segunda-feira, 16 de abril de 2007

Paul Tillich I

Tillich acertadamente distingue entre a fé e as outras funções do sujeito; a fé não se confunde com o conhecimento, nem com a ação, a princípio. Mas ele prossegue: trata-se da condição subjacente, extática, que permeia o agir e o saber, ao torná-los sua expressão; e ela mesma é a apreensão do Incondicional como fundamento; é uma direção para este fundamento.

Parece problemática, no entanto, a sua afirmação de que a fé não é uma função especial ao lado das outras. Ele explicitamente distingue a confiança e a obediência, da fé; alista, de fato, a fiducia entre os "componentes" da fé, mas não deixa clara a sua relação com a cognição e a prática (obediência). Eu penso, no entanto, que a fiducia seria exatamente um elemento, central na fé, que está ao lado do agir e do saber (assensus) como função distinta, no espírito humano. E o que Tillich define como fé - a orientação para o Incondicionado - parece ser algo que, acima de qualquer dúvida, está relacionado à fé, mas que a transcende. Vamos chamar essa orientação, experimentalmente, de religião.

Talvez fosse possível pensar, então, na religião como o direcionamento para o incondicionado. A descrença autonomista (unfaith) seria a areligião - ou, talvez, uma forma de anti-religião - anti no sentido de inversão, de alternativa equivalente - não no sentido de não ser religiosa, mas de ser religiosa de um modo oculto, subreptício. Permaneceríamos, assim, admitindo a presença da fé na anti-religião autônoma e na religião heterônoma. A cultura autônoma vive na fé, portanto, mas na busca de uma negação do incondicional; como diz Tillich, ela não intenciona o incondicional (ou, eu diria, não o faz conscientemente).

Entretanto, já distinguimos entre fé e religião/anti-religião. Se definirmos religião/anti-religião como o direcionamento para o incondicionado, é preciso levantar uma questão: porquê, agora, chamar isso de fé? Não seria melhor seguir a intuição religiosa, e distinguir a fé de outras funções, como a ética e a cognitiva? Afinal de contas, precisamos dar um "nome" para a fiducia, este elemento de confiança incondicional, que também se dirige para o fundamento, mas de um modo diferente do amor, da prática e do pensar. Se a fiducia não for a fé, então, o que é?

Admitimos, é claro, que "religião" para Tillich é mais do que a orientação para o incondicional. Mas ele usa o termo com sentidos variados, conforme o contexto, e é possível mostrar que, em pelo menos alguns deles, o sentido de "religião" e de "fé" se confundem em Tillich. Esse fato pede maior atenção crítica.

Iniciando!

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

“Deixa ir os meus Músicos!”


Uma das maiores necessidades da igreja brasileira hoje é a de música cristã profana. Precisamos de música cristã que não fale de Deus. Não que falar de Deus não seja importante; mas às vezes tenho a impressão de que falamos demais de Deus, quase a ponto de tomar seu nome em vão. Falamos tanto porque estamos preocupados com a sua ausência; será que falamos para ocultar a sua ausência?

Falar de Deus é essencial: “como crerão, se não ouvirem?”. Tão importante quanto falar sobre Deus, no entanto, é falar a partir de Deus; e quando falamos a partir de Deus, não precisamos, necessariamente, usar o nome de Deus – o livro de Ester conta uma belíssima história sem usar o nome de Deus nem uma única vez, e essa história se tornou parte do cânon judaico-cristão, como narrativa divinamente inspirada.

A questão, pois, é se temos a graça de contar a história do modo correto, de narrar a vida sob a luz do evangelho. Precisamos de música que não fale de Deus, mas que fale a respeito da vida, das flores, do amor, da política, e das crianças, sob a luz do evangelho; precisamos de música que fale sobre o mundo, mas a partir de Deus.

Além disso, precisamos de música, simplesmente. Música que signifique Deus por sua beleza, e que mostre a sua glória sem palavras. A música pode ser narrativa, mas não precisa ser – a música não precisa de justificativas além da sua própria existência porque, afinal, Deus não precisa dar explicações sobre a razão de sua criação. Quem pode pôr em dúvida a beleza da música? Quem pode pôr em dúvida o amor do homem pela beleza da música? E quem pode pôr em dúvida a origem divina de toda boa dádiva, e de todo dom perfeito?

Quem és tu, ó pastor evangélico, para discutires com Deus? Pode a coisa feita desafiar seu Criador, perguntando-lhe: “Por que me fizeste assim?” Ou terás a ousadia de reprovar o inventor da beleza, por ter criado homens que amam a música pela música, mesmo quando não tem uma razão bíblica para desfrutá-la? Acusarás a Deus de ser o tentador do homem? Atribuirás a Satanás a arte de Mozart, de Wagner ou de Villa-Lobos? Consumados estes absurdos, que mais restará senão reprovar também a beleza das flores e o canto do sabiá? Por causa de Israel o nome de Deus foi blasfemado entre os gentios; mas por causa de ti a música cristã afunda nas trevas da feiúra estética.

Não me esqueço do dia em que um diácono da minha igreja – um homem grande, sério, que detestava livros mais do que qualquer coisa na vida – me chamou para uma conversa séria, “de homem pra homem”. Este diácono – não sei se no corpo ou fora do corpo, Deus o sabe – me aconselhou a desistir de ser músico profissional. “Porque” – dizia ele – “este meio artístico é muito sujo... Tem muita p., e um crente verdadeiro não se mete com p. Quando tem muita p. num lugar a gente tem que sair”. E, de fato, eu saí rapidamente de perto dele. Acho que em poucas ocasiões eu ouvi tantas vezes a palavra "p...".

Os músicos cristãos precisam de libertação – não da música “do mundo”, mas da música “da igreja”. Precisam ser libertados do jugo dos pastores e dos crentes legalistas, que exigem qualidade nas noites de domingo, mas que proíbem estes músicos de se profissionalizarem, e fecham o mundo da música a uma ação cristã redentiva.

16 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Excelente.

Disse o que eu pensava, mas não conseguia expressar.

Vou recomnedar o artigo num forum evangélico que freqüento.

Renato Ulisses de Souza

1:24 PM
Anonymous Jean Belmonte said...

concordo plenamente... pena que haja tantos "cristãos" doentes mentais em nossa sociedade.

Abraço pra vc Guilherme!

Jean Belmonte.

5:02 PM
Blogger woyaokuang said...

Hello! Mozilla Firefox web browser has updated,Please visit my blog,Free download Quickly

5:29 PM
Anonymous mutz said...

disse tudo meu véio, sonho com o dia em que a musica cristã terá qualidade e ousadia para ser brasileira, "profana" e boa pra C. só pq pode ser boa

keep the faith

[]'s Mutz

12:53 PM
Blogger Fernando Henrique said...

Caro Guilherme,

Recebi o seu texto 'Deixa ir os meus Músicos!' e achei o assunto pertinente dentro daquilo em que eu me proponho a militar... tomei a liberdade de publicar este texto em meu Blog com o devido reconhecimento. Espero que me perdoe por ter publicado antes mesmo da resposta. Anteciosamente, Fernando Henrique Liduário Maximiano. www.fernandolidmax.blogspot.com

7:05 PM
Blogger Thais Leo said...

Pr. Gui,
Muitas vezes achamos que estamos louvando a DEUS só porque falamos o nome Dele nas músicas...e o invocamos... e choramos... e... e..., mas esquecemos que é na harmonia das notas que ELE está presente, pois foi ELE mesmo quem a criou. Se cantamos ou tocamos para ELE é o que interessa.
Chic D+! Amei o comentário!!!

12:54 PM
Blogger TEOLOGIA E ARTE! said...

Este artigo me lembrou de uma frase acho de de Kall Barth.
"A igreja precisa ser mais mundana".
Gui, como sempre, suas palavras são diretas, pertinentes e brasileiras. Amei o texto cara assim como estou devorando o Livro (maravilhoso, já dei pro meu pastor!)
Que a música seja liberta, nem que se precisar para isto agente imponha a mão e expuse todo espírio de "espiritualização"

braçao

Ramon Goulart

5:00 PM
Blogger Marcus Vinicius said...

Prezado Guilherme,

Escrevo para felicitá-lo pelo blog e para me apresentar: sou Marcus Vinicius Matos, 25 anos, estudante de Direito da UFRJ. Sou batista reformado, e congrego na Primeira Igreja Batista Bíblica do Rio de Janeiro.

Seu blog é um achado pra mim: alguém reformado; acadêmico; e com uma visão política crítica.

Não tenho um blog próprio, mas recomendo o blog da Rede FALE: trata-se de um projeto de Defesa de Direitos do ministério de diaconia da ABUB - www.fale.org.br

Participo do FALE há alguns anos, e hoje atuo na coordenação de campanha da rede. Nós promovemos campanhas de "Ação & Oração" dentro de temas que consideramos relevantes para a sociedade.

Em paralelo a esse trabalho, me dedico a pesquisa. Atualmente leio (e escrevo) sobre Teoria do Estado e Globalização, utilizando autores como Norberto Bobbio, Ulrich Beck e Anthony GIddens.

Tenho discussões árduas no meio reformado sobre questões políticas. Parte delas com o Gustavo Nagel (amigo, de minha igreja), e com o Pr. Franklin Ferreira, a quem admiro e considero muito, desde a adolescência, quando fui muito abençoado por ele.

Faço esse primeiro contato, então, apenas para me apresentar; e ficar na esperança de que possamos manter contato um dia.

Um grande abraço.

Fique com Deus.

Marcus Vinicius Matos (MV).

OBS: Meu e-mail para contato é mv@ufrj.br

1:59 PM
Anonymous Lucas Souza said...

Olá Guilherme!

Fiquei muito, mas muito feliz em ler o seu texto. É bom, é revigorante, é animador achar alguém que escreva coisas assim, que esteja ouvindo e entendendo.
Mano, gostaria de conversar mais com você sobre isso. Se puder me adicionar no MSN (lucasdelirante@hotmail.com), eu agradeceria. Também tenho um BLOG, depois dá uma olhada. Abraços!

7:08 PM
Anonymous Lucas Souza said...

Olá Guilherme

Parabens pelo seu texto. Achei muito lúcio, muito claro, muito no âmago da questão. Pra mim é um alívio, é um refreco, uma brisa suave ler um texto como esse que saia de dentro da Igreja. Gostaria de conversar mais com você a respeito desses assuntos. Vc tem MSN? Se quiser, me adicione, lucasdelirante@hotamail.com. Se puder também, faça uma visita ao meu blog... www.lucassouza.wordpress.com e/ou ao meu site www.lucassouza.com.br

Gostaria de saber também mais sobre o Pro-L'Abri.

Um abração!

12:39 AM
Blogger Daniel said...

Li... e que saudade me deu das aulas na Fate...

Guilherme - alem de seu aluno na FATE, eu me lembro de que na adolescencia toquei com seus irmãos na Missão AMEM e com Paulinho MPC - Se for mesmo me retorne

De qualquer forma um abraço!!

9:49 PM
Blogger Denis Cambalhota said...

Muito bem colocado Parabens e Viva a Coltrane, Tom Jobim ....

5:30 PM
Blogger !!!Abraço de Deus:::Influenciando!!! said...

Carambaaa...disse tudo! Parabéns pelo texto. Abraço!

9:42 AM
Blogger Joe Edman said...

Velho isto é muito bom! Coloquei aqui no meu blog também! Tá linkado pra cá! Escreva mais pérolas como esta cara!

2:36 AM
Anonymous Anônimo said...

Olá guilerme!!!Parabéns pelo texto...Será que existe uma possibilidade de virar palestra???Um abraço fredão!!!

11:09 AM
Blogger paulo said...

Guilherme,
A minha "interpretação" é que a música e a sua relação como o músico cristão, constituem obra do espírito que sopra sobre nós (há 2008 anos) e escolhe alguns entre muitos. Mas o homem sempre avança com seus atributos de vontade e desejo e não resiste a idéia de ser músico e ainda cristão. Aí o que não é inspirado fica rotulado aos clichês e quase dogmas musicais. Um dia, não sei como, fui parar em uma igreja e sem pedir para tocar estou até hoje. Nunca estudei e nem irei porque o que faço não me foi ensinado pelo homem. Respeito a todos os músicos, seus talentos e qualidades, mas esta é minha visão da missão cristã e a relação com a linguagem da música.

Paz e bem..

Paulo

10:04 AM

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Mozart: Barth disse, e Dooyeweerd concordou!

Bem, creio que todos os que me conhecem melhor sabem da minha paixão por Mozart - mesmo que eu não passe de um ouvinte diletante.

Tive acesso, no ano passado, a um dos raríssimos estudos sobre cultura de Karl Barth, na coletânea de Leibrecht em homenagem a Paul Tillich. Trata-se do famosíssimo - dentro de uma insignificante parcela da população mundial, naturalmente - "Wolfgang Amadeus Mozart", um artigo de Barth que ainda pretendo traduzir. Deveria ter sido neste ano - o "ano Mozart", mas meu cérebro não me permitiu tal façanha. No ano que vem, quem sabe...

Mas a referência ao artigo se deve a uma descoberta curiosa. No excelente site sobre Dooyeweerd de Glenn Friesen - um erudito bastante excêntrico que passou dois meses em L'Abri, visitou a Índia, foi aluno de Hendrik Hart quando este ainda era conservador, e finalmente, estudou com o próprio Dooyeweerd - encontrei uma historieta que só poderia correr mesmo fora dos livros. Segundo o Friesen, numa espécie de sarau musical, na casa da filha de Dooyeweerd, ele teve a oportunidade de ouvi-lo comentar Barth. Cito Friesen:

"Então Dooyeweerd falou-me a respeito de música. Ele me disse que Barth tinha dito que, quando os anjos no céu são requisitados a tocar diante de Deus, eles tocam Bach. Mas que, quando eles tocam por si mesmos [para se divertir, no original Barthiano], eles tocam Mozart [e mesmo Deus se diverte com eles, diz o original]. Para sempre em me lembrarei e apreciarei este lado humano de Dooyeweerd."

Como deve ter ficado claro nas minhas observações em itálico, Dooyeweerd citou o artigo de Barth. É compreensível, desde que Dooyeweerd não apenas lia Barth; também era músico, e tocava piano bem, segundo dizem. E eu concordo com ambos: Deus fez Mozart para se divertir, e a todos nós. E se alguém não acredita nisto?
Ora, quem tem ouvidos para ouvir, ouça...

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Ecologia e Missão Integral

Aconteceu, de 24 a 26 de novembro o I Fórum Missão Integral: Ecologia & Sociedade, no Vale da Bênção, em Araçariguama. Eu e o Rodolfo estivemos lá para conferir: foi um evento realmente maravilhoso, com muita gente boa: Marina Silva, a ministra do Meio Ambiente, Peter Harris, fundador d'A Rocha, Sir Ghillean Tolmie Prance, cientista inglês mundialmente conhecido, ganhador de vários prêmios, inclusive no Brasil (ele fala português fluentemente, foi presidente do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia [INPA] na década de 1970), nosso conhecido Ariovaldo Ramos, cujas palestras deram a profundidade teológica necessária ao evento, Dra Silvia Nassif Del Lamma, da UFscar, e outros.

Em um momento de distração dos seguranças, conseguimos "sequestrar" a ministra para uma foto (mentira, ela foi extremamente acessível). A propaganda do nosso livro, "Cosmovisão Cristã e Transformação" entretanto, não foi idéia nossa, juro - a ministra fez questão de fazer o comercial, por ser leitora assídua da revista Ultimato (e o nosso livro é, graças a Deus, da Ultimato). Assim aparecem na foto, o Marcelo, do CADI, o Márcio, insigne indigenista (trabalhou muitos anos na FUNAI) e também membro da equipe do CADI, a ministra, eu, o Rodolfo, e uma simpática senhora da qual provavelmente jamais saberemos o nome.

Durante o evento foi lançado o livro Missão Integral: Ecologia & Sociedade, com artigos de vários participantes do Fórum, e alguns ausentes, todos pessoas envolvidas com a Missão Integral da Igreja. O livro foi publicado pela W4 Editora (a mesma que publica os livretos da AMC - Associação de Músicos Cristãos). Foi a oportunidade de conhecer pessoalmente o Whaner Endo, sócio da editora e da W4 Comunicação. O Whaner faz mestrado em comunicação na Umesp, e sua esposa o doutorado. Fiquei sabendo lá que ela foi a coordenadora do Eclesiocom - parabéns! Foi um evento importante na Umesp que, diga-se de passagem, mantém uma das melhores escolas de comunicação da América Latina.

Várias instituições apoiaram o evento: Visão Mundial, ABUB, MEP, Renas, Ministério do Meio Ambiente, Ultimato, e outras. Mas no centro de tudo estava A ROCHA: Cristãos pela Conservação. O Fórum foi a oportunidade para o lançamento do projeto. A ong foi fundada em 1983, por Peter Harris, quando este e sua esposa iniciaram um trabalho em Portugal que combinava espiritualidade cristã, pesquisa e conservação ambiental. O trabalho cresceu, tornando-se uma rede internacional em 1995 e, hoje, já está em 16 países e 4 continentes.

A Rocha Brasil foi organizada oficialmente no Brasil em 2006, como organização ambiental, sem fins lucrativos, e pretende iniciar o trabalho de pesquisa e conservação no estado de São Paulo, a partir de 2007. A Rocha Brasil conta com uma equipe maravilhosa de acadêmicos e ambientalistas, cujo interesse maior é mesmo "ver a coisa acontecer, ao invés de falar e aparecer". Devo dizer que testemunhar isto foi de grande inspiração para mim - o Marcos, em especial, quase não aparecia, mas trabalhava sem parar - ele e sua esposa Gláucia (a quem estou devendo uns quitutes mineiros!).

A propósito, eu conheci pessoalmente o Marcos Custódio, presidente atual d'A Rocha Brasil, quando ele veio a Belo Horizonte para participar do I Congresso da AKET, em outubro deste ano. Gente muito boa: crente, cheio de vontade de trabalhar, e com o coração na Missão Integral. Ele também se identificou com a nossa proposta, e se tornou membro da AKET, na oportunidade - uma honra pra nós. E, tenho certeza, uma bênção divina: a presença do Marcos na associação vai nos ajudar a preencher uma lacuna no trabalho da AKET, que é a reflexão sobre as questões ambientais.

Destaques:

1) em primeiro lugar, a grande quantidade de biólogos, engenheiros ambientais, ambientalistas de várias especialidades me chamou a atenção. Mas a de biólogos, especificamente. Fico pensando se, além do Fórum, e d'A Rocha, não seria interessante se os biólogos cristãos se reunissem para construir pontes entre a biologia moderna e o cristianismo evangélico. Trata-se de um campo muito importante, no qual as relações são tensas. Não poderiam os biólogos evangélicos funcionar como embaixadores, tanto para a igreja cristã como para o mundo da ciência?

2) Devo dizer que virei fã da ministra Marina Silva. Na estrada há muito tempo, companheira de lutas do Chico Mendes, crente evangélica da assembléia de Deus, conhece muito bem seu campo de trabalho, e consegue ser realista sobre os limites políticos e conjunturais do seu trabalho sem se tornar pessimista ou perder a esperança. Um grande testemunho.

3) A palestras do Ariovaldo foram o ponto alto, teologicamente falando. De especial importância a ênfase na coerência entre Criação e Redenção, e sua reflexão ainda construtiva sobre o lugar do mal na natureza. Ele expressou a percepção de que há um mal natural que não é exatamente o mal da "Queda", tocando num ponto interessantísimo, para mim: o problema do mal no contexto ecológico, isto é, o problema do mal em uma teologia da natureza. Penso que isso é muito importante para o diálogo entre a biologia/ecologia e a teologia cristã.

4) Peter Harris, gente muito acessível. O fundador d' A Rocha não é biólogo, engenheiro, etc - é teólogo! Eu e o Rodolfo conversamos com ele um pouquinho, e perguntamos sobre a influência de Schaeffer sobre a Rocha. Segundo as palavras de Harris, a influência teria sido "total", a partir do livro "Poluição e Morte do Homem". E, ainda, que A Rocha seria uma espécie de "L'Abri ecológica"! Isso é muito bom. Espero que, no futuro, o L'Abri Brasil tenha muitos contatos enriquecedores com A Rocha Brasil.

5) Finalmente, Sir Ghillean Tolmie Prance (link para wikipedia): cientista inglês de primeira linha, grande conhecedor da realidade brasileira, foi, como eu disse antes, o primeiro diretor de pós-grad do INPA, onde também meu irmão, o conhecido e procurado "incendiário da prainha" fez o mestrado em ecologia, premiado por suas atividades no Brasil e exterior, é também um cristão comprometido, e autor de vários livros (além de suas obras científicas) que tratam da relação entre cristianismo e ambientalismo. Uma admirável combinação de ativismo, ciência e fé. Há até um livro escrito sobre a vida dele! Que Deus nos dê muitos e muitos Prances brasileiros!
A equipe da Rocha Brasil organizou uma lista de discussão. É uma boa forma de entrar em contato e se informar melhor sobre quem está envolvido.

Vamos orar e apoiar este projeto!

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Cientistas Cristãos: Embaixadores para duas Comunidades

Por Mike

Decidimos traduzir o artigo do mike ("Christian scientists: Ambassadors to two communities"), postado no dia 18/11, que traz um insight muito interessante sobre a posição do cientista cristão. Não poderemos traduzir os artigos sempre, mas os leitores podem sugerir, quando parecer pertinente!
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Ciência e religião têm se tornado um assunto emocional, tanto na comunidade científica como no interior da Cristandade, em anos recentes. Compreensões inadequadas abundam, tanto no tocante às implicações religiosas das teorias científicas como das implicações científicas da teologia. Uma interação genuína e proveitosa entre estes dois aspectos diferentes mas complementares da vida de um cientista Cristão é necessária e benéfica, caso se queira sustentar as próprias crenças com integridade. O desafio do naturalismo filosófico sentido por alguns Cristãos, tal como amplamente esposado por Richard Dawkins et al, tem resultado em uma interação característicamente negativa entre ciência e religião, na qual o Cristianismo deve ser defendido contra o avanço da maré ateísta (presumidamente o sinônimo de evolucionismo e big bang). O que tem sido quase apagado da consciência popular é a idéia de que estudar ciência possa realmente fortalecer a fé de alguém, e aprofundar a reverência e o senso de maravilhamento diante de um criador que orquestra o universo com tal variedade bela, complexidade e ingenuidade. Considere as palavras de Thomas Browne:

"A sabedoria de Deus recebe pouca honra daquelas cabeças vulgares que rudemente arregalam os olhos e em completa rusticidade admiram suas obras; o magnificam mais altamente aqueles cuja judiciosa inquirição em seus atos, e pesquisa deliberada de suas criaturas, retribuem o dever de uma admiração devota e erudita."

O desafio da percepção pública da ciência não se limita à relação com a religião. Não disse alguém, em certa ocasião, que "Um pouco de conhecimento é uma coisa perigosa"? A mídia, um punhado indivíduos falantes, pode ferir um nervo público que é suspeitoso de qualquer coisa que não consiga compreender. O dom que estes indivíduos tem é de fazer com que as pessoas acreditem que eles, o público, tem razoabilidade suficiente para captar os "fatos" e tomar uma decisão informada. A retórica é algo poderoso e, se alguém lê um escrito fundamentalista (Cristão ou Naturalista) descobre que a apresentação da informação é, às vezes, distorcida ou abusada. Muito poucas pessoas atingem uma decisão informada e, talvez, seja possível argumentar que ela nunca é razoável, considerando-se a complexidade da ciência para as pessoas que tomá-la.

Compreensões errôneas do Cristianismo e de Cristãos cientistas por cientistas, jamais serão alteradas pela tentativa de conduzir cada pessoa individual a uma consideração racional das questões envolvidas. O problema requer, antes, um assalto estratégico aos fundamentos intelectuais de nossas culturas. Isto pode ser visto nas diferentes formas de pensar da minha geração e da geração de meus pais. A transição da modernidade (racionalismo) para a pós-modernidade começou muitos anos atrás como uma idéia intelectual em universidades, mas tem sido finalmente absorvida na psiquê popular. Similarmente, se queremos voltar nossas mentes e corações para Cristo, isso deve começar com um sério engajamento intelectual com a teologia e a ciência, por aqueles colocados como embaixadores para ambas as comunidades - a comunidade científica e a Cristã. Uma mudança de percepção entre a intelligentsia verá, gradualmente, um grande impacto entre o grande público.

Em minhas discussões com colegas cientistas, uma percepção comum dos Cristãos é a de que eles são anti-intelectuais, e que não levam a sério a evidência disponível. Minha resposta deveria, assim, redefinir a integridade intelectual considerando tanto o meu trabalho como minha fé, pontuando, simultaneamente, que a "integridade intelectual" assumida se apóia, por vezes, em uma cosmovisão derivada da cultura circundante que é aceita passivamente, e não, como se costuma pensar, do raciocínio dedutivo.

Ao falar com Cristãos, talvez construindo uma apreciação mais positiva de como a minha compreensão da ciência tem enriquecido a minha fé, eles sejam levados a uma visão mais esclarecida do papel da ciência.

Atuar como embaixador a dois mundos diferentes requer compreensão das preocupações e dificuldades de relacionar os dois, um ao outro. Cientistas cristãos estão posicionados de forma singular, para desenvolver esses asuntos, na medida em que adquirem uma compreensão adequada de ambas as comunidades.

Nossa cultura não está perdida, e o Cristianismo e a ciência não são irreconciliáveis. O que se requer é o aumento da compreensão obtida por meio do engajamento inteligente, com a confiança de que, enfim, a sabedoria de Deus será mostrada, tanto na revelação como na criação.

Pois a terra se encherá do conhecimento da glória de Deus, como as águas cobrem o mar.

Habacuque 2.14

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

I Seminário "Cristianismo e Ciência em Diálogo"

A AKET promove, no dia 02 de Dezembro (sábado), das 8hs às 11h45 da manhã, o seu I Seminário "Cristianismo e Ciência em Diálogo". O seminário pretende oferecer uma introdução ao debate contemporãneo sobre as relações entre a fé cristã e as ciências, numa perspectiva evangélica.

Os palestrantes serão Giselle N. Fontes (Pós-Doutoranda em Física, UFMG), Guilherme de Carvalho (Mestre em Teologia e Mestrando em Ciências da Religião, UMESP) e Rodolfo Amorim Carlos (Mestrando em Ciências Sociais, UFMG). Todos são membros da diretoria da Associação Kuyper para Estudos Transdisciplinares.
Serão apresentadas cinco palestras, seguidas de perguntas e discussão:
1) O diálogo de religião e ciência hoje;
2) A reforma e o desenvolvimento da ciência moderna;
3) Abraham Kuyper e a idéia de uma reforma interna da ciência;
4) A relevância do teísmo cristão para a ciência;
5) Religião e ciência em perspectiva evangélica: as contribuições de Francis Schaeffer e Alister McGrath
O evento será realizado no templo da Comunidade Cristã Zona Sul, à Av do Contorno, 7492, Lourdes.
Inscrição gratuita no local.
Maiores informações pelo telefone: 31 34114017 ou pelo email: