domingo, 9 de julho de 2006

Convocação à batalha pelo Corpo de Moisés

Guilherme V. R. de Carvalho

Para meus Pais

“o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés”
Judas 9

Porque Satanás desejaria o corpo de Moisés?

Porque tomar aquele corpo envelhecido, cheio de memórias horrendas, de encontros maravilhosos com Deus? Porquê sujeitar-se a ser confundido com ele, repetir seus trejeitos e cheiros, imitar a sua voz? Pior; e se ele era mesmo gago? O que poderia fazer um diabo gago?

Pergunta óbvia. A mera pergunta induz a resposta: toma-se o corpo para se parecer. Há muitas formas de se parecer com alguém, mas qual seria melhor que tomar o seu corpo?

Desceu, pois, o arcanjo Miguel, para contender com o diabo e disputar o corpo do profeta. Também Deus queria aquele corpo, que era seu. Deus não queria só o espírito, mas também o corpo. É claro, Deus não queria apenas impedir que o diabo enganasse a outros por meio daquele corpo – engano possível apenas se não conhecêssemos nada além de Judas nove. Deus queria o que era seu. Mas também, o que era de Moisés; só o diabo quererá negar a identidade de Moisés com o seu corpo, e o ponto é inimaginavelmente importante, a ponto de conferir proporções cósmicas à batalha por ele.

Corpo é expressão temporal e material do ser; superfície na qual o interno se torna visível, o profundo na superfície, o símbolo de mim, que participa do que sou eu. Isso é o que o corpo deveria seria ser; para isso Deus criou o corpo. Mas a queda destruiu a sua finalidade, e colocou o eu contra o eu, o eu interno contra o eu externo. A leitura mais superficial de Romanos sete nos fará lembrar rapidamente a miséria de se achar fraturado, de querer e não querer ao mesmo tempo, de buscar a própria redenção por meio da auto-destruição.

O pecado separa barro e espírito, mata o sentido, afasta corpo de ser. Situação deveras miserável; eu separado de mim e, como se não bastasse, figuras infernais desejam alienar-me ainda mais de mim mesmo, tornar-me em dois e, então, em outro, para usar-me contra mim. O que será que Moisés pensou quando viu, de sua nuvem, o diabo lutando para apossar-se da sua superfície, para conectá-la com uma outra profundidade?

A luta entre Miguel e o diabo pelo corpo de Moisés lembra-me a luta pelo sentido, no campo da interpretação, e da própria teoria hermenêutica; ou melhor, a luta pela forma do sentido; ou a luta pela superfície do sentido que, não deveria mas, miseravelmente, é separada de seu coração, de sua fonte semântica profunda.

Ora, um calvinista, tipicamente, não se entregaria a este tipo de alegoria fantasiosa, inventando sentidos com as imagens bíblicas. Eu, especialmente, que por tantos anos defendi uma interpretação literal (embora não literalista) das Escrituras – que ironia. Mas antes que os amigos torçam seus narizes contra mim, quero desculpar-me de tão insólito uso do corpo de Judas, que não quero roubar, de forma alguma. Meu exercício de imaginação não terá a pretensão de significar o que Judas quis dizer, naturalmente. É claro que não estou fazendo exegese. Ao menos, não exegese bíblica.

Talvez, sim, exegese de um comportamento realmente diabólico, esse, de tentar roubar o corpo dos outros, ora. Isso, de fazer roubo semântico, é outra coisa. Ladrões de corpos, violadores de túmulos! Saqueadores criminosos esses hermeneutas que querem usar a superfície dos outros para ganhar o amor dos homens.

Diabolicamente enfiando-se nos braços, nos olhos e na língua que um dia foi de Moisés, e do Espírito de Deus – de ambos – para dizer algo que não é mais a mentira absoluta, que seria nada (em verdade, que não é), nem a verdade, que disse Moisés, mas para dizer uma síntese perniciosa que tem, corpo de verdade, mas espírito de mentira. É a verdade vazia que tem o cheiro, as rugas, o pêlo e o timbre da verdade, mas que é realmente outra coisa. E é difícil mostrar a mentira; afinal, se parece tanto com a verdade!

Um teólogo "diabólico" fará qualquer coisa para ser amado como Moisés, ou como Jesus, ou como Paulo, ou como os doutores da igreja. Sei o que digo, já o vi antes. Ele se sujeitará a usar aquelas palavras ignóbeis da tradição cristã, e consumirá tempo precioso se esforçando para obter um ponto de contato com o evangelho; aceitará em si as rugas e o fedor de alguns dogmas, e finalmente acreditará ser a própria re-encarnação de Moisés, o novo Moisés, com a mesma cara de antes – “mas com um melhor coração, enfim!” E tudo isso para esmolar a atenção complacente deste mundo podre. Pobres diabos-gagos. Seu último estado tornou-se pior que o primeiro.

“Misticismo semântico”: expressão Schaefferiana, para designar a ilusão de que o mero uso da linguagem cristã tornará o nosso discurso cristão, mesmo que sua carga semântica seja fruto de nossa própria imaginação filosófica. Como se as palavras dessem a luz ao sentido, e não o sentido às palavras; como se as meras palavras pudessem criar espírito e realidade, tal qual um “pó de pirlimpimpim” teológico.

"Misticismo Semântico": expressão especialmente desprezada e, até mesmo, odiada, capaz de fazer queimar o ventre de alguns teólogos. Desprezada, como não? Que pode um Schaeffer contra um Schleiermacher, ou um Tillich, ou um Bultmann, ou um Ricoeur, ou um Queiruga, ou um Rubem Alves, ou uma dessas Emílias que infestam os seminários teológicos? Que audácia! Sem dúvida, admito, precisamos submeter essa expressão a um tratamento mais sofisticado. Pobre Schaeffer; era um evangelista, não um filósofo, e muito menos um especialista em filosofia da linguagem religiosa.

Mas vou eu em sua defesa: ele conhecia o diabo o suficiente para enxergar o vazio sem fundo dentro dos olhos de algumas carcaças teológicas contemporâneas. Olhos tão parecidos com a velha tradição, tão brilhosamente evangélicos, tão impressionantemente consistentes mas... tão ocos de significado evangélico. Ou melhor, olhos tão cheios de outros significados, brilhando com luzes infernais, de sentidos infernais, quentes e vermelhos de revolta contra Deus.

Quem tem olhos para ver, veja. Isso não é coisa de somenos. Há crentes que apontam o poder do leão, e respondem tranqüilos: “o evangelho não precisa de defesa; só precisamos mantê-lo livre.” Pura inocência. Ainda mais com essa estratégia perversa de roubar o corpo dos outros. Como saber se aquele leão também é oco? Ou se está cheio com o pai da mentira?

Por isso Miguel descerá do céu, de novo, e de novo, e de novo, e contenderá pelos corpos de Deus, mesmo que sejam corpos mortos. E o diabo contenderá também; e os simples ficarão horrorizados: “porque tanta disputa em torno de um corpo? Porque tantas lágrimas e violências para guardar essas formas mortas, se o que importa é o espírito?”

Sim, o que, afinal, se pode fazer com esses ossos secos e empoeirados? Porquê submeter-se a horas, dias, e anos, de análise conceitual e reflexão, para demonstrar que a carga semântica de um certo discurso teológico é, finalmente, uma corrupção enganosa da verdade, do sentido que o evangelho nos trouxe? Porquê defender com unhas, dentes e mentes, o teísmo clássico, ou as duas naturezas de Cristo, ou sua unidade pessoal, ou a universalidade do pecado, ou a ressurreição literal dos mortos, ou a expiação vicária, e todas essas velharias dogmáticas?

Deus sabe o porquê. Deus e seus anjos o sabem, sim, mas principalmente, o diabo.

Convoca pois, o Senhor, anjos, para descerem de suas nuvens de apatia e desembarcar ali, onde um velho corpo é possuído, e dar luta ao pai da mentira. Quando aprouver a Deus, este velho corpo será ressurreto, e seus olhos estarão cheios do Espírito Santo. E seu rosto brilhará, com ainda maior brilho, e não haverá véu que oculte sua luz.

Até lá, - que saudade! – se temos apenas estes corpos inertes de tradição religiosa lançados aí, num canto, que seja. Os anjos chamados, fiéis em busca de compreender, estarão de guarda, esperando pacientemente pela ressurreição. E nossas espadas analíticas estarão prontas contra o diabólico misticismo semântico.

15 Comments:

Blogger Solano Portela said...

Caro Guilherme:

Brilhante ensaio, aproveitando o gancho da proposição bíblica. Realemente, ela não nos diz muito, em detalhes o que foi essa batalha e qual o seu sentido último. No entanto a batalha de Satanás, pelos corpos, como receptáculos através dos quais a mente se projeta e se comunica, na existência presente, é constante e dependemos totalmente da proteção de Deus. Essa proteção é tanto para nós quanto contra aqueles que já entregaram tanto a sua mente como corpos a Satanás, especialmente os travestidos de teólogos da modernidade, com o seu destrutivo misticismo semântico.

Um abraço e parabéns,

Solano

3:34 PM
Blogger Augustus Nicodemus said...

Caro Guilherme,

Gostei muito do seu texto. Criativo, inteligente e teologicamente perspicaz. O que você escreveu reflete a realidade. Somente através do corpo de Moisés é que o diabo tem chance de tentar enganar o povo de Deus. Nossa segurança é que Deus não permitirá que os eleitos sejam enganados.

Um grande abraço,

Augustus

5:41 PM
Blogger Charles L. Grimm said...

Muito bom este texto!

Realmente, o que tem de 'Emílias' por aí... nem no sítio do pica pau amarelo! :-)

2:54 AM
Blogger Norma said...

LINDO, Guilherme! Há tempos não leio um texto que trate propriamente de teologia com tanta criatividade formal-estilística-interpretativa. Adorei de cabo a rabo. Só não gostei de uma coisinha: a Emília de Lobato não merece ser associada a essas crápulas mortos-vivos... :-)

Vou recomendar a todos! Abração!

5:59 PM
Blogger Nagel said...

Parece que o diabo encontrou o poder da síntese. Por que negar a verdade se ele pode misturá-la sutilmente coma a mentira, a ponto de confundir os mais desatentos?

"Deus", "graça", "liberdade", todas palavras roubadas e preenchidas pelas mais variadas fantasias.

Abraços.

10:16 PM
Blogger Oswaldo Viana Jr said...

Eis a passagem: (Epístola de S. Judas, Cap. único, v. 9): "...o arcanjo Miguel, quando disputava com o diabo, discutindo a respeito do corpo de Moisés, não se atreveu a pronunciar uma sentença injuriosa contra ele, mas limitou-se a dizer: O Senhor te repreenda!"

O mais poderoso anjo preferiu deixar para Deus o julgamento do diabo, não?

11:18 PM
Blogger Caio Kaiel said...

Este texto foi indicação da amiga Norma Braga, mas sua sabedoria foi indicação de Deus. Obrigado.
Quanto ao texto, tomarei cuidado com os corpos alheios.

Deus te Abençoe Irmão.
Abraço.

10:44 AM
Anonymous Anônimo said...

nesse últimos dias, temos observado muitas "baboceiras" teológicas que mais causam dissensão do que edificação em Deus. Sou cristão a mais de 5 anos e pela graça de Deus recebi a tarefa de ministrar aulas na escola dominical e enfatizo muito os fundamentos sagrado da bíblia com meus aluno e não percam tempo com aquilo que não fundamentará a vida deles. Oremos para que Deus levante homens e mulheres comprimossados com a ortodoxia Bíblica a fim de sermos cooperadores de Senhor.

10:00 AM
Blogger Lou said...

Sua premissa teológica é o da salvação para alguns (os tais escolhidos). Com essa base, você desenvolveu um lindo texto. Interessante e cativante. Caso o Salvador tenha intenções maiores que as tuas (salvar toda a corja de pecadores, os maus pregadores e escritores entre eles, por exemplo) você poderá conviver com eles na vida eterna. Ore para que sua teologia seja a melhor, caso contrário, você correrá o risco de ter que servir a mesa onde esses hereges e ladrões do corpo de Moisés sentar-se-ão.

12:39 PM
Blogger Rev. Jonathan said...

Maravilhoso texto!
Parabéns!
Nao sei o que mais dizer agora...
Deus te abencoe Guilherme!

12:00 AM
Blogger Mauro Meister said...

Guilherme,

Bem atrasado, vi seu post. É isto mesmo... temos que lutar pela fé contra o misticismo semântico que invade nossas escolas teológicas e sites que ainda insistem em se chamar de evangélicos.

Vc deve lembrar que é que dizia ser 'a metamorfose ambulante'... antigo professor seu! Ele também dizia que era necessário 'defender-se dos defensores de Deus'.

abs
Mauro

8:50 PM
Blogger Allan Ribeiro said...

Hmmmmmm... um pensamento que faria muito sentido se em outros locais da Bíblia se relatasse a tentativa do rapto por Satanás de outros corpos (por que não o de Abraão, ou de Adão?).

Creio de outra forma:
Elias não morreu. Moisés morreu, mas o seu corpo foi disputado por um anjo. Os dois aparecem juntos a Jesus, Pedro, Tiago e João no monte. Depois, no início do livro de Atos, aparecem dois varões (não anjos, mas homens) e dizem aos seguidores de Jesus que Ele havia subido ao Céu para retornar da mesma maneira. No fim, em Apocalipse, duas testemunhas: elas poderão fazer fogo sair de suas bocas e impedir a chuva na terra por três anos e meio (quem fez isso em vida?!). Também serão capazes de converter água em sangue e ferir a terra com pragas (novamente, quem fez isso em vida?).

Tire suas próprias conclusões, como eu tirei as minhas. A Bíblia é um livro com uma estrutura fantasticamente interconectada e nada está ali por acaso. Estes pensamentos não são originalmente meus, mas eu os analisei muito e creio que são assim.

Mantenho um blog sobre apologética e filosofia. Gostaria muito se o irmão pudesse visitar e divulgar. O endereço é equipandoossantos.blogspot.com .

Abraços fraternos,

Allan Ribeiro

6:53 PM
Blogger Guilherme Carvalho said...

Caros amigos,

agradeço os comentários positivos - especialmente os da Norma - é que seus olhos são agudos, como se sabe!

Gostaria apenas de esclarecer ao Lou que meu texto não tem a intenção de dizer algo sobre o destino eterno de fulano ou beltrano, nem de falar de predestinação (embora eu seja mesmo um calvinista). Estou falando de idéias, e de seu significado religioso. Falando polemicamente, mas é isso.

Quanto ao Allan: é uma pena que vc não tenha captado a força do texto. Eu quis produzir uma impressão estética para reforçar uma crítica metodológica da teologia contemporânea. Me desculpe, mas o destino do corpo de Moisés não interessava, enfim, para a minha discussão...

abraços,

Guilherme

8:27 AM
Anonymous ailton said...

na minha opinião, satanas queria induzir o povo de deus a adorar o corpo de (moshe) moises, para desviar toda atenção de deus. sabemos que o intuito do diabo é fazer que o foco da adoração seja para ele.sabemos tb que o seu dia está chegando e o lago de fogo ardente está preparado para ele.que o nome do senhor de israel seja louvado em toda terra.amem

2:26 PM
Anonymous ailton said...

parabens pelo seo blog, e que deus lhe abençõe em nome de jesus.

2:28 PM

sexta-feira, 7 de julho de 2006

Sobre a Natureza da Fé

Os últimos meses me trouxeram algumas oportunidades muito interessantes de discutir o conceito de "Fé", a partir da filosofia reformacional. No início do ano eu apresentei uma discussão metodológica para o meu professor de Sociologia das Organizações Religiosas, o Dr. Leonildo Silveira Campos, em torno da possibilidade de se usar a fé como princípio explanatório associado à dinâmica social. Usei, na oportunidade, um pouco de Dooyeweerd, Peter Berger e uma obra interessantíssima do filósofo judeu Nathan Rotenstreich: "On Faith" (Chigaco University Press). Uma espécie de fenomenologia da fé.

No 12 Encontro da Sociedade Paul Tillich, em Maio, eu apresentei uma discussão crítica sobre o conceito de Fé de Tillich, que foi publicada agora, na CORRELATIO 9 (a revista da sociedade Paul Tillich), com o título "Sobre a Definição de Fé em Paul Tillich". Publiquei também uma resenha do livro de Rotenstreich, intitulada "As Estruturas Universais do Ato de Fé" (depois fiquei pensando: que título pretensioso, hehehe! Mas, na verdade, é isso mesmo o que Rotenstreich tenta fazer...).

Nesta primeira semana de Julho eu apresentei dois trabalhos no congresso da ALER, em São Paulo: "A Relevância do Teísmo Cristão para a Ciência no Pensamento de Roy Clouser", e "O Conceito de Crença Religiosa em Roy Clouser: Algumas Implicações para o Estudo da Religião". Nesta última eu fiz uma ponte entre Clouser e o trabalho sobre sociologia das organizações, que citei há pouco.

Numa conversa posterior o Dr. Steven Engler, coordenador da mesa, percebeu a conexão da proposta com Tillich - na verdade, Clouser foi aluno de Tillich! Uma curiosa proximidade com o pensamento neocalvinista... Opinou que introduzir o tema da fé e criticar o reducionismo na ciência seria "teologia disfarçada"! Eu retruquei que, pelo contrário, não era disfarçada, mas explícita, e que o problema era o disfarce dos pressupostos religiosos do "estudo científico da religião", que ficam sempre mantidos no escuro. Ele não concordou, obviamente, mas admitiu que seria uma metodologia limitada, mas viável. Foi uma excelente experiência de comunicação intelectual.

Estou aberto a ouvir as impressões daqueles que estiverem dispostos, ou puderem ler os artigos!

quinta-feira, 13 de abril de 2006

Uma Breve Conversa com Luiz Roberto França de Mattos

Em 2002 tive um breve diálogo com o Luiz Mattos, filósofo calvinista falecido em 2004. Na época eu estava começando na filosofia reformada. Foi interessante ouvir seus comentários sobre Wolterstorff e a Teologia da Libertação. Ele me recomendou a leitura de sua dissertação de doutorado, sobre o tema (que eu não consegui obter ainda); no próximo encontro da Rede (em Julho deste ano) vamos discutir um pouco as idéias de Wolterstorff.


Caro professor Luiz Mattos;

Tudo bem? Não sei se você se lembra de mim. Meu nome é Guilherme Carvalho. Sou de BH, e assisti a uma aula sua em 2001. Meu Pai (Elildo Carvalho) foi seu aluno. Pois bem: estou escrevendo porque eu e alguns professores aqui de BH estamos iniciando um núcleo de estudos interdisciplinares de orientação kuyperiana. Gostaria de estar em contato com filósofos reformados e de receber alguma ajuda, se você não se importar, é claro. Começo com uma pergunta: é possível fazer alguma conexão entre a epistemologia de Plantinga e a filosofia de Dooyeweerd? A primeira pode ajudar a esclarecer a intuição das esferas modais kuyperianas-dooyeweerdianas? Agora um pedido: tem como eu conseguir uma cópia de sua dissertação de doutorado (sobre a teologia da libertação)? É que eu estou pensando sobre as conexões (e descontinuidades também) entre a missão integral eo neocalvinismo (a propósito: li seu artigo na Fides e consegui uma cópia do Wolterstorff). Como sou neocalvinista convicto, sinto que há uns desajustes. Aguardo ansiosamente sua ajuda. Prof. Guilherme Carvalho. Faculdade Evangélica de Teologia de BH

Caro Guilherme,

Obrigado por seu e-mail. Você levanta várias questões muito interessantes. Terei muito prazer em manter um diálogo com você sobre elas. Prometo lhe enviar uma resposta, ao menos para aquelas sobre asquais já pensei um pouco a respeito, na próxima semana. Amanhã, terei uma reunião de planejamento do ano acadêmico 2003 com todos os professores do CPPGAJ, durante todo o dia. Grato por seu interesse e compreensão.

Luiz Mattos-----Mensagem original-----De: Guilherme Carvalho. Enviada em: quarta-feira, 13 de novembro de 2002 16:57Para: Luiz Mattos. Assunto: Epistemologia Reformada

Caro Guilherme,

Uma vez mais obrigado por seu e-mail. Lamento minha demora em responder. Estive bastante atarefado nos últimos dias trabalhando no preparo do Processo Seletivo 2003, ao lado de outras responsabilidades, o que me impossibilitou de lhe escrever antes. Conto com sua compreensão.
NA verdade, embora tenha me esforçado não consegui me lembrar de você. Creio que tivemos um contato muito rápido. No entanto, lembro-me muito bem de seu pai, e de suas participações sempre muito positivas nos cursos que ensinei.

Parabéns pela iniciativa de iniciar um grupo de estudos interdisciplinares a partir de uma cosmovisão Kuyperiana. Como você já percebeu, Kuyper (e o neo-Calvinismo holandês) ainda é bastante desconhecido em nosso meio reformado aqui no Brasil. À sua semelhança, estou convencido de que a obra de Kuyper é de extrema importância para que desenvolvamos um Calvinismo que nos permita interagir responsável e apropriadamente com as diversas esferas de soberania identificadas por ele: Ciência, Arte, Estado, Economia, etc.

Quanto à sua pergunta acerca da potencial conexão entre os projetos de Dooyeweerd e Plantinga, faço as seguintes observações:

1. meu conhecimento de Dooyeweerd é limitado. Além de sua crítica a Van Til na obra Jerusalem and Athen Revisited, avaliei superficialmente apenas Roots of Western Culture. Entretanto, é evidente, como você observa em seu e-mail, e Wolterstorff reconhece em sua obra Until Justice and Peace Embrace, que o projeto de Dooyeweerd incorpora a noção Kuyperiana de Esferas de Soberania como uma realidade ontológica baseada na ordem da criação.

2. Em Roots of Western Culture, identifico os seguintes elementos da filosofia Dooyweerdiana pelos quais nutro apreciação:

a. Seu reconhecimento de que iniciar a investigação da realidade em qualquer dos vários campos do saber humano (Matemática, Ciências Naturais, Biologia, Psicologia, Lógica, História, Lingüística, Sociologia, Economia, Estética, Teoria Legal, Ética ou Ciência Moral), “sem a luz do verdadeiro conhecimento de Deus e de si mesmo” tenderá a gerar uma absolutização de um conhecimento específico e um conhecimento falso da realidade como um todo. A seguinte declaração de Dooyeweerd substancia este ponto [peço licença para citar o texto em inglês para não correr o risco desnecessário de problemas com a tradução] : “Whoever absolutizes one aspect of created reality cannot comprehend any aspect of the basis of its own inner character. He has a false view of reality. Although it is certainly possible that he may discover important moments of truth, he integrates these moments into a false view of the totality of reality.” [Dooyeweerd, Roots of Western Culture. Toronto: Wedge Publishing Foundation, 1979, p. 42. Desculpe-me a citação completa. É só para permitir a conferência do texto se você desejar]
b. Seu reconhecimento de que ainda que o incrédulo possua uma falsa perspectiva da totalidade da realidade, ele ainda possui glimpses [vislumbres] da verdade, ou nas palavras do próprio Dooyeweerd, “momentos de verdade.” Esta posição parece-me mais apropriada do que a perspectiva defendida por Van Til, em My Credo, onde ele parece rejeitar o acesso do incrédulo à verdade “whatsoever.” [Reconheço que minha análise da obra de Van Til é por demais simplificada neste e-mail]. Se você desejar maiores informações acerca do assunto, não restará alternativa senão fazer um curso comigo em Epistemologia Reformada quando o mesmo for oferecido.

3. Plantinga, em suas obra mais recente em Epistemologia, Warranted Christian Belief, não se preocupa em relacionar seu projeto com as esferas de soberania propostas por Kuyper/ Dooyeweerd. Seu projeto é, até onde o entendo, desenvolver uma apologética negativa, demonstrando a racionalidade da fé cristã, de forma a responder a potenciais questionamentos de incrédulos. Note, entretanto, que ele não se propõe ao desenvolvimento de uma filosofia racionalista, nem de uma apologética positiva. È convicção explícita de Plantinga que apenas a obra regeneradora do Espírito Santo pode levar à conversão e ao conhecimento de Deus. Não obstante, ele se dispõe a descrever racionalmente este processo, investigando a capacidade noética do ser humano antes e pós-queda, bem como os efeitos noéticos da ação do Espírito no homem regenerado.

4. A despeito de Warranted Christian Belief não fazer qualquer menção às esferas de soberania Kuyperianas, é possível identificar uma ênfase de Plantinga a elementos da estrutura da criação e aos efeitos da queda sobre os mesmos. Em outras palavras, não creio que Plantinga tivesse qualquer razão para rejeitar a perspectiva Kuyperiana.

Quanto à minha dissertação de doutorado, esclareço o seguinte:

1. A obra não é sobre a Teologia da Libertação. O título é “Uma Análise da Teologia e da Ética Social de Leonardo Boff.” O texto está em inglês. Há um exemplar na Biblioteca do Calvin, mas não creio que isso lhe será muito útil. Eu tenho original, mas você teria que aproveitar uma de suas vindas a São Paulo para verificar o que desejaria copiar. Num futuro não muito remoto, espero trabalhar na tradução e publicação da obra.

2. Não entendi exatamente o que você quis dizer em seu e-mail por “desajustes.” Os desajustes a que você se refere são entre a Teologia da Libertação e projeto neo-Calvinista? Entre minha interpretação de Wolterstorff e a intenção do autor em Until Justice and Peace Embrace? Entre a posição de Wolterstorff e a da Teologia da Libertação?

3. O que quer que você tenha em mente, é minha convicção que Wolterstorff, a despeito de ser um neo-Calvinista assumido, tentou se valer de alguns subsídios fornecidos pela Teologia da Libertação, tal como, a teoria da dependência por exemplo, promovendo um tipo de síntese entre neo-Calvinismo e TL. Não creio que ele tenha sido bem sucedido. Em minha dissertação, deixo isso claro, como você poderá observar, se vier a lê-la.

Espero que estas observações sejam úteis em seus estudos. Lamento uma vez mais minha demora em responder seu e-mail. Minha oração é que o Senhor continue a abençoá-lo em sua vida acadêmica e pessoal.

terça-feira, 11 de abril de 2006

Teologia Radicalmente Evangélica

Revirando meus papéis em busca de uma fatura desaparecida, encontrei o discurso de formatura que eu escrevi para meus alunos da FATE BH. Foi a minha última turma naquela faculdade; uma turma jóia. O discurso foi lido em 12 de Julho de 2005 pela minha esposa, e representa bem o que penso sobre o desafio de ser evangélico hoje, especialmente nos círculos pensantes.


Agradeço aos meus alunos pela escolha do meu nome como paraninfo da turma. Este prazer só não será completo devido à minha ausência necessária.

Estou certo de que essa escolha reflete o nosso relacionamento ao longo do curso. E como o nosso relacionamento sempre girou em torno de uma mensagem, que permeava nossas aulas e conversas de corredor, tenho certeza de que essa escolha reflete o impacto positivo dessa mensagem na turma.

E qual é essa mensagem? A mensagem a respeito da radicalidade do evangelho.

Os ouvintes podem se surpreender com essa declaração, por sua aparente banalidade. Afinal de contas, não é verdade que todos os cristãos afirmam a radicalidade do evangelho? Não é isso o pressuposto nos seminários evangélicos? Não é esse o tema dos púlpitos, dos livros e dos cânticos?

Infelizmente, não. A igreja evangélica vive uma grande crise de legitimidade e de fundamentação. Essa crise é bem conhecida entre aqueles cristãos mais informados. Na busca, em si legítima, por um impacto mais significativo na sociedade, os evangélicos tem se adaptado acriticamente a posições políticas, ideológicas e econômicas humanistas, e a níveis de moralidade inaceitáveis, do ponto de vista das Escrituras.

Um dos setores nos quais essa acomodação tem se apresentado de forma mais evidente é o da teologia evangélica. A reflexão sobre a fé e a práxis evangélica tem lutado desesperadamente por legitimidade e eficiência, no interesse sincero de contribuir para a missão da igreja.

Entretanto, por uma ingenuidade filosófica, muitos pensadores evangélicos vem renunciando à radicalidade do evangelho, submetendo-o a padrões de pensamento cuja raiz é patentemente pagã.

Permitam-me repetir o que eu disse em sala de aula inúmeras vezes: isso não é radicalmente evangélico.

Não é radicalmente evangélico tentar compreender o evangelho a partir da mente secular, pois "o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, nem pode entendê-las, pois elas se discernem espiritualmente". Não é radicalmente evangélico acreditar que nossa compreensão do evangelho é totalmente condicionada e fundada pelo nosso contexto de origem; pois, "se alguém não nascer de Novo, não pode ver o Reino de Deus". O efeito historicamente comprovado desse tipo de hermenêutica tem sido a secularização do cristianismo, e o comprometimento da verdade cristã. Como Francis Schaeffer disse tantas vezes, ao dar-se autonomia à natureza, ela "devora a graça". Ao conferir a autonomia aos processos de pensamento utilizados na teologia, a "razão natural" devora a "fé".

O que seria, então, "radicalmente evangélico"? Nada menos que reverter completamente essa situação. Radicalmente evangélico seria compreender a mente secular a partir do evangelho; seria acreditar e aplicar o evangelho como chave hermenêutica radical para destravar a realidade, ao invés de tentar ler o evangelho a partir de uma suposta "realidade do leitor".

Para muitos cristãos sinceros essa posição é vista como "fundamentalismo". Não é o momento, aqui, para discutirmos a propriedade desse rótulo. Quero, no entanto, desafiar os meus alunos a não se incomodarem com isso. O mínimo que um teólogo cristão precisa fazer é se submeter a tais injustiças com coragem. Se existe uma forma de seguir a Cristo com a mente, ela certamente envolve levar o "opróbrio de Cristo" - a vergonha de confiar no Senhor de todo o coração e não se estribar no próprio entendimento.

A partir deste desafio, poderemos reconhecer as amplas implicações de um pensamento radicalmente evangélico. E a práxis da Missão Integral será, agora, entendida no sentido mais pleno possível: a missão de constituir uma cultura cristã, expressando o poder redentivo do evangelho em todas as esferas da vida: na política, na arte, na ciência, na caridade, na educação - enfim, na totalidade da vida humana. Como o expressou Abraham Kuyper, em sua célebre declaração:

"Não há um só centímetro, em toda a extensão da vida humana, sobre o qual Cristo, o Senhor de todos, não clame: isto me pertence."

É a minha oração que isso se cumpra na vida e no ministério de cada um de vocês. Que o evangelho seja crido e domine radicalmente todas as áreas de suas vidas, de tal modo que, um dia, as pessoas digam a seu respeito: não há um único centímetro na vida dessas pessoas que não pertence a Cristo!

Amem, e que Deus os abençoe.

Pr. Guilherme Carvalho

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Crise das Charges: O que Arnaldo Jabor, Bush e Laman tem em JustificarComum


As recentes convulsões em torno das caricaturas de Maomé tem se revelado um verdadeiro enigma para os ocidentais. Há uma legião de jornalistas e intelectuais que insiste em pintar o islã como uma religião "pacífica", e em dizer que o fundamentalismo radical pertence a uma minoria barulhenta. Vários deles, como Arnaldo Jabor (embora ele tenha caído em contradição diversas vezes, a esse respeito), acreditam que esses fundamentalistas são excitados pelo "fundamentalismo" protestante de direita de Bush, o protótipo do stupid white men.

Pois bem, os fatos não confirmam essa interpretação otimista. Há, entre grande parte dos muçulmanos, um profundo ódio contra a modernidade e a cultura ocidental, e não é contra o "fundamentalismo cristão", que, para eles, fracassou miseravelmente. O ódio deles é contra o humanismo secular ocidental, que une o conservadorismo liberal de Bush, o progressismo desbocado de Arnaldo Jabor e os chargistas dinamarqueses.

Na verdade Jabor, como um "fundamentalista secular" do pior tipo, não tem o que dizer das charges, e a razão é óbvia: se ele fosse um cartunista, as teria feito. Os chargistas dinamarqueses são Arnaldo JabØr...

Mas não é tudo culpa do Jabor, obviamente. Ele é apenas um "tipo ideal" aqui. Representa a grande massa de intelectuais humanistas seculares que assume dogmaticamente o seu secularismo, e que não podem conceber a verdade: o totalismo islâmico é uma reação, é o oposto, a imagem invertida deles próprios, em seu radicalismo anti-religioso. Não é uma conspiração da "direita cristã" como sonham esses xiitas de esquerda. Por sinal, jornais de esquerda, por toda a Europa, republicaram as charges!

É por isso que em tantos editoriais e colunas recentes de jornais e revistas conhecidos, encontramos esforços incoerentes de indivíduos que condenam o desrespeito à religião (intimidados, talvez, com o terror), tropeçando abismados na mesma "liberdade de expressão" que é utilizada, em seus países, para atacar o assim-chamado "fundamentalismo cristão": evangélicos, o papa Bento XVI, etc. Porque não pedem desculpas a nós? É porque não explodimos bombas?

A verdade é que o islã é uma religião intolerante mesmo, com tendências fortemente totalistas, e que o humanismo secular, por outro lado, é estúpido e incompetente para lidar com a religião. Nesse sentido os Jabores parecem mais com os imans do que o próprio Bush.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

A "Lei da Palmada" pode ir para o Senado

Lei Aprovada
Vejam só esta: a deputada Maria do Rosário (PT-RS) apresentou e conseguiu a aprovação na comissão de constituição e justiça (ccj) do projeto de lei 2654/03, que altera o Estatuto da Criança e do Adolescente (Eca) e o novo Código Civil estabelecendo o direito da criança e do adolescente a não receber nenhum tipo de punição corporal, moderada ou imoderada. Com isso a palmada ficará proibida. Qualquer um poderá fazer a denúncia, com a punição consistindo de cursos de orientação familiar dados pelo Estado e até tratamentos psicológico e psiquiátrico.
A lei foi aprovada em caráter conclusivo, ou seja, não precisou passar pela câmara, bastando a aprovação das comissões indicadas (Seguridade Social e Família, e Educação e Cultura).
Inacreditavelmente, o projeto foi pouquíssimo discutido nos meios cristãos, e a maioria dos pais só ficou sabendo do fato nos últimos dias, por jornais ou televisão. Mas houve alguns debates. Muita gente acredita (como eu) que o fato representa "um abuso estatal contra a ordem familiar" (cf. Julio Severo), uma ingerência.
Concentração de Poder Pelo Estado

De fato temos aqui um problema não somente social e ético, mas político. Nesse tipo de ação o que está em jogo é mais do que o direito da criança, mas uma questão de princípio: a distribuição do poder de usar a violência. O Estado moderno (e, especialmente, petista) pretende ter a soberania indivisível, e concentrar o "poder da espada" para fazer valer sua vontade, e isso implica, por princípio, a relativização de todas as formas de autoridade. O discurso da deputada reflete uma hipocrisia estrutural: o Estado mantém seu poder para agir violentamente contra os pais que desobedecem ao Estado, mas nega tal poder aos pais. Temos então na verdade uma extensão do poder de polícia para o interior da vida familiar. Não é que a questão da palmada não possa ser discutida; é que o Estado não pode impor uma solução de engenharia social goela abaixo da população.
A situação mostra ainda a falência moral do pensamento de esquerda, e a incoerência de um alinhamento dos cristãos com essa orientação política. Há uma forte tendência no pensamento de esquerda pela reegenharia social a partir de uma ideologia libertária que não faz justiça à realidade da experiência comunitária do homem, nem às diversas "normatividades" que o homem experimenta. Contraditoriamente, usa-se então a concentração de poder no Estado para garantir a "liberdade" numa definição extremamente individualista. Isso é uma forma invertida de fascismo.
Os Cristãos são Irrelevantes Porque não Influenciam a Academia

Finalmente, todo o processo mostra a falência cultural do cristianismo evangélico. O projeto, apresentado pela deputada, foi desenvolvido pelo LACRI - Laboratório de Estudos da Criança, ligado à Universidade de São Paulo, por um grupo de assistentes sociais, psicólogas e advogados altamente treinados, e passou por um processo longo de coleta de assinaturas (Palmadajaera), até estar em condições de ser apresentado. Aqueles que tem concepções não humanistas de família e moralidade não podem se organizar de forma significativa porque lhes falta visão e competência acadêmica. Nitidamente, o processo começa com uma cosmovisão, que passa pela academia e se torna uma teoria científica, e vira finalmente política pública. Enquanto os cristãos ficarem combatendo "nos lugares celestiais", no pior sentido do termo, e não se envolverem com a academia, o humanismo secular continuará vencendo todas as escaramuças.
O que Fazer Agora?

O que vamos fazer agora? Praticar a desobediência civil? Nos adaptar? Tentar mudar alguma coisa? Leis aprovadas em caráter conclusivo só podem perder este caráter e voltar ao plenário para votação se uma das comissões rejeitar o projeto (o que não vai acontecer) ou se 51 deputados (10%) apresentarem recurso contra o processo.
Seja como for, está claro que o mal só pode ser cortado pela raiz. E a raiz está na universidade. Se os cristãos não penetrarem na academia trazendo uma alternativa não humanista, será difícil qualquer mudança significativa.
SAIBA MAIS:

Lacri
Palmada Já Era
Congresso em Foco
Julio Severo
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