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quinta-feira, 28 de maio de 2009

Instituto Faraday Lança Documentário sobre Religião e Ciência


Não é de hoje que os líderes cristãos envolvidos com a integração de fé e academia procuram subsídios pedagógicos realmente úteis - que não pequem por amadorismo acadêmico ou de qualidade da produção.

Pois agora a resposta às orações de muita gente está chegando: o Instituto Faraday para Ciência e Religião está finalizando um programa especial de educação em Religião e Ciência para igrejas que será lançado em 1 de Julho deste ano. O programa, batizado com o nome "Test of Faith: Resources for Churches from the Faraday Institute for Science and Religion" (O Teste da Fé: Recursos para Igrejas do Instituto Faraday de Ciência e Religião) visa prover igrejas e ministérios envolvidos com o trabalho acadêmico com vídeos e textos de alto nível e grande acessibilidade.

Prêmio Internacional

O filme já foi exibido para públicos restritos. Em 16 de Março foi apresentado no Festival de Ciências de Cambridge, e noticiado em vários órgãos, como o Daily Telegraph. E já foi premiado antes mesmo do lançamento oficial - ganhou a prata como o melhor documentário do ano pela International Visual Communications Association.

O documentário será lançado oficialmente em Julho, mas eu tive acesso antecipado ao filme, que sairá com legendas em português (além do francês, russo, espanhol, chinês, e dublado em árabe e farsi). Eu não poderia assim deixar de dar aos leitores uma canja aos meus leitores.

Quem Fez

O projeto foi concebido e pilotado pela geneticista Ruth Bancewicz, pesquisadora associada do Instituto Faraday desde a sua fundação, em 2006, com o apoio de James Crocker. O Faraday recebeu um financiamento especial de 1,901,068 dólares da John Templeton Foundation para desenvolver o projeto em parceria com a Contrapositive New Media.

Várias sumidades no campo das ciências e da teologia foram convidadas para as entrevistas, incluindo o físico-matemático de Cambridge e pastor anglicano John Polkinghorne, o físico Ard Louis, de Oxford, o neurocientista Bill Newsome, o teólogo Alister McGrath, o diretor do projeto Genoma Humano, Dr. Francis Collins e o historiador da ciência Peter Harrison, entre outros. No terceiro documentário aparece o biólogo molecular John Bryant - muitos leitores gostarão de saber o que ele me disse pessoalmente: foi o encontro com Francis Schaeffer no L'Abri que salvou a sua fé.

Os Documentários

O programa é centralizado em três documentários que abordam as três frentes onde o debate sobre religião e ciência é mais intenso: a cosmologia, a biologia evolucionária e as neurociências.

No primeiro deles é apresentada uma exposição muito didática do conceito de "ajuste-fino cósmico" (fine-tunning), ou seja, a idéia de que o universo apresenta uma série de características singulares e surpreendentes que indicam a existência de um propósito e uma mente divina. O fenômeno do ajuste-fino cosmológico é a principal evidência para o que foi denominado "princípio cosmológico antrópico" - o universo foi projetado para que enfim o ser humano viesse à existência. O documentário discute ainda o status da noção de "multiverso", uma das saídas procuradas por cosmologistas não cristãos para escapar das implicações do princípio antrópico.

O segundo documentário trata do problema da evolução biológica. A crítica ao criacionismo da terra jovem e ao Design Inteligente é respeitosa mas incisiva. O roteiro apresenta uma defesa da compatibilidade essencial entre a idéia cristã de Criação e a teoria da evolução. E o grande argumento em defesa da posição evolucionista teísta é a descoberta de Simon Conway Morris, paleobiólogo de Cambridge, de que o fenômeno da convergência evolucionária - espécies separadas desenvolvendo características estruturalmente idênticas ou quase - é muito mais extenso e capilar do que se imaginava.

Morris e outros relacionam esse fato com o argumento cosmológico antrópico, sugerindo que a teoria da evolução, corretamente interpretada, não seria evidência de que a vida surge "por acaso". Antes, o mecanismo evolucionário seria na verdade um processo muitíssimo mais complexo e ainda insuficientemente compreendido de produzir complexidade. Ou seja: haveria evidência empírica de que a evolução foi dirigida por Deus. O segundo filme trata ainda do problema do mal, do aquecimento global e da vocação cristã de cuidar do planeta terra.

O terceiro documentário foca a questão da personalidade humana, no contexto das neurociências: seria possível, como alguns neurocientistas vem alegando, que a personalidade, a consciência - tudo aquilo que costumávamos chamar de "alma" - seja meramente uma projeção de nosso cérebro físico, um epifenômeno? Vários cientistas cristãos são convocados para explicar porquê essa alegação é gratuita: na verdade, cada movimento da personalidade humana tem uma contraparte neurológica, mas isso não prova que a personalidade seja uma ilusão, que o real seja apenas a química cerebral. Somos seres profundamente corporais, mas a mente é uma realidade emergente que transcende ao cérebro, e que é capaz de provocar mudanças reais no mundo físico. E porque nossas personalidades são reais, as questões de valores éticos também são reais, irredutíveis e insolúveis do ponto de vista da ciência do cérebro.

Além dos três filmes principais, os diretores produziram ainda três sequências "bônus" com entrevistas com cientistas, teólogos e filósofos.

Materiais Didáticos: O Brasil Precisa

Juntamente com os documentários a equipe desenvolveu um livro e outros materiais didáticos que serão lançados pela Paternoster na Inglaterra. Seria muito interessante se alguma editora brasileira manifestasse interesse pela tradução e publicação desses materiais de apoio no Brasil. Eles com certeza poderão ser muito úteis para a evangelização universitária e a educação cristã por essas terras, e carregarão consigo o peso de um documentário de alto nível.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Darwinismo Hoje: Impressões sobre o II Simpósio da Mackenzie


É possível um debate inteligente sobre Darwinismo e Design Inteligente no Brasil?

A julgar pelo clima belicoso cultivado cuidadosamente na grande mídia e na blogosfera muita gente já respondeu "não", e eu me contava entre os pessimistas até participar do II Simpósio Internacional da Mackenzie, "Darwinismo Hoje".

O simpósio incluiu vários nomes importantes: John Lennox, professor de matemática e de filosofia da ciência na universidade de Oxford, Paul Nelson, pesquisador do Discovery Institute e professor da Universidade Biola, e o Dr. Marcos Eberlin, professor da Unicamp, defenderam a posição do Design Inteligente. Adauto Lourenço foi também convidado a apresentar um mini-curso sobre o Criacionismo. Do lado evolucionista estavam o Dr. Aldo Mellender de Araújo, professor da UFRS e o Dr. Gustavo Caponi, da UFSC. Comentando o comportamento da grande mídia no trato da questão estava o jornalista Maurício Tuffani (para mais detalhes sobre a titulação e atividade de cada um, clique aqui). Mas falemos um pouquinho sobre as palestras e as idéias de cada um.

As Palestras e as Idéias

Os defensores do Design Inteligente (ou "DI") trataram de temas bastante diferentes, embora claramente interligados. O Dr. Lennox, que abriu o Simpósio na segunda à noite falando sobre "A Origem da Vida e os Novos Ateus", e tratou no terceiro dia dos "Fundamentos da Moralidade", soube explorar algumas das principais fraquezas da dobradinha evolucionismo/ateísmo: a incapacidade do materialismo em sustentar qualquer fundamento claro para a inteligibilidade do universo (citando explicitamente o Dr. John Polkinghorne), as evidências de "sintonia fina" (fine-tunning) no universo, que constituem um argumento teísta completamente independente da biologia evolucionária (o chamado "macro-design"), e as dificuldades imensas de fundamentar uma ética plenamente humana no darwinismo.

O Dr. Paul Nelson destacou a evidência científica contrária à macro-evolução levantada recentemente a partir de estudos genéticos, citando o ataque à "Árvore da Vida" de Darwin (o seu modelo de "especiação" ou multiplicação de espécies de seres vivos a partir de um ancestral comum) publicado pela revista New Scientist e demonstrou a origem surpreendentemente teológica dos argumentos Darwinistas contra o DI que se apóiam nas alegadas "imperfeições" como evidências de seleção natural não-inteligente. Na segunda palestra, destacou a dificuldade do Darwinismo de lidar com o fenômeno da consciência, com a realidade do mal, e com a exigência de uma ética genuína.

Já o Dr. Marcos Eberlin seguiu uma abordagem mais didática, apresentando as idéias básicas do DI, primeiro em uma oficina no terceiro dia do simpósio, e depois em sua própria plenária: "Fomos Planejados - A maior descoberta de todos os tempos." Que por sinal foi extremamente instrutiva. O Dr. Eberlin foi pródigo em apresentar massas de evidência bioquímica e genética de altos níveis de "complexidade irredutível", corroborando a abordagem lançada por Michael Behe em "Darwin's Black Box" ("A Caixa Preta de Darwin", publicado no Brasil pela Jorge Zahar Editor). O pesquisador Adauto Lourenço apresentou um mini-curso sobre Criacionismo para clarear as idéias dos curiosos sobre o assunto e prepará-los melhor para a discussão.

Os evolucionistas ateístas presentes limitaram-se a um tratamento também didático da questão, procurando esclarecer com precisão os fundamentos do Darwinismo contemporâneo. O Dr. Aldo Mellender falou sobre "Darwin ontem e Hoje: 150 anos de 'A Origem das Espécies'", oferecendo um esclarecedor histórico do desenvolvimento da teoria, desde seus antecessores até desdobramentos recentes como a sociobiologia e a explicação evolucionária do comportamento altruísta, e a contemporânea biologia evolutiva do desenvolvimento (a famosa Evo-Devo). Em sua oficina o Dr. Mellender introduziu os ouvintes ao complexo problema das correntes no Darwinismo contemporâneo - onde a situação é talvez um pouco mais confusa do que se imagina. O Dr. Gustavo Caponi apresentou um mini-curso sobre "Evolucionismo", explanando detalhadamente o conceito de "seleção natural", e fez uma exposição informativa sobre a principal obra de Darwin - "A Origem das Espécies". Ambos expressaram a visão quase consensual entre darwinistas ateístas de que pode-se falar no máximo em uma "teleologia naturalizada", na forma de um determinismo mecânico, mas não de teleologia genuína.

O Debate

E na última sessão deu-se o esperado "pinga-fogo" - a mesa redonda com todos os participantes (exceto o Prof. Adauto Lourenço), que responderam a questões formuladas a partir das perguntas feitas ao longo de todo o Simpósio. Em termos de lucidez e de gentileza é preciso dizer que ambos os "lados" empataram - ou que ambos igualmente venceram. Em especial precisamos destacar a atitude respeitosa e dialógica dos professores, Paul Nelson (DI) e Aldo Mellender (Evolucionista). Quisera Deus que muitos cristãos tivessem o espírito daquele filósofo ateu - e que muitos ateístas tivessem a oportunidade de conversar com um teísta como Paul Nelson.

Quanto aos argumentos, é difícil não concluir que os defensores do DI se saíram melhor. Talvez por uma razão mais ou menos óbvia: os DI's vem sofrendo ataques e articulando defesas contra os ateístas militantes há muitos anos, e desenvolveram uma competência elevada na apresentação de seus argumentos. Já os evolucionistas convidados se apresentaram de uma forma quase não-apologética, defendendo-se eventualmente de forma "ad hoc" e levantando críticas definidas mas evidentemente não muito desenvolvidas. Ninguém deve concluir, no entanto, que os argumentos dos darwinistas ateus acabam por aí: o resultado reflete apenas a realidade brasileira versus a realidade americana.

A despeito dessa concessão, o debate realmente mostrou uma realidade que vem se desenhando internacionalmente: o darwinismo ateu "militante" de fato não tem recursos suficientes para lidar com o problema do "sentido", da "racionalidade", do "valor" - enfim, com a experiência humana de que o círculo da realidade é maior do que o círculo da matéria pura. Há sentido e propósito no mundo, e não é possível esgotar o significado da vida humana a partir da seleção natural. Na verdade, de um modo contraditório, a meu ver, até mesmo Mellender e Caponi admitiram prontamente o fato, insistindo no entanto na prioridade da seleção natural como fonte de complexidade biológica e direcionadora do processo evolucionário.

Maurício Tuffani

Excepcional, e digna de nota aqui, foi a admissão do jornalista Maurício Tuffani (ex-editor-chefe e ex-redator-chefe da revista Galileu, ex-editor de ciência da Folha de São Paulo, entre outros méritos), de que o tratamento dado ao debate entre DI e Evolucionismo não foi equilibrado (ou justo), e que o fato reflete na verdade uma crise no jornalismo internacional. Entre outros problemas que se tornaram crônicos no Brazil estaria substituição da pesquisa e descoberta de informações pela mera divulgação de informações, o domínio do jornalismo por corporações, e a tendência do jornalismo opinativo de se tornar um mero espelho de certo público cativo.

Para quem acompanha o jornalismo científico, é um alívio perceber manifestações de sanidade em um ambiente tão polarizado pela desinformação sobre religião e ciência.

Um Balanço

O que poderíamos dizer, de um modo geral? A despeito do silêncio dominante, excetuado por uns poucos anátemas blogosféricos de ateístas militantes, é certo que o evento foi um sucesso se considerado do ponto de vista da urgente apresentação do debate sobre o Darwinismo e a Religião em termos maduros e genuinamente acadêmicos. Quem tinha preconceitos contra o evolucionismo ou contra o DI teve oportunidades reais de se atualizar.

Foi impossível não observar, no entanto, a total ausência de representação dos evolucionistas teístas ou dos criacionistas evolucionários. Na visão de alguns, isso obliteraria o conflito polar entre o DI e o naturalismo filosófico dos Evolucionistas ateus, e isso talvez não fosse interessante para a Mackenzie neste momento; talvez porque a introdução do DI na instituição já seja um dos objetivos principais do Simpósio.

Eu cheguei a perguntar ao Dr. Mellender sobre a obra de dos mais importantes paleobiólogos da atualidade - o Dr. Simon Conway Morris, da Universidade de Cambridge - que defende evidências de teleologia (e, assim, de uma providência divina) não nas "lacunas" do processo evolucionário, mas em seu próprio cerne, no fenômeno da convergência evolucionária. O Dr. Mellender expressou conhecimento da obra, e embora discorde de Morris, admitiu com um sorriso que o seu trabalho "é de meter medo" - para ateístas, é claro. Há também outros cientistas e/ou filósofos da ciência que tem visões mais nuançadas sobre a distância entre o DI e Darwin.

No futuro, quando a proposta do DI tiver lançado raízes mais fortes na instituição, seria de grande valor para o diálogo entre religião e ciência no Brasil a inclusão de nomes como Alister McGrath, Jacob Klapwijk, ou Del Ratzsch, cuja reflexão sobre DI e Evolução já mais alguns passos adiante.

Não poderíamos encerrar essa reflexão sem manifestar o nosso apoio à Universidade Mackenzie e à sua Chancelaria. A direção dessa universidade está envolvida em um importantíssimo projeto de promover a educação e a erudição acadêmica com raízes e traços claramente cristãos e reformados. Tenho ciência de que muita gente - inclusive muitos cristãos evangélicos - não vêem tal empreendimento com bons olhos, unindo-se na desconfiança à sociedade secular. Mas a estes eu só poderia sugerir que se informem melhor a respeito. Se há alguma falha, que se reconheça a coragem de confessar a Cristo no mundo acadêmico, e que se devolva o justo cumprimento da genuína cooperação.

O fim da modernidade e a aproximação do mundo pós-secular são um fato, e os cristãos conscientes deveriam ser os últimos no mundo a sentir saudades da universidade "laica". Que de "laica", é certo, nunca teve nada; mas isso seria assunto para outro artigo!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Porque usar a Ciência para testar Deus? - A propósito da reportagem no Blog do The Guardian


Hoje cedo Ian Sample, correspondente de ciência do The Guardian, publicou um comentário juntamente com o áudio da entrevista concedida a ele por John Polkinghorne, físico-matemático e sacerdote anglicano, autor the diversos livros de referência sobre o diálogo de ciência e religião. A entrevista fora motivada pelo lançamento recente do novo livro de Polkinghorne, Questions of Truth: God, science and belief, no qual vários aspectos do debate sobre ciência e religião são tratados em forma de pergunta e resposta.

No conteúdo da entrevista, nada muito especial, de fato. Sample pergunta sobre as razões para a crença de Polkinghorne em Deus, na encarnação do Verbo, na ressurreição dos mortos, na vida após a morte, etc. No finalzinho temos uma questão sobre criacionismo e Design Inteligente em escolas, e foi só. As respostas de Polkinghorne foram sóbrias, essencialmente ortodoxas e claramente escandalosas para o entrevistador. É o que se depreende de seus brevíssimos mas esclarecedores comentários sobre o assunto.

"Eu estava interessado em falar com John porque desejava tentar compreender como ele poderia crer em coisas extraordinárias para as quais não há nenhuma evidência. Isso é o que me fascina a respeito de pessoas religiosas [...] Eu não tinha nenhum interesse em atacar as crenças de Polkinghorne, confusas o quanto me pareçam, mas eu queria saber porque ele sustenta as crenças que sustenta. O irritante foi que eu não alcancei o tipo de insight que esperava."

Foi o que ele disse, em meio a resumos bastante simplórios e banalizantes das crenças de Polkinghorne. Nenhum diálogo lúcido, nenhum esforço visível para compreender o sentido da fé cristã. Mas aqui, certamente, precisamos dar ao leitor um pouco mais de orientação contextual. Polkinghorne colaborou com ninguém menos que o prêmio Nobel Paul Dirac, foi professor de física matemática na Universidade de Cambridge - como colega de Stephen Hawkings - ex-diretor do Queen's College e fundador da International Society for Science and Religion.

Mas não é apenas o seu currículo o que é preocupante para uma pequena mas ruidosa minoria de cientistas céticos; o fato é que o trabalho de Polkinghorne para mostrar as ligações implícitas entre a religião e a ciência já mostrou o seu valor permanente. O verdadeiro motivo da entrevista de Sample foi o livro a que nos referimos, Questions of Truth: Fifty-one Responses to Questions About God, Science, and Belief (Westminster John Knox Press), escrito com a assistência de Nicholas Beale. Como se não bastasse o aval de dois prêmios Nobel ao livro, além de diversas figuras já conhecidas como Alister McGrath e Francis Collins, o lançamento da obra foi feito na Universidade de Chicago, no encontro anual da American Association for the Advancement of Science (AAAS, a "SBPC" americana) e em um evento especial da Royal Society, com a presença de três vice presidentes, e mais de quarenta membros da mais distinta Associação Científica do mundo. Para o desespero dos "Novos Ateus". O secularista inglês A. C. Grayling acusou Polkinghorne no The Humanist de "desonrar" a Royal Society e considerou a coisa toda um escândalo. Mas a julgar pelo apoio dos FRS (Fellows of the Royal Society) a Polkinghorne, a sua irritação não reflete nem mesmo o establishment científico inglês atual.

Não é de se admirar, portanto, que alguns céticos se sintam atônitos. Coisas assim não deveriam acontecer. Cientistas renomados não deveriam ter fé, nem ser membros da Royal Society. Mas isso nem sempre os leva a considerar seriamente o cristianismo diz. E alguns deles se lançam a esforços pouco científicos como o de tentar compreender em uma entrevista de treze minutos se este ou aquele cientista crente não tem, afinal de contas, um parafuso solto. Mas eu não creio que Polkinghorne tenha fé devido a um parafuso solto. Eu o conheci pessoalmente em Cambridge, e posso garantir que sua lucidez corresponde perfeitamente à sua titulação acadêmica.

Se Ian Sample se desse ao trabalho de investigar o que, afinal de contas, está por trás das crenças de Polkinghorne e de outros cientistas influentes sobre Deus e o Cristianismo, descobriria que há, sim, sérias motivações para a crença em Deus e, mais ainda, para a crença no Deus de Jesus Cristo, o Deus-Pai, Criador do Céu e da Terra.

Como Polkinghorne gosta de apontar em seus livros, o fundamento original de todas as coisas não é uma força ou uma substância material, mas uma pessoa infinita. E pessoas não são conhecidas por meio de metodologias objetificantes, apropriadas apenas a fatos impessoais. Pessoas são conhecidas no interior de relações do tipo Eu-Tu, nas quais a confiança, e não o teste experimental, é a principal ferramenta cognitiva. Pessoas são invisíveis para a ciência empírica, mas nem por isso são menos reais. Portanto a ciência é inútil para "provar" Deus. No máximo ela pode "falsificar" os falsos deuses.

Não é verdade que Polkinghorne crê em coisas sem nenhuma evidência, como Sample sugere maldosamente. Não apenas há evidências que apontam para Deus, mas experiências de um Deus pessoal que, embora reais, estão além do espectro visível aos olhos da ciência empírica.

Isso é sem dúvida "irritante", como o disse Sample, para pessoas que gostariam de passar o universo inteiro por tubos de ensaio. Mas se até mesmo eu sou grande demais para um tubo de ensaio, o que dizer do Criador Pessoal de todas as coisas?

sexta-feira, 27 de março de 2009

A Ciência Precisa da Religião?

Já está disponível na "Plataforma" da Ultimato mais um artigo sobre Religião e Ciência traduzido por mim. É o Faraday Paper 2, por Roger Trigg, que traz reflexões bem interessantes sobre a articulação entre a crença em Deus e a ciência.

O FP 1 (O Debate sobre Religião e Ciência - uma introdução), por John Polkinghorne, está disponível na Plataforma também.

Os Faraday Papers são um projeto do Faraday Institute of Science and Religion, da Universidade de Cambridge. Para quem quiser, os originais em PDF estão disponíveis AQUI.

terça-feira, 24 de março de 2009

O "Besteirol na Ciência", o Cientificismo e o Senso Comum

Causou furor a coluna de Ruth de Aquino na revista Época, publicada na última sexta-feira (20/03).

Sob o título "O Besteirol na Ciência é Melhor do que no Senado" a jornalista lançou uma espécie de "ataque surpresa" à comunidade científica - ou, ao menos, assim ela foi interpretada por muita gente. É o que se pode deduzir das respostas imediatas nos comentários online e em alguns dos principais Blogs de ciência do Brasil.

Na verdade a jornalista não atacou a ciência diretamente, em nenhum momento. Em seu artigo ela meramente alistou uma série de experimentos científicos que aparentemente teriam pouquíssimo ou nenhum poder explanatório, como o caso de uma pesquisa sobre os benefícios de 15 minutos de recreio para o rendimento de crianças na escola ou sobre o poder de "genes gay" (supostamente responsáveis pela gentileza e pela sensibilidade) para atrair mulheres. Nesses e em outros casos tempo e dinheiro foram gastos para demonstrar fatos óbvios ao senso comum, ou para trazer resultados inúteis. Ao fim do artigo ela aponta uma de suas fontes: uma entrada da wikipedia sobre o prêmio "IgNóbel" - uma paródia do prêmio Nobel sobre pesquisas científicas "cômicas".

Mas a reação ao artigo foi vastamente negativa. Houve quem declarasse guerra à jornalista. Entre ameaças de patrulhamento e petardos virtuais alguns cientistas defenderam uma das pesquisas criticadas por Ruth em seu artigo - um grupo de cientistas da Universidade de Princeton "descobriu" que a visão de mulheres de biquíni desperta nos homens a mesma área do cérebro estimulada quando eles vêem objetos e ferramentas; e que a sua memória para corpos sexualizados de mulheres - sem os rostos - é mais ativa do que memória para mulheres vestidas ou homens. Ruth de Aquino seguiu a linha da reportagem na seção de Ciência do The Independent, "University of the bleedin' obvious", que também ridicularizou as obviedades da pesquisa.

Em defesa de seus colegas o editor de "Brontossauros em meu Jardim" - premiado Blog de ciência brasileiro, atacou o sentimento "anti-científico" da jornalista e defendeu a pesquisa de fatos aparentemente banais com o seguinte argumento: "o papel da Ciência é exatamente desafiar o nosso senso comum, que um péssimo parâmetro para se descobrir como funciona o nosso universo. Por essa razão, é necessário realmente testar o senso comum para ver se ele corresponde a realidade."

Um outro blogueiro cientista disse que a pesquisa não era tão trivial, afinal de contas, e que os resultados ao menos fortalecem a afirmativa de que o uso de mulheres seminuas em anúncios desumaniza as mulheres, "para além de achismos e senso comum (que podem ser contestados pelos cínicos de plantão)."

E com isso já temos fatos suficientes para levantar a questão: será mesmo que o papel da ciência seja essencialmente "desafiar o senso comum"? Cientistas precisam tomar muitas decisões antes de iniciarem uma pesquisa científica. E essas decisões que antecedem à prática científica, tanto temporalmente quanto logicamente, não são tomadas "cientificamente". Elas ocorrem no universo do malfadado "senso comum" - o mesmíssimo universo no qual se encaixam inclusive as manifestações iradas de alguns blogueiros científicos. A ciência não vive para desafiar o senso comum. Ela faz isso, muitas vezes, mas o senso comum é simplesmente o nosso habitat natural. A ciência é um útil parêntese dentro do senso comum; é uma ferramenta criada e manipulada pelo senso comum.

Pois bem: quero aproveitar o momento para defender exatamente o contrário do Blog supracitado: que precisamos sim de pesquisas como aquela de Princeton (discordando de Ruth de Aquino); só que não para substituir, mas antes para retornar ao senso comum - e ao conhecimento não-científico de um modo geral.

É inegável que os resultados da pesquisa em questão sejam uma evidência empírica que pode ser usada contra o setor publicitário, por exemplo, para defender as mulheres da desumanização a que elas são expostas todos os dias; e também são uma confirmação a mais da crítica cristã ao libertinismo sexual como um posicionamento destrutivo da dignidade humana. E em termos científicos apenas, precisamos concordar: a pesquisa não foi tão trivial. Ela levantou alguns fatos interessantes. Eu mesmo já penso em aproveitá-las para alguns fins não-científicos.

Mas é impossível não perceber quão pouco econômico é o irmão perverso da ciência, o cientificismo, expresso por alguns críticos da nossa jornalista. Para pessoas que assumem a inexistência de conhecimento seguro fora da demonstração científica, o senso comum e até mesmo a racionalidade moral parecem tão indignos de confiança que não podemos em sã consciência fundar neles as nossas decisões. E assim, testemunhamos essa horrível anomalia: que não tínhamos como combater o abuso do corpo feminino na mídia, até agora. Porque? Porque nos faltava o estudo dos pesquisadores de Princeton. Faltava a voz de um oráculo científico.

O cientificismo é viciado no que eu chamaria de desperdício doxástico. Ele precisa desafiar cada crença religiosa sem base empírica, cada preceito tradicional, cada valor social, cada intuição moral, cada arrazoado sobre comportamento, de um modo quase obsessivo. Para o cientificista, podemos sustentar opiniões morais - sobre a objetificação das mulheres no mundo publicitário, por exemplo - mas não poderemos considerar tais opiniões como verdadeiras, nem tomar decisões sérias com base nelas, até que sejam testadas empiricamente. Até lá, tais opiniões não passam de cismas feministas ou fundamentalistas.

E então a gente se pergunta: não fosse o cientificismo, com sua suspeita exagerada do senso comum, será que a tal pesquisa seria realizada só para dar "base empírica" ao óbvio? Talvez, se a filosofia, a teologia e a vovó fossem tratadas com menos ceticismo, sobrassem mais verbas de pesquisa para outros assuntos.

Ora, não é isso um maravilhoso exemplo do que nos disse o bom e velho Chesterton? "O louco não é um homem que perdeu a razão. O louco é um homem que perdeu tudo exceto a razão". Loucura é isso, ser profundamente rigoroso, preciso, movendo-se sempre em um círculo lógico perfeito mas perfeitamente minúsculo de demonstrações meticulosas. Pessoas normais não aguentam viver assim de modo consistente. É cognitivamente caro demais.

A modernidade criou uma sociedade neurótica, em que fatos morais conhecidos e até bem justificados pela filosofia, pela religião ou até pelos conselhos da vovó não podem ser assumidos e aplicados na esfera pública simplesmente porque se tratam de "valores" e não de "fatos científicos", ou porque isso despertaria a atenção das patrulhas céticas ou agnósticas do mundo acadêmico. Os modernos suspendem o juízo moral, mesmo quando já estão à beira da morte, só porque um paper decisivo sobre o assunto ainda não foi publicado. Prendem a respiração para evitar intoxicações não-científicas, como se cessar a respiração fosse uma coisa inócua.

Mas enfim, se pudermos convencer algumas pessoas a voltarem a respirar, está bem. Pesquisas sobre as bases neurológicas da moral, ou sobre os benefícios de certos valores na vida humana (para dar alguns exemplos) podem ser usadas por pessoas normais como evidências de que precisamos dar mais ouvidos ao senso comum, à sensibilidade moral, à filosofia e à religião.

Nesse caso, Ruth de Aquino está errada. Pesquisar o trivial pode ser útil quando não temos mais olhos para ver nem ouvidos para ouvir.

E ela não está errada somente por isso. Um grave perigo potencial no artigo da Época foi apontado por alguns cientistas: que estamos num país que investe pouco em ciência e não valoriza adequadamente os seus pesquisadores. Por esse ângulo, o artigo é um desserviço.

Quanto aos cientistas, eles estão certos quando defendem o dever da ciência de investigar o aparentemente óbvio e descortinar as sutilezas inesperadas da realidade; mas estão desorientados quando pretendem demolir e refazer o universo humano na base da prova empírica. Os erros da jornalista não chamarão mais a atenção do grande público do que a misantropia de alguns cientistas que se sentem atacados por dar pouco valor ao senso comum e ainda conseguem se enxergar dentro das críticas ralas de Ruth de Aquino.

Em suma, a jornalista da Época e os seus críticos estão certos e errados ao mesmo tempo, por razões diferentes. Talvez o imaginário de alguns cientistas precise mesmo de uma boa dose de senso comum, e eu diria mais - de filosofia e de conhecimentos não-científicos. Não para interromper a ciência, mas para levantar questões mais interessantes.

E talvez precisemos realizar essas pesquisas "triviais" não para substituir, mas para chamar a sociedade de volta à razão não-meramente-científica e ao senso comum. Afinal, é deste solo que nascem as boas questões.

domingo, 22 de março de 2009

Espaço Religião & Ciência na Ultimato

Caros leitores,

A Revista Ultimato disponibilizou um espaço semanal dedicado a temas de Religião e Ciência. Fiquei de editor do espaço, que será dedicado a notícias sobre o campo, artigos populares (nacionais ou traduzidos) e comentários críticos. Temos já uma mensagem de abertura e um artigo de John Polkinghorne disponíveis:

As Muitas Relações entre Ciência e Religião

O Debate entre Religião e Ciência: Uma Introdução (John Polkinghorne)

Para quem quiser, o original e a tradução do artigo de Polkinghorne estão disponíveis em PDF no site do Faraday Institute.

sábado, 25 de agosto de 2007

Religião e Ciência em Cambridge!


Na terceira semana de Julho eu e Rodolfo viajamos para Cambridge (na foto, capela de um dos Colleges), para um curso de uma semana no Christian Heritage, dirigido por Ranald Macaulay. Ranald fundou o L'Abri da Inglaterra em 1971, e mais tarde se mudou para Cambridge - onde ele se graduou, na década de 60. O Christian Heritage funciona na Round Church (a "Igreja Redonda"), uma capela construída em 1130, pela irmandade do santo sepulcro, imitando o estilo desta igreja em Jerusalém. A Round Church é um dos edifícios mais antigos de Cambridge.

Christian Heritage é um ministério dedicado à recuperação e atualização da herança cristã ocidental e de Cambridge especialmente. Além de manter uma pequena livraria cristã, apresentar vídeos e materiais sobre a influência cristã de Cambridge (via, por exemplo, William Wilbeforce, o maior líder abolicionista inglês), e de coordenar passeios turísticos com este foco na cidade, o centro desenvolve um trabalho de treinamento apologético e juntamente com a organização European Leadership Forum, promove uma rede de acadêmicos e estudantes cristãos em nível de doutorado: The Cambridge Scholars Network.

No curso de teologia de verão deste ano o preletor foi Wayne Grudem. A experiência foi bem interessante, considerando que eu adotei a teologia sistemática de Grudem por diversas vezes nos cursos de teologia sistemática, como professor da FATE BH. E também utilizei bastante seus trabalhos em exegese do novo testamento grego em minha dissertação de mestrado pela Teológica Batista de São Paulo, sobre 1Coríntios 14, em 2003.

Grudem é bastante acessível, e um excelente palestrante. Embora eu e Rodolfo tenhamos divergido de suas idéias sobre economia política e meio ambiente (ele é um defensor do Neo-conservadorismo de David Landes, Huttington, e da escola de Harvard, em geral; e aprova as teses controversas de Bjorn Lomborg), apreciamos muito a sua abordagem geral ao que foi o tema do curso: A Doutrina da Escritura.


Eu e Rodolfo ganhamos uma bolsa completa para o curso, que foi realizado no Sidney-Sussex College, bem no centro histórico. Um lugar muito bonito, com excelente comida e acomodações. E com uma grande história também - um dos ex-alunos do Sydney-Sussex foi ninguém menos que Oliver Cromwell, o herói puritano anti-monarquista.


Ao final da semana Rodolfo retornou para o L'Abri e eu me transferi para o St. Edmund's College, para fazer um outro curso de duas semanas promovido pelo Faraday Institute for Science and Religion, desta vez na Universidade de Cambridge. Para fazer o curso foi preciso concorrer a uma das duas bolsas (cerca de 1000 libras). O outro ganhador foi o Romeno Bogdan, um candidato ao sacerdócio pela igreja ortodoxa romena, excelente pessoa.

O centro é dirigido pelo Dr. Denis Alexander, um fellow do St. Edmunds College e diretor de projetos científicos na área de medicina, Rev. Dr. Rodney Holder, pastor anglicano e cosmologista de Cambridge, e Dr. Bob White, professor de "earth sciences" e fellow da Royal Society. Todos são cristãos evangélicos e cientistas de alto nível. O nível dos professores também - gente de Oxford, Cambridge, Warwick, Wheaton (US), para mencionar algumas universidades.

De fato, os professores são literalmente top minds em seus campos (genética, biologia evolucionária, cosmologia, filosofia e ciências da mente, história da ciência, etc), bem como no diálogo de religião e ciência. Gente como o Dr. Paul Shellard (nas fotos, entre Rodney e Denis), por exemplo, que palestrou sobre o princípio cosmológico antrópico, é coordenador do COSMOS, um supercomputador britânico para estudos cosmológicos e astronômicos, ou John Hedley Brooke, um dos maiores historiadores da ciência na atualidade, ou Roger Trigg, fundador da sociedade britânica de filosofia, ou Ard Louis, diretor de um programa de estudos em sistemas químicos auto-organizatórios em Oxford, ou o Dr. John Polkinghorne, ex-diretor do Queens College em Cambridge, físico matemático (trabalhou com Paul Dirac) e ganhador do prêmio Templeton para o Progresso da Religião.

A propósito, o número de peixes grandes no congresso era absolutamente desproporcional (uns vinte), considerando-se o número de alunos (uns 30). Só haveria uma explicação possível para tal conjunção celeste: o financiamento do John Templeton, que banca o Faraday. De fato foi difícil de acreditar quando tínhamos em uma mesa, por exemplo, simultaneamente (da esquerda para a direita), John Hedley Brooke, Richard Harrison, John Polkinghorne, Ernan McMullin e Rodney Holder - e mais alguns peixes grandes na assistência.


O curso foi bem "transdoxástico" (para não dizer "ecumênico"): a linha geral do Faraday é evangélica, mas há cooperadores católicos e simpatizantes da religião. Vários deles foram muito influenciados por Schaeffer. Denis leu livros de Schaeffer no princípio de sua carreira, e sua esposa até mesmo foi ao L'Abri da Suíça. O Dr. Bryant (na foto) chegou a dizer que os livros de Schaeffer salvaram a sua fé, na juventude.

Aparentemente, as questões mais fundamentais no diálogo religião-ciência - como o sentido religioso do Big Bang - não tocam diretamente os pontos mais superficiais que separam as denominações cristãs (como o batismo), mas afetam as bases das principais tradições teológicas. Apesar disso, várias dessas questões teológicas bem sérias, como a natureza da ação providencial de Deus e sua relação com a física, ou a natureza da liberdade humana, do ponto de vista das ciências da mente, ou o status científico do Design pareciam receber respostas muito semelhantes. Isso pode ser sinal de um acordo teológico, com base no diálogo com a ciência, ou de uma falta de reflexão mais aprofundada do ponto de vista de cada tradição (católica, calvinista, luterana, etc). Eu não poderia dar a resposta neste momento.

Um ponto bem claro foi a rejeição, por quase todos, do assim-chamado "young earth creationism" (criacionismo da terra jovem) bem como do Design inteligente, descrito como "micro-design", o planejamento de cada entidade biológica individual. Ao invés disso, os cientistas defenderam o "macro-design" - a idéia de que Deus na verdade criou um conjunto de condições físicas que levariam necessariamente ao surgimento do homem. O chamado "princípio cosmológico antrópico", apresentado de forma rigorosa pela primeira vez por Frank Tipler e John Barrow (na charge publicada na Nature).

Para reunir a idéia do princípio cosmológico antrópico à teoria da evolução, eles vem recorrendo a teorias de emergência e níveis explanatórios (por exemplo, dizendo que a vida é uma forma de existência que se baseia no nível físico, mas é qualitativamente diferente, demandando uma explicação bio-lógica), estudando sistemas auto-organizatórios, e desenvolvendo aspectos pouco estudados da biologia contemporânea como o fenômeno da convergência evolucionária (quando animais se desenvolvendo em ambientes diverentes adquirem capacidades semelhantes).

Um momento muito interessante foi a apresentação do Dr. Ernest Lucas (na foto), pastor batista, cientista e professor de interpretação bíblica, autor de "Gênesis Hoje" (ABU editora), mostrando a coerência de Gênesis com a teoria da evolução.

De fato, há uma longa tradição de evangélicos, muitos deles calvinistas, que defendiam a coerência entre a doutrina da Criação e a teoria da evolução. Um dos mais famosos foi Benjamin Warfield (na foto), que foi um dos principais formuladores da doutrina da Inerrância Bíblica (vide seu artigo clássico na primeira edição da International Standard Bible Encyclopaedia) e teólogo calvinista da chamada "Old Princeton" (antes da saída do Gresham Machen para fundar o Westminster). Warfield sustentava que a teoria da evolução não é essencialmente contrária ao cristianismo bíblico, e deve ser harmonizada com a doutrina da inerrância bíblica. Outro teólogo calvinista recente, na mesma linha, é o Dr. Alister McGrath, cuja obra"Vida de Calvino" foi publicada em português pela Cultura Cristã.

De um modo geral, eu posso ver sentido no esforço do Faraday em reunir ciência, religião, e biologia evolucionária em especial. Concordei mais do que discordei, mas tenho ainda duas divergências principais: (1) penso que a polêmica de alguns dos professores (como a do biólogo católico Kenneth Miller) contra o DI não leva em consideração o suficiente a viabilidade racional de uma ciência do Design, mesmo que esta seja desenvolvida à parte do naturalismo metodológico tradicional (talvez como uma forma sofisticada de "teologia natural"), e independentemente da investigação biológica tradicional. Mas entendo que isto é em parte uma reação ao radicalismo de parte dos proponentes do Design Inteligente;

(2) não posso aceitar a tentativa de explicar a Queda do homem como a mera presença de impulsos animais egoístas, provenientes de estágios evolucionários anteriores. Essa não é a posição do Faraday propriamente, mas alguns palestrantes defenderam algo próximo disso, como o Dr. Ernan McMullin. A propósito, McMullin, que é um velhinho genial, foi membro de uma comissão do Vaticano que reexaminou a posição católica em relação a Galileu. E ele é colega de Alvin Plantinga no Centro para Filosofia e Religião da Notre Dame University. Quando perguntei o que ele achava da crítica de Alvin Plantinga ao naturalismo metodológico, a sua resposta foi: "it's really bad..." Rsrs... Bem, não concordo com o Dr. McMullin, mas também acho Plantinga pessimista demais a respeito.

Bem, o fato é que tenho razões não somente teológicas, mas filosóficas para acreditar que precisamos de uma Queda histórica do homem para explicar a universalidade do pecado e de Cristo - vide o que Kierkegaard no ensinou a respeito do pecado, por exemplo. A multidão não pode "pecar"; o lesa majestatis, o pecado com "P" maiúsculo, que é uma revolta teológica, só pode ser cometido por um indivíduo. Isso de uma queda "coletiva" e "atemporal" de Adão é uma balela filosófica - se defendida à parte de uma queda individual, naturalmente. O pecado é uma coisa intensamente pessoal e temporal.

Nas críticas à idéia de "Queda", às vezes se ridiculariza a noção de transmissão biológica do pecado original (como em Paul Ricoeur) - mas isso não é problema para os Calvinistas; Calvino já havia rejeitado isso no século XVI, sugerindo no lugar a noção de pacto e união federal. Penso que esta pode ser a melhor linha de defesa da viabilidade racional da crença em uma Queda histórica de um Adão histórico (talvez não necessariamente o primeiro homo sapiens, biologicamente, mas certamente o primeiro homem no estrito [homo religiosus], e o primeiro "representante federal"; de qualquer modo, um personagem histórico). Para lidar com o assunto então seria preciso integrar estudos antropológicos, filosofia moral e, talvez, psicologia. Em outras palavras: este aspecto dos estudos de teologia e ciência depende da entrada das ciências humanas na arena de debates.

Concordo com os criacionistas mais estritos em que a negação da historicidade e da inocência original de Adão e Eva entre parte dos evolucionistas teístas não faz justiça à autoridade bíblica. Precisamos, no entanto, dar um passo além, e explicar "porquê" este ensino bíblico deve ser considerado factual, relacionando-o com as outras doutrinas bíblicas e com os outros campos do conhecimento. A Bíblia diz que Deus fez a chuva, mas isso não é uma explicação filosófica ou científica da chuva. Explicar, em perspectiva cristã, é muito mais do que dizer "A Bíblia diz". O ensino bíblico é a base da explicação, não a explicação em si. O meu desacordo com os evolucionistas-teístas (ou parte deles) é que eles não são capazes de dizer: "A Bíblia diz". E o meu desacordo com os criacionistas (boa parte deles) é que eles só sabem dizer isso. Acho que precisamos de uma forma de criacionismo evolucionário, como o que Alister McGrath vem desenvolvendo.

E caso alguém me pergunte: sim, acho que o Richard Dawkins pode ser um caso de regressão no processo evolucionário; se, de fato, ele é um homo sapiens que perdeu completamente a dimensão religiosa (veja bem: Se...). Bem, seria um interessante exemplo do que a Bïblia diz: "à lama pré-humana tornarás...".

Entre os bons resultados do encontro está a autorização para traduzir os "Faraday Papers" para o português. Os papers tratam de uma ampla gama de assuntos relacionados ao debate de religião e ciência, de forma introdutória; apresentam algumas idéias teologicamente heterodoxas mas, a despeito disso, são importantes por resumir vários aspectos do debate atual. Assim, embora com algumas ressalvas teológicas que, provavelmente, vamos indicar em nosso Blog de Religião e Ciência, pensamos que vale a pena disponibilizar para o público brasileiro.

Em Cambridge tive também a grata oportunidade de visitar a Tyndale House, terceira maior biblioteca de pesquisa bíblica do mundo (atrás apenas da biblioteca da universidade hebraica e da biblioteca do vaticano), mantida pela UCCF (uma ABU inglesa). Vários nomes importantíssimos passaram por Tyndale, que mantém um boletim de científico e acomodações para pesquisadores de diversas partes do mundo. Recentemente o diretor foi o Dr. Bruce Winter, cuja obra em história social do Novo Testamento, em diálogo com a arqueologia contemporânea, tem revolucionado a interpretação do Novo Testamento - sua obra "After Paul Left Corinth" (Eerdmans) é ainda a minha obra de referência para contexto histórico de 1Coríntios.

Na primeira visita encontrei o Rodrigo Franklin, que acabou de concluir o Ph.D. em Literatura Bíblica e Estudos Orientais em Cambridge, estudando a LXX, e que está indo para Goiânia trabalhar com Luciano Pires, do Colloquium. Ambos fizeram mestrado no Covenant (US), onde está o Francis Schaeffer Institute, e vão trabalhar juntos com ensino teológico e apologética. O Franklin já apresentou trabalhos em universidades Alemãs e está indo no fim do ano para Sorbonne, para palestrar sobre a versão septuaginta (LXX) do Antigo Testamento.

Alguns dias depois, em uma segunda visita, o Rodrigo me apresentou o Dr. Jonathan Chaplin, ex-professor do ICS no Canadá, e atual diretor do Kirby Laing Institute for Social Ethics. Dr. Chaplin é cientista político, com pos-doc pela London School of Economics, e aplica a filosofia de Dooyeweerd em seu campo de estudos. Há um grande número de especialistas em ciência política, história política e economia política que vêm aplicando os insights de Dooyeweerd para essas áreas.

Bem, vou ficar por aqui. Há muito o que dizer sobre as palestras e os diferentes especialistas, mas agora o almoço tá na mesa...

segunda-feira, 16 de abril de 2007

O Paradoxo da Ciência Policial da Religião

O último informativo da PUC MINAS (Belo Horizonte, edição 277, set 2006) traz uma reportagem especial sobre ciência e fé, por ocasião da instalação da Pastoral na Universidade. Começa com a entrevista a Dom Joaquim Mol, vice reitor, para quem "houve uma incompreensão histórica em se achar que a ciência e a fé respondiam à mesma pergunta [...] A pergunta da ciência é "como eu existo?" E a pergunta da fé é "que sentido tem a minha existência"? Outro entrevistado, Paulo Agostinho, professor de Cultura Religiosa na PUC - foi professor da minha esposa - sustenta posição semelhante. A reportagem traz também informações sobre a Pastoral e sobre o curso de Ciências da Religião.

Ainda Fatos e Valores?

À primeira vista, parece fazer sentido a distinção: a ciência lida com "fatos", e a fé com "valores". Mas eu não posso ver um avanço significativo no diálogo entre a religião e a ciência enquanto o debate continua sequestrado pela divisão kantiana, na origem, entre fatos sem sentido e sentido sem fatos (ou quase). A verdade é que a fé envolve conhecimentos que tem incidência direta sobre a interpretação dos fatos, a ponto de torná-los em fatos diferentes.

De todo modo, é uma guinada muito interessante essa. Embora evangélico, sempre me senti bastante incomodado pelo fato de os católicos saírem da PUC muito menos católicos, e muito mais ateístas ou agnósticos! Já não era sem tempo - se bem que não posso dizer até que ponto as mudanças refletem um interesse pastoral local ou a ênfase positiva e mais conservadora de Ratzinger no campo das relações entre fé, razão, e ciência.

Ciência (Combativa?) da Religião

Uma coluna na página 10, no entanto, me chamou a atenção de modo especial. Intitulada "Religião como objeto científico", pretendia explicar o papel das ciências da religião no universo da PUC, e a justificativa foi curiosíssima:

" 'O que nos diferencia da teologia é que, para nós, a religião é o objeto. E precisamos avançar na investigação científica para poder combater, por exemplo, o fundamentalismo' explica Flávio Senra, coordenador do programa [...] 'não podemos fechar os olhos para o fato de que cresce uma instância conservadora de princípios na sociedade. Nós que somos leigos, cientistas, estudiosos, precisamos assumir o discurso da explicação religiosa. A explicação religiosa apenas nas mãos dos fanáticos religiosos é como uma bomba-relógio', alerta Senra."

Na verdade, faz muito sentido. O crescimento do fundamentalismo islâmico, pondo em perigo a segurança mundial, merece resposta séria e corajosa. Mas este não é, evidentemente, o problema aqui no Brasil; tenho a impressão de que Senra se refere ao fundamentalismo cristão, em suas formas católica e evangélica. Entretanto, não há nada parecido com o fundamentalismo islâmico por essas terras, do ponto de vista da violência e do totalitarismo. Mesmo o fundamentalismo norte-americano, que tanto influenciou o evangelismo brasileiro, tem características profundamente individualistas, oriundas da Reforma Radical, em suas formas pacifistas, e do puritanismo inglês.

Talvez Senra esteja se referindo ao "conservadorismo de príncípios" na sociedade. Ora, se ele se refere ao conservadorismo católico, isto é realmente um problema; a reportagem expondo a natureza e finalidade da pastoral universitária parece pender em uma direção bastante conservadora! Mais provavelmente, ele se refere ao conservadorismo descentralizado (ou sem controle papal) que se vê na comunidade evangélica.

A linguagem bélica de Senra é que surpreende. "Combater", "bomba-relógio". Talvez seja mesmo necessário combater o fundamentalismo evangélico; mas é no mínimo intrigante que um programa científico universitário seja definido nesses termos. Ou não. No último congresso da SOTER, em Belo Horizonte, a mesa redonda sobre Religião e Ciência, coordenada por uma equipe da PUC de São Paulo definiu a sua perspectiva nos mesmos termos. Isso não parece mesmo nem um pouco ecumênico. Não; é mesmo paradoxal, que aqueles interessados em superar o fundamentalismo se tornem, de repente, tão parecidos com Ratzinger.

Ciência (Iluminista?) da Religião: O Paradoxo Brasileiro

Há, na atualidade, um grande movimento internacional que busca reconectar religião e ciência e, especificamente, teologia e ciências naturais. Este movimento conta, principalmente, com teólogos, filósofos e cientistas da natureza, na maioria físicos e químicos. A participação de psicólogos, cientistas políticos, cientistas sociais, e cientistas da religião ainda é bem pequena.

No Brasil, que ainda não acordou para essa realidade, tenho presenciado um movimento distinto, que nos ajuda a entender as palavras de Senra. Há uma luta, em parte política, em parte epistemológica, para traçar os limites entre as Ciências da Religião e a Teologia, no Brasil. O líder do movimento para separar os dois campos, por aqui, é o Dr. Frank Usarski, da PUC de São Paulo, no que é seguido pelas outras PUCs e, em parte, pelo Depto de Ciências da Religião da UFJF - se bem que vários professores em Juiz de Fora são teólogos.

Por outro lado, na UMESP, o Dr. Etienne Alfred Higuet - meu orientador - defende a viabilidade do diálogo, incluindo a teologia (em uma forma não-confessional, e hermenêutica) entre as ciências da religião. Finalmente, o Depto de Ciências da Religião da Mackenzie discute a possibilidade de uma Ciência da Religião Confessional (reformada)!

A necessidade de ganhar um "lugar ao sol" para as Ciências da Religião, no contexto Brasileiro, criou a exigência de distinguí-las da teologia, e de iniciar um movimento contrário àquele que se desenha no cenário internacional, de reaproximação. Poderíamos dizer, talvez, que o estudo científico da religião é a última estação de desembarque de uma forma não-hermenêutica e objetificante de ciência que, agora, entra em crise e inicia a reaproximação da teologia. Era de se esperar, neste contexto, que as ciências da religião se empenhassem por um diálogo com a teologia, mas o atraso histórico está criando uma instância iluminista em um contexto pós-iluminista.

Policiamento Científico do Sagrado?

Temos, pois, uma forma de Ciência da Religião bastante moderna - em plena "pós-modernidade" (será?) cuja função é, nas palavras de John Milbank, "policiar o sagrado". O policiamento segue o padrão típico da modernidade: a redução crítica e a naturalização. Mais do que isso, o policiamento tem um interesse político e social que transcende o interesse científico imediato: vigiar aquelas formas irracionais e bárbaras de religiosidade que possam pôr em perigo a divisão moderna entre saber científico e sentido religioso, que sustenta contenção dos religiosos em suas gaiolas dominicais.

Mas o que dizer contra isso? Se há uma ambiguidade fundamental em todos os empreendimentos humanos, não seria este o caso, também da religião? Se ela representa risco, não seria corretíssimo vigiá-la? Sem dúvida. Não posso ver problema nisso.

Exceto na medida em que não temos uma instância científica semelhante para policiar a secularidade. Ninguém policia a secularidade; mas dela se originaram as piores catástrofes políticas do século XX, ainda não igualadas pela religião. A ciência da religião poderia cumprir tal papel, se adotasse um conceito muito mais amplo de religião, e se voltasse para os insights da teologia, como os encontramos em Paul Tillich, Jacques Ellul ou Herman Dooyeweerd. Mas é claro que ela não pode fazer isso, na medida em que apenas objetifica a religião.

O problema são as anomalias advindas dessa restrição voluntária do campo de visão. Recentemente, pouco antes de apresentar uma comunicação sobre Religião e Ciência na Semana de Estudos de Religião da UMESP, assisti a uma palestra na qual o comunicador alegou que o fundamentalismo religioso protestante norte americano (Bush) seria a causa principal da violenta reação islâmica. Eu objetei apontando o fato de que o conflito com o Islã já era um problema social em toda a Europa antes de Bush, e que diversas rusgas com os muçulmanos não tem absolutamente nenhuma relação com o protestantismo americano - vide a "Crise das Charges", e as recentes declarações de Bento XVI. Obviamente, toda a análise não passava de uma ilusão de ótica, gerada por um standpoint secularista e, diga-se de passagem, de uma grande má-vontade para com a religião. A verdade, muito bem sabida pelos especialistas em política internacional, é que o conflito do Islã se dá com o Ocidente Secular, não com o "fundamentalismo religioso americano".

Segue-se que, para não cair em um mero policiamento acrítico do sagrado - acrítico sobre as suas próprias conexões tácitas com projetos humanos seculares e secularizantes - as ciências da religião deveriam iniciar seu diálogo com a teologia imediatamente, ao invés de adiá-lo para daqui há duzentos anos, e esforçar-se por entrar na grande conversa contemporânea sobre as relações entre a religião e a ciência.

Em suma, as Ciências da Religião precisam deixar a estratégia de objetificar a religião, e entrar em um diálogo real com ela, permitindo-se ser compreendidas também teologicamente, pela religião; e se queremos que o fundamentalismo entregue suas armas totalistas pelo diálogo, precisamos baixar as armas cientificistas. Afinal, como o disse o Prof. Paulo Agostinho,

"Há um fundamentalismo científico, bélico, econômico. Precisamos ter uma ciência que dialogue com a religião"

Parodiando a sua frase, eu diria que há um fundamentalismo secular por trás da Ciência policial da Religião. O que precisamos, hoje, não é de uma campanha contra o fundamentalismo religioso, mas de uma Ciência da Religião que dialogue com a Religião.

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Cientistas Cristãos: Embaixadores para duas Comunidades

Por Mike

Decidimos traduzir o artigo do mike ("Christian scientists: Ambassadors to two communities"), postado no dia 18/11, que traz um insight muito interessante sobre a posição do cientista cristão. Não poderemos traduzir os artigos sempre, mas os leitores podem sugerir, quando parecer pertinente!
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Ciência e religião têm se tornado um assunto emocional, tanto na comunidade científica como no interior da Cristandade, em anos recentes. Compreensões inadequadas abundam, tanto no tocante às implicações religiosas das teorias científicas como das implicações científicas da teologia. Uma interação genuína e proveitosa entre estes dois aspectos diferentes mas complementares da vida de um cientista Cristão é necessária e benéfica, caso se queira sustentar as próprias crenças com integridade. O desafio do naturalismo filosófico sentido por alguns Cristãos, tal como amplamente esposado por Richard Dawkins et al, tem resultado em uma interação característicamente negativa entre ciência e religião, na qual o Cristianismo deve ser defendido contra o avanço da maré ateísta (presumidamente o sinônimo de evolucionismo e big bang). O que tem sido quase apagado da consciência popular é a idéia de que estudar ciência possa realmente fortalecer a fé de alguém, e aprofundar a reverência e o senso de maravilhamento diante de um criador que orquestra o universo com tal variedade bela, complexidade e ingenuidade. Considere as palavras de Thomas Browne:

"A sabedoria de Deus recebe pouca honra daquelas cabeças vulgares que rudemente arregalam os olhos e em completa rusticidade admiram suas obras; o magnificam mais altamente aqueles cuja judiciosa inquirição em seus atos, e pesquisa deliberada de suas criaturas, retribuem o dever de uma admiração devota e erudita."

O desafio da percepção pública da ciência não se limita à relação com a religião. Não disse alguém, em certa ocasião, que "Um pouco de conhecimento é uma coisa perigosa"? A mídia, um punhado indivíduos falantes, pode ferir um nervo público que é suspeitoso de qualquer coisa que não consiga compreender. O dom que estes indivíduos tem é de fazer com que as pessoas acreditem que eles, o público, tem razoabilidade suficiente para captar os "fatos" e tomar uma decisão informada. A retórica é algo poderoso e, se alguém lê um escrito fundamentalista (Cristão ou Naturalista) descobre que a apresentação da informação é, às vezes, distorcida ou abusada. Muito poucas pessoas atingem uma decisão informada e, talvez, seja possível argumentar que ela nunca é razoável, considerando-se a complexidade da ciência para as pessoas que tomá-la.

Compreensões errôneas do Cristianismo e de Cristãos cientistas por cientistas, jamais serão alteradas pela tentativa de conduzir cada pessoa individual a uma consideração racional das questões envolvidas. O problema requer, antes, um assalto estratégico aos fundamentos intelectuais de nossas culturas. Isto pode ser visto nas diferentes formas de pensar da minha geração e da geração de meus pais. A transição da modernidade (racionalismo) para a pós-modernidade começou muitos anos atrás como uma idéia intelectual em universidades, mas tem sido finalmente absorvida na psiquê popular. Similarmente, se queremos voltar nossas mentes e corações para Cristo, isso deve começar com um sério engajamento intelectual com a teologia e a ciência, por aqueles colocados como embaixadores para ambas as comunidades - a comunidade científica e a Cristã. Uma mudança de percepção entre a intelligentsia verá, gradualmente, um grande impacto entre o grande público.

Em minhas discussões com colegas cientistas, uma percepção comum dos Cristãos é a de que eles são anti-intelectuais, e que não levam a sério a evidência disponível. Minha resposta deveria, assim, redefinir a integridade intelectual considerando tanto o meu trabalho como minha fé, pontuando, simultaneamente, que a "integridade intelectual" assumida se apóia, por vezes, em uma cosmovisão derivada da cultura circundante que é aceita passivamente, e não, como se costuma pensar, do raciocínio dedutivo.

Ao falar com Cristãos, talvez construindo uma apreciação mais positiva de como a minha compreensão da ciência tem enriquecido a minha fé, eles sejam levados a uma visão mais esclarecida do papel da ciência.

Atuar como embaixador a dois mundos diferentes requer compreensão das preocupações e dificuldades de relacionar os dois, um ao outro. Cientistas cristãos estão posicionados de forma singular, para desenvolver esses asuntos, na medida em que adquirem uma compreensão adequada de ambas as comunidades.

Nossa cultura não está perdida, e o Cristianismo e a ciência não são irreconciliáveis. O que se requer é o aumento da compreensão obtida por meio do engajamento inteligente, com a confiança de que, enfim, a sabedoria de Deus será mostrada, tanto na revelação como na criação.

Pois a terra se encherá do conhecimento da glória de Deus, como as águas cobrem o mar.

Habacuque 2.14

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

I Seminário "Cristianismo e Ciência em Diálogo"

A AKET promove, no dia 02 de Dezembro (sábado), das 8hs às 11h45 da manhã, o seu I Seminário "Cristianismo e Ciência em Diálogo". O seminário pretende oferecer uma introdução ao debate contemporãneo sobre as relações entre a fé cristã e as ciências, numa perspectiva evangélica.

Os palestrantes serão Giselle N. Fontes (Pós-Doutoranda em Física, UFMG), Guilherme de Carvalho (Mestre em Teologia e Mestrando em Ciências da Religião, UMESP) e Rodolfo Amorim Carlos (Mestrando em Ciências Sociais, UFMG). Todos são membros da diretoria da Associação Kuyper para Estudos Transdisciplinares.
Serão apresentadas cinco palestras, seguidas de perguntas e discussão:
1) O diálogo de religião e ciência hoje;
2) A reforma e o desenvolvimento da ciência moderna;
3) Abraham Kuyper e a idéia de uma reforma interna da ciência;
4) A relevância do teísmo cristão para a ciência;
5) Religião e ciência em perspectiva evangélica: as contribuições de Francis Schaeffer e Alister McGrath
O evento será realizado no templo da Comunidade Cristã Zona Sul, à Av do Contorno, 7492, Lourdes.
Inscrição gratuita no local.
Maiores informações pelo telefone: 31 34114017 ou pelo email: