguma coisa, afinal, os filósofos seriam todos crentes (ou uma grande parte deles, ao menos)!

Guilherme

Guilherme de Carvalho disse...

Igor,

talvez o "caminho do meio" seja muito aristotélico para mim :-D De vez em quando é preciso ir ao extremo, né?

Mas em boa parte dos casos o "meio" funciona, porque temos mesmo uma tendência ao exagero ou à omissão. A única coisa que a gente pode exagerar sem medo, é no amor. No resto, é bom ficar de olho!

Guilherme de Carvalho disse...

Apenas para esclarecer,

eu não penso que o criacionismo científico seja inerentemente impossível; inerentemente irracional (como penso, por exemplo, que o materialismo o seja). Mas penso que o criacionista não deve construir a sua argumentação a qualquer custo, como muitos fazem, faltando com a honestidade intelectual, por meio de uma seleção ambígua e seletiva de hipóteses e crenças científicas.

Optar por um racionalismo (para combater o empirismo científico) ou por um perspectivalismo total (contra o positivismo) é que me parece inadequado. Assim como optar pela defesa de uma interpretação literalista das Escrituras, fechando os ouvidos a qualquer evidência contrária, mesmo que ela seja razoável e sugira uma outra interpretação do texto.

É claro que tem um forte aspecto pessoal. Cada um sabe se sustenta uma crença porque realmente lhe parece racional ou porque não aceita perder uma discussão... :-D