terça-feira, 19 de setembro de 2006

Filosofia Neocalvinista em Português: Uma Bibliografia Comentada


Outro dia destes (na verdade, há algum tempo...) o Nagel me pediu uma pequena bibliografia com textos fundamentais de filosofia reformacional. Achei melhor disponibilizar uma lista no Blog, que ficasse acessível a todo mundo.
Um problema que enfrentamos, atualmente, é que toda a bibliografia de neocalvinismo em português consiste de trabalhos teológicos. Faltam estudos propriamente filosóficos. Estes se encontram em inglês, apenas. Para quem não lê inglês, ou não tem acesso aos livros, será preciso se contentar com o que temos. Mas não é que os livros disponíveis não seja bons; o problema é que alguns indivíduos negam a existência de uma filosofia calvinística pelo simples fato de só conhecerem a teologia calvinista...
Eu sugeriria, antes de tudo, como ponto de partida, a obra Calvinismo, de Abraham Kuyper, pela editora Cultura Cristã (Lectures on Calvinism). É o livro seminal do movimento.
Um outro livro fundamental, agora esgotado, é A Religião e o Desenvolvimento da Ciência Moderna, de R. Hooykas (ed. Universidade de Brasília). Professor de História da Ciência na Universidade de Utrecht, mostra como a ciência moderna nasceu a partir da Reforma Calvinista.
Depois, em português, a trilogia de Francis Schaeffer: O Deus que Intervém, O Deus que se Revela, e A Morte da Razão. No primeiro temos um exemplo excelente da apologética pressuposicional de Schaeffer. No segundo, uma apresentação de seus pressupostos filosófico-teológicos, que são derivados, em grande medida, de seu antigo professor, o Dr. Cornelius Van Til. No terceiro, Schaeffer apresenta panoramicamente uma crítica da cultura e do pensamento ocidental, que complementa "O Deus que Intervém". Essa crítica é inspirada principalmente em Herman Dooyeweerd, via Hans Rookmaaker.
Mas, além da trilogia, recomendamos os outros livros de Schaeffer: Poluição e Morte do Homem, E Agora, Como Vamos Viver?, A Verdadeira Espiritualidade, etc.
Temos um livro interessante, que apresenta a apologética vantiliana, e critica um pouco Schaeffer: A Soberania Banida (R.K. McGregor Wright, Cultura Cristã). O livro mostra as raízes pagãs do projeto de um pensamento autônomo, bem como as conexões do arminianismo com tal projeto. Em minha opinião, no entanto, a abordagem Schaefferiana à apologética é superior (e a de Dooyeweerd, na filosofia, é muito superior).
Temos também os livros da Nancy Pearcey: E Agora, como Viveremos?, escrito comCharles Colson, é uma ótima introdução à cosmovisão cristã - exceto por sua birra com a doutrina da predestinação. Trata-se de um livro mais popular, entretanto. Seu livro A Alma da Ciência (Cultura Cristã) apresenta um nível mais alto, mas não discute muito a própria filosofia reformada.
De maior interesse é seu best-seller, Total Truth - muito mal traduzido em português, tanto no título como no conteúdo, pela CPAD - A Verdade Absoluta. O livro foi lançado no Congresso de Ética e Cidadania, da Mackenzie (2006), quando a Nancy esteve presente ministrando sobre religião e ciência. Foi quando obtive a minha cópia autografada... Novamente, não desenvolve um sistema de filosofia reformacional; em contrapartida, apresenta com cuidado e genialidade um dos aspectos centrais da cosmovisão reformada - a tríade Criação, Queda e Redenção - utilizando-a como ponto de partida para a crítica cultural e a proposta de ação cristã no mundo. A Nancy reconhece no prefácio do livro sua dívida para com a filosofia de Herman Dooyeweerd.
Não poderíamos nos esquecer da obra Paixão pelo Paradoxo, de Ricardo Quadros Gouveia, que trata, na verdade, do pensamento de Kierkegaard, mas o faz construindo pontes interessantes com a tradição neocalvinista.
Sem falsa modéstia, recomendo o livro que editei juntamente com o Maurício Cunha e o Claudio Leite, pela Ultimato: Cosmovisão Cristã e Transformação: Espiritualidade, Razão e Ordem Social. Neste livro tomamos a filosofia social kuyperiana-Dooyeweerdiana como ponto de partida para uma reconfiguração do projeto de missão integral no Brasil. Além de ser uma obra feita totalmente por brasileiros - a primeira e ainda única na tradição neocalvinista - nela se encontra um capítulo dedicado à introdução à filosofia de Herman Dooyeweerd. Mas saber mais sobre este livro, e outras publicações minhas, clique AQUI.

À medida em que novas obras sobre o tema aparecerem, vamos atualizar este post!

Um abraço,

Guilherme

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

Igreja Local e Missão Integral: um olhar neocalvinista e um pouco subversivo


Há poucos anos atrás eu participei de um debate em minha igreja a respeito de sua verdadeira função. Era um debate político, mas acabou se tornando teológico. A questão era se a igreja deveria ou não manter uma fundação assistencial que estava trazendo prejuízos (não só financeiros). Então alguém disse, “Olha aí, isso desviou a igreja de sua missão, que é evangelizar”, e o argumento “pegou”; eu mesmo, na época jovem seminarista temeroso do liberalismo e da teologia da libertação, apoiei o desligamento da fundação.

Bem, ainda sou jovem (ou era, quando escrevi este artigo; ou talvez ainda seja...), não tenho mais medo do liberalismo (embora seja um evangelicista), e continuo pensando que foi correto o desligamento da fundação, mas os fatos teológicos e sociais me forçaram a admitir que minha concepção da igreja e de sua missão estava completamente errada. Sob o efeito entorpecente de uma forte mistura de escatologia alienante, antropologia gnóstica, missiologia umbigal e doutrinação ideológica, eu embarquei na viagem fundamentalista da irresponsabilidade – em nome da fidelidade à missão da igreja!

A "Viagem" da Irresponsabilidade

Apesar de tantos anos passados desde Lausanne e do CBE1, e da recente realização do CBE2, a consciência social do evangélico brasileiro médio é extremamente fraca, ou ausente. É óbvio, seria por demais simplista lançar a culpa deste estado de coisas sobre os ombros dos pastores; os crentes alienados são também produtos de uma sociedade alienada e alienante. Mas essa sociedade vem se mobilizando e, ao invés de esperar pelo paternal auxílio do estado, ou da filantropia empresarial, vem assumindo a responsabilidade por seu futuro. Organizações da sociedade civil se multiplicam realizando autonomamente as mudanças necessárias – ou pressionando por elas. Outro dia fiquei sabendo de uma criança de 10 anos que montou uma ong com outras crianças para promover a consciência ecológica. Pode?

E nós? Nós também! Nós nos mobilizamos com ardor, elegendo deputados que impedem leis desfavoráveis aos evangélicos, reivindicando direitos (e terrenos, concessões de rádio, etc), comprando ambulâncias baratinhas, e realizando inúmeros atos de misericórdia para com essa sociedade carente de saúde, tudo para cumprir melhor a nossa “missão”. E com a competência de CEO's do reino dos CÉUS (ou será do inferno dos CEOS?) absorvemos a energia, o dinheiro e o tempo dos crentes em nossos maravilhosos projetos eclesiásticos, juntando o máximo possível de gente na igreja. Afinal, o fim está próximo, e a música é boa...

A liderança evangélica se torna cúmplice da alienação na medida em que a mantém, conservando uma perspectiva teológica ultrapassada a respeito da missão da igreja. Missão não é só evangelismo; é também ação social. Na verdade, é ação social e muito mais; é a reforma do pensamento teórico, da ação política; é a redenção da arte e da literatura, da mídia, da família, e da tecnologia. O desenvolvimento de uma cultura cristã e a formação de cidadãos integrados, e integralmente cristãos – gente com consciência, com mente e mãos cristãs – é a nossa responsabilidade diante de Deus e do mundo.

Responsabilidade: eu gostaria de falar um pouco sobre isso. Ou, talvez, não. É muito desagradável descobrir-se responsável por força dos acontecimentos. Porque, em geral, isso significa que ocultamos de nós mesmos as nossas obrigações; mas elas nos perseguiram e agarraram-se em nossas calças, a ponto de não conseguirmos mais correr.

Acho que foi assim, comigo. A providência pôs-me diante dos fatos que minha teologia miudinha não conseguia dimensionar, e no fogo dos conflitos internos e eclesiásticos eu fui sendo reformado...

É claro que não basta falar em “responsabilidade” no sentido genérico; qual responsabilidade, ou que tipo de responsabilidade – essa é a questão. A qualidade de ação que pode renovar a missão da igreja, hoje, e conduzi-la de volta à essa palavra desagradável teria quatro características, segundo a minha percepção.

Integralidade

Em primeiro lugar, a nossa responsabilidade é Integral. Vem à mente o lema da FTL: “o evangelho todo, para o homem todo”. É aquilo a que nos referimos há pouco. Missão não é somente evangelização, mas a transformação de todos os níveis da vida humana, a partir do evangelho. Isso significa que o homem todo precisa de redenção, e que a missão precisa assumir esta abrangência. E a igreja local precisa compreender esta abrangência, olhando para seus membros e para os inconversos como seres completos, totais, e não como "almas" desencarnadas.

Alcance Planetário

Um outro termo, este, da moda: a nossa ação deve ter dimensão planetária. De novo, quero recorrer ao mote da missão integral: “o evangelho todo, para o homem todo, pelo mundo todo”. O cristão precisa pensar sempre no mundo todo. “Ide por todo mundo”, disse Jesus. Mas, além da vocação divina, outros fatos agora nos impelem com adicional força e urgência.

A consciência recente do homem quanto ao processo de destruição do planeta é o primeiro que eu apontaria. É claro que o dever para com o próximo sempre foi conhecido do cristianismo, mas o homem tem hoje uma consciência planetária, se entendendo como parte vital de um sistema biológico e sociológico global. Nós cristãos precisamos pensar nisso, tanto quanto nos preocupamos com o leite das crianças. Quanto a isso, no entanto, tenho ouvido as coisas mais absurdas. Do tipo: “Deus não permitirá que o mundo seja destruído antes de seus planos se cumprirem”. Ótimo. Então podemos emporcalhar bastante o mundo, pois Deus está no controle. É verdade, a Bíblia ensina que Deus é soberano. E também ensina: “não tentarás ao Senhor teu Deus”.

Sinceramente, não temos mais tempo para perguntar “se a nova era está metida nisso”. A criação é de Deus, a humanidade é de Deus, e a redenção se refere ao planeta. E se a “nova era” interrompe a caminhada para estender a mão àquele que está caído na beira da estrada, qual será o julgamento sobre nós, levitas e sacerdotes puríssimos e salvos pela graça?

E, o que dizer do desafio do islã (tomo-o como exemplo paradigmático)? Sim, nós sabemos, o islã tornou-se uma fé intolerante que ameaça o futuro do mundo ocidental. E sabemos que ele é uma apostasia do cristianismo, uma falsa doutrina. E que os muçulmanos que não conhecerem a Jesus irão para o inferno. Excelente, e muitíssimo ortodoxo. Mas enquanto eles não vão para o inferno, precisamos conviver com os tais, aceitá-los, e cooperar com eles para um mundo melhor. Quem sabe, se um dia nos tornarmos cristãos, eles se convertem? E se o movimento do “pluralismo religioso” interrompe a caminhada para estender a mão ao muçulmano ferido de seu próprio ódio, qual será o julgamento sobre nós, que apenas esperamos para ver o “circo pegar fogo” – desde que seja, naturalmente, em outro país, ou numa geração futura?

Não quero ser ingênuo (mas querer não é poder); nem negar a antítese religiosa absoluta que há entre a religião bíblica e o Islã, que tomo, aqui, como paradigma, repito. Também não sou pacifista, e reconheço que a guerra é, às vezes, justa. Mas a Bíblia nos ordena que façamos todo o possível para estar em paz com todos os homens. Isso inclui não apenas os muçulmanos, mas pessoas de outras convicções. E não precisamos abrir mão da evangelização para fazer isso. Nem precisamos embarcar na teologia pluralista das religiões. Não, não precisamos fazer nada isso. Precisamos apenas ser crentes.

E uma igreja local precisa pensar também neste nível. Final, não são as nossas igrejas locais que enviam missionários brasileiros a outros países? Seria demais pensar, orar, e discutir a nossa relação com estes países? Se o Greenpeace pode fazer isso, por que não nós, a igreja una, santa, católica e apostólica?

Penso que nós, evangélicos, precisamos de uma missiologia planetária consistente. De um evangelho do tamanho do mundo – porque, afinal, Deus amou o mundo.

Radicalidade

Mas sem deixar de ir à raiz das coisas. É grande o perigo de ser muito “planetário” e pouco cristão. Mais ou menos como um pouco de manteiga que é espalhada em um pedaço de pão grande demais, como diria o Bilbo bolseiro. Isso é extremamente comum, e é sempre o resultado de enfatizar demais o diálogo esquecendo-se da antítese.

Precisamos ir à raiz das coisas, e isso significa ir à raiz da apostasia humana. E, na raiz, encontramos as fontes da idolatria. Se levarmos a sério a ordem canônica da Bíblia, veremos que o final da missão de Deus é o culto, um grande culto. O livro de Apocalipse mostra, no fim, a adoração dos redimidos.

Mas uma missão que não enfrenta a idolatria não pode levar o homem à adoração; uma missão que não se choca com Babel não verá a Nova Jerusalém. Não se pode apontar o Deus verdadeiro, a "glória e majestade", a sua "força e formosura", sem mostrar ao mesmo tempo que “os deuses dos povos são nada, mas o Senhor fez os céus”, como nos ensinou o rei-pastor de Israel.

Uma missão responsável, hoje, precisa dar um passo além da denúncia da mariolatria católica, e desmascarar a consumolatria evangélica; e precisa confrontar as estruturas de escravidão montadas e justificadas pela idolatria humanista do sistema de mercado. Sem esquecer, naturalmente, da idolatria utópica do socialismo, entre cujos méritos, frente ao moderno sistema econômico, figura a sua impraticabilidade – "graças a Deus"!

Tenhamos em mente, no entanto, que a mera denúncia sociológica não é atingir a raiz; somente quando a idolatria e a concupiscência são reveladas como tais, como atos de revolta contra Deus, é que atingimos, de fato, as raízes da apostasia humana.

A missão e o princípio das Esferas de Soberania

Este último ponto nos leva de volta à experiência relatada no princípio do texto, que descobri ser extremamente comum: os conflitos entre pastores e igrejas locais, por um lado (embora, nem sempre, juntos do mesmo lado...), e os projetos sociais, por outro. Maurício Cunha, moderador da Rede Brasileira de Cosmovisão Cristã e Transformação Integral, relatou-me que os choques e tensões resultantes da confusão entre as tarefas da igreja local e dos variados projetos de transformação promovidos por cristãos evangélicos são quase um lugar-comum. Eu mesmo encontrei dificuldades assim em mais de uma ocasião.

O princípio das “esferas de soberania”, proposto por Abraham Kuyper, ou “esferas de responsabilidade,” como sugere David Koizys, ajudaria muito aqui. Trata-se da noção de que a soberania de Deus sobre cada aspecto da vida é imediata, independente de qualquer mediação. Isso significa que Deus é soberano sobre a política, sobre a arte, sobre a natureza, sobre a ciência, sobre a família, e sobre a igreja, e que a sua soberania se expressa através das leis e finalidades que Deus estabeleceu sobre cada uma dessas áreas.

Isso significa, por exemplo, que a arte não precisa estar a serviço da igreja, ou de temas sacros, para ser válida. A arte válida é a que obedece às normas divinas para a esfera da arte. E o mesmo vale para o Estado, ou para a Igreja. A soberania de Deus sobre cada esfera garante a soberania interna dessa esfera da vida humana e, por conseguinte, a sua legitimidade.

Uma eclesiologia reformada precisa, portanto, reconhecer a finalidade e soberania própria, por exemplo, de um projeto social, mesmo que ele seja mantido pela igreja, e não utilizá-lo como estratégia para obter resultados que são próprios da esfera da igreja – isto é, a evangelização. Não se mede a eficiência de um projeto assistencial pelo número de conversões, embora isso seja muito importante. A universidade cristã, o projeto assistencial, e o movimento político evangélico precisam expressar a graça de Deus dentro de suas esferas de soberania; isso significa desenvolver o pensamento cristão, o serviço social cristão e uma política cristã, e tais desenvolvimentos terão implicações evangelísticas. Mas estas serão estritamente secundárias.

A igreja emergiria, então, como um centro de ações pastorais, que cumpre a sua função primária, da evangelização, e discipula os convertidos para o mundo, fornecendo treinamento e agentes de mobilização para articular projetos de transformação integral em todos os níveis da vida humana. Em tal eclesiologia, admitimos que a igreja local não é capaz de realizar a missão integral; só um sistema de instituições, comunidades e organizações tão amplo quanto a cultura pode atingir a totalidade da cultura - a igreja, organicamente ativa em todas as esferas.
Mas a igreja local permanece como a fonte vital para a constituição de um sistema de cultura e vida social baseado nos princípios cristãos, que se estenda organicamente por todos os níveis da sociedade.

Caminhos de Reforma

O mais urgente é um projeto social consistente e prático. Que começaria com a conscientização dos pastores e líderes. Talvez uma importante estratégia seja a educação teológica; uma nova geração de pastores conscientes e abertos à realidade.

Há, também, a tremenda necessidade de uma educação cristã capaz de localizar teologicamente o cidadão na sociedade, ou seja: “o que meu trabalho, minha participação política e minha articulação com outros para agir socialmente tem a ver com o Reino de Deus, e com a minha interioridade espiritual”? Acho que isso é um grande problema na cabeça dos crentes: o que a minha vida “secular” tem a ver com a minha vida “religiosa”? Precisamos pôr um fim a esta “esquizofrenia sociológica”.

Além disso, as igrejas precisam de consultoria: pessoas capazes de avaliar as igrejas e elaborar projetos de conscientização e ação social, contextualizados e eficientes. Missões, juntas denominacionais e ministérios específicos poderiam agir nesse sentido, orientando as comunidades em termos de passos concretos.

Honestamente, no entanto, eu não vejo grandes possibilidades para uma transformação pelas vias oficiais. Parece-me que uma missão interna, destinada a reconfigurar a identidade evangélica, seguirá a via da subversão. O caudilhismo pastoral é muito bem estabelecido, e cioso da necessidade de vigiar seus currais. Boa parte dos pastores faz questão de manter seus membros ocupadíssimos com as atividades da igreja, procurando crescimento numérico.

A popularidade dos sistemas de células, por sinal, diz muito a respeito. Pessoalmente, considero a abordagem válida e interessante. Mas é nítido que a tendência do sistema é absorver todo o tempo e energia disponível dos membros na vida interna da igreja. E este é o interesse explícito de muitos pastores.

Bem, não vejo como tal coisa possa ser anunciada como a "nova reforma" do cristianismo. Com todo respeito à tradição anabatista (não é o mesmo que batista), isso de transformar a igreja em uma comunidade isolada, um conventículo (em nosso caso, num retiro permanente de comunhão e lanches) é para mim, o fim da picada. Uma nova reforma abrirá as portas da igreja, e também as portas do inferno; romperá as gaiolas eclesiásticas e plantará agentes de reforma em todas as esferas e níveis da sociedade. Diante disso, o movimento de células, como um todo, é uma reforma pífia; o ensimesmamento final do cristianismo evangélico brasileiro.

Mas os pastores gostam, e a igreja também gosta. Daí, a necessidade, talvez, de uma via subversiva; mais ou menos como Calvino fez, escrevendo aquelas coisas terríveis que eram contrabandeadas para a França, para alimentar o movimento huguenote. Preciamos contrabandear idéias, já que não podemos entrar "legalmente" nestes currais...

Restaria, pois, a nós, tirar proveito das grandes vias de informação e reflexão crítica – a Internet, ministérios para-eclesiásticos, a música, a mídia e as editoras cristãs progressistas – para promover o neocalvinismo como projeto civilizatório e social, para o Brasil; como projeto trans-eclesiástico, trans-denominacional e, na verdade, global.

Mas algo pode ser feito dentro das igrejas? Sem dúvida. Muitos pastores estão abertos à reforma. Além do ensino claro de uma filosofia social cristã, a comunidade poderia elaborar de modo consciente e participativo uma declaração de valores éticos e sociais que serviriam de “forma” para o planejamento de suas ações. Isso exigiria certo sacrifício: seria preciso gastar tempo mobilizando, conscientizando e “liberando” os membros da igreja para se envolverem, numa perspectiva missionária, em ações de cunho social, tomando a frente na luta por melhorias sociais em suas subcomunidades, fazendo projetos e pressionando o governo, em associação com crentes de outras igrejas.

Mas sem jamais perder de vista a perspectiva neocalvinista a respeito da igreja: os crentes, membros da comunidade, educados e mobilizados, se reúnem e atuam; mas a própria igreja, como instituição localizada, não pode ser convertida, pura e simplesmente, numa fundação de objetivos pragmáticos e sem qualquer elemento transcendente pois, em sua essência, é a comunidade carismática dos santos, reunidos para a celebração e promoção da fé comum. Muita gente pensa, hoje, que missão integral é assistencialismo eclesiástico, mas as maiores mudanças que o evangelicismo conseguiu na era moderna foram fruto de ações de crentes conscientes, não ações políticas ou sociais da instituição eclesiástica.

Voltamos, pois, ao princípio do texto: qual será a relação adequada entre a igreja local e a fundação assistencial? Uma relação de parceria missionária. E quanto à igreja, o caminho está claro: ela não tem que virar universidade, laboratório de física, centro de estudos econômicos, sindicato, comitê político, curral eleitoral, fundação assistencial, hospital, ou qualquer uma dessas coisas. Mas ela precisa gerar e patrocinar todos esses projetos. Precisa formar e mobilizar um cristianismo que realize essas tarefas sob o impulso interno de sua própria natureza intrínseca; um cristianismo que se descobriu como um sistema total de vida e pensamento.

4 Comments:

Anonymous Juan de Paula said...

Pastor Guilherme,

muito importante sua reflexão!

Creio que as dificuldades se encontram em dois eixos.

1 - A mentalidade do evangelicalismo no Brasil é de um modo geral católica. Em que sentido? Somos evangélicos apenas no credo, mas mantemos a dicotomia entre o sagrado e o profano. A religião bíblica, evangélica e protestante trabalha com a idéia de que tudo se torna sagrado a partir da redenção em Cristo. Nessa dicotomia, o espaço da igreja é sagrado, o seminário teológico é sagrado, o ministério pastoral, o culto, as atividades eclesiásticas, tudo é sagrado e o que está fora da cultura gospel se torna profano, mundano e mal. Weber toca muito bem no ponto quando coloca o cristão protestante como predestinado a servir a Deus no mundão (ainda que particularmente tenha algumas ressalvas ao texto.)

2 - Você colocou muito bem, que as igrejas as vezes trás muita gente para dentro sugando suas energias, sem incentiva-las a glorificar a Deus na criação. Lógico que o cristão tem que ter compromisso comunitário, mas não deve se realizar na igreja (a não ser que tenha sido chamado para isso). Gosto de Bonhoeffer quando escreve que somos chamados a ser discipulos no mundo.


Então é nitido ver uma influência do entendimento romano de sacro e profano nos arraiais evangélicos.

As confissões de fé calvinistas (CFW, Belga e Confissão Londrina de 1689) defendem que as boas obras são recomendadas pelo evangelho (o pacto de Laussanne trabalha com a idéia de que a pregação e a ação social andam juntas no evangelho).

Lutero foi crítico político de sua época e instituiu escolas ao lado das igrejas. Calvino, mais aberto que Lutero (esse mais paradoxal na relação espiritual e material) em relação ao crente e a sociedade, fundou a acadêmica de Genebra e abriu para os pobres refugiados franceses em Genebra. Fundou também um hospital na cidade. Calvino tinha uma forte visão de diaconia, ajudar os orfãos e as viúvas.

Os puritanos eram fortemente a favor da ação social na grei. Eram pedras no sapato dos tiranos de seu tempo e brigaram para uma sociedade mais justa. Vemos isso na vida de Wilberforce, Wesley e outros.

Eu estudo em um seminário bem plural, embora se diga confessional e seja o principal de minha denominação. Lá encontro articuladores da Tdl que me acusam de ser um fundamentalista sem preocupação social. Como resposta escrevi uma postagem na confraria calvinista: http://calvinistas.blogspot.com/2006/07/um-calvinista-na-favela-quem-foi-que.html
comentando experiências pastorais em uma favela na zona sul do RJ aonde sirvo como membro da equipe pastoral e em tempo integral. O lema de nossa igreja é: "um local para uma missão integral" cujo braço forte é o trabalho social, porém eu atuo mais na catequese e os pastores na pregação expositiva. Catequizo crianças de favela entre 07 a 12, 13 anos. Eles dizem que seus pais estão presos, no tráfico, mortos. Suas mães estão com câncer, aids e outros...... Os seculartistas da Tdl nada tem a dizer pois não acreditam na transcedencia de Deus, eu tenho pois acredito na redenção integral bíblica-reformada que trabalha com o ser humano como gente mas como ser espiritual também.

Creio que a Bíblia é equilíbrada quanto a essas questões, ela trabalha com o homem integral. Nem só alma, nem só carne. Nem os gnósticos evangélicos estão corretos, nem os liberais. São dois extremos.

Sua postagem é muito relevante para o momento em que vivemos. Porém cabe dizer que estamos em estado de queda e que somos peregrinos nessa terra. Um dia vamos morrer e encontrar Jesus na glória, porém devemos cuidar da criação que o Senhor vai restaurar naquele grande dia.

Deus te abençoe pastor e desculpa o comentário grande!
Juan
P.S: Indico bibliográfica sobre o tema:

MATOS, Alderi de Sousa. Amando a Deus e ao próximo: João Calvino e o diaconato em Genebra. Fides Reformata

LOPES, Augustus Nicodemus. Calvino e a responsabilidade social da igreja. Ed. Pés

BIÉLER, André. O pensamento social e econômico de Calvino. Cultura Cristã.

___________ A força oculta dos protestantes. Cultura Cristã

RIKEN, Leland. Santos no mundo: os puritanos como realmente eram. Ed. Fiel
(capítulo sobre a ação social dos puritanos).

SHEDD, R. A Justiça Social e a Interpretação da Bíblia. Edições Vida Nova.

11:49 AM
Blogger André Tavares said...

Guilherme,

libera esse texto pro site da Rede! Abraço,


André.

5:02 PM
Blogger André Tavares said...

Guilerme,

libera esse texto pro site da rede... seus textos bem que podem compor uma coluna pomputa lá... aliás, tem sido pática de articulista publicarem os textos em sites e em seus blogs. Acho que ia ser legal, que acha?

André.

5:04 PM
Blogger Charles L. Grimm said...

Irmão Guilherme,

Um texto muito bom. Excelentes reflexões. Espero que o seu artigo contribua à causa do neocalvinismo e, obviamente, à glória de Deus. Parabéns!

7:21 PM

domingo, 9 de julho de 2006

Convocação à batalha pelo Corpo de Moisés

Guilherme V. R. de Carvalho

Para meus Pais

“o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés”
Judas 9

Porque Satanás desejaria o corpo de Moisés?

Porque tomar aquele corpo envelhecido, cheio de memórias horrendas, de encontros maravilhosos com Deus? Porquê sujeitar-se a ser confundido com ele, repetir seus trejeitos e cheiros, imitar a sua voz? Pior; e se ele era mesmo gago? O que poderia fazer um diabo gago?

Pergunta óbvia. A mera pergunta induz a resposta: toma-se o corpo para se parecer. Há muitas formas de se parecer com alguém, mas qual seria melhor que tomar o seu corpo?

Desceu, pois, o arcanjo Miguel, para contender com o diabo e disputar o corpo do profeta. Também Deus queria aquele corpo, que era seu. Deus não queria só o espírito, mas também o corpo. É claro, Deus não queria apenas impedir que o diabo enganasse a outros por meio daquele corpo – engano possível apenas se não conhecêssemos nada além de Judas nove. Deus queria o que era seu. Mas também, o que era de Moisés; só o diabo quererá negar a identidade de Moisés com o seu corpo, e o ponto é inimaginavelmente importante, a ponto de conferir proporções cósmicas à batalha por ele.

Corpo é expressão temporal e material do ser; superfície na qual o interno se torna visível, o profundo na superfície, o símbolo de mim, que participa do que sou eu. Isso é o que o corpo deveria seria ser; para isso Deus criou o corpo. Mas a queda destruiu a sua finalidade, e colocou o eu contra o eu, o eu interno contra o eu externo. A leitura mais superficial de Romanos sete nos fará lembrar rapidamente a miséria de se achar fraturado, de querer e não querer ao mesmo tempo, de buscar a própria redenção por meio da auto-destruição.

O pecado separa barro e espírito, mata o sentido, afasta corpo de ser. Situação deveras miserável; eu separado de mim e, como se não bastasse, figuras infernais desejam alienar-me ainda mais de mim mesmo, tornar-me em dois e, então, em outro, para usar-me contra mim. O que será que Moisés pensou quando viu, de sua nuvem, o diabo lutando para apossar-se da sua superfície, para conectá-la com uma outra profundidade?

A luta entre Miguel e o diabo pelo corpo de Moisés lembra-me a luta pelo sentido, no campo da interpretação, e da própria teoria hermenêutica; ou melhor, a luta pela forma do sentido; ou a luta pela superfície do sentido que, não deveria mas, miseravelmente, é separada de seu coração, de sua fonte semântica profunda.

Ora, um calvinista, tipicamente, não se entregaria a este tipo de alegoria fantasiosa, inventando sentidos com as imagens bíblicas. Eu, especialmente, que por tantos anos defendi uma interpretação literal (embora não literalista) das Escrituras – que ironia. Mas antes que os amigos torçam seus narizes contra mim, quero desculpar-me de tão insólito uso do corpo de Judas, que não quero roubar, de forma alguma. Meu exercício de imaginação não terá a pretensão de significar o que Judas quis dizer, naturalmente. É claro que não estou fazendo exegese. Ao menos, não exegese bíblica.

Talvez, sim, exegese de um comportamento realmente diabólico, esse, de tentar roubar o corpo dos outros, ora. Isso, de fazer roubo semântico, é outra coisa. Ladrões de corpos, violadores de túmulos! Saqueadores criminosos esses hermeneutas que querem usar a superfície dos outros para ganhar o amor dos homens.

Diabolicamente enfiando-se nos braços, nos olhos e na língua que um dia foi de Moisés, e do Espírito de Deus – de ambos – para dizer algo que não é mais a mentira absoluta, que seria nada (em verdade, que não é), nem a verdade, que disse Moisés, mas para dizer uma síntese perniciosa que tem, corpo de verdade, mas espírito de mentira. É a verdade vazia que tem o cheiro, as rugas, o pêlo e o timbre da verdade, mas que é realmente outra coisa. E é difícil mostrar a mentira; afinal, se parece tanto com a verdade!

Um teólogo "diabólico" fará qualquer coisa para ser amado como Moisés, ou como Jesus, ou como Paulo, ou como os doutores da igreja. Sei o que digo, já o vi antes. Ele se sujeitará a usar aquelas palavras ignóbeis da tradição cristã, e consumirá tempo precioso se esforçando para obter um ponto de contato com o evangelho; aceitará em si as rugas e o fedor de alguns dogmas, e finalmente acreditará ser a própria re-encarnação de Moisés, o novo Moisés, com a mesma cara de antes – “mas com um melhor coração, enfim!” E tudo isso para esmolar a atenção complacente deste mundo podre. Pobres diabos-gagos. Seu último estado tornou-se pior que o primeiro.

“Misticismo semântico”: expressão Schaefferiana, para designar a ilusão de que o mero uso da linguagem cristã tornará o nosso discurso cristão, mesmo que sua carga semântica seja fruto de nossa própria imaginação filosófica. Como se as palavras dessem a luz ao sentido, e não o sentido às palavras; como se as meras palavras pudessem criar espírito e realidade, tal qual um “pó de pirlimpimpim” teológico.

"Misticismo Semântico": expressão especialmente desprezada e, até mesmo, odiada, capaz de fazer queimar o ventre de alguns teólogos. Desprezada, como não? Que pode um Schaeffer contra um Schleiermacher, ou um Tillich, ou um Bultmann, ou um Ricoeur, ou um Queiruga, ou um Rubem Alves, ou uma dessas Emílias que infestam os seminários teológicos? Que audácia! Sem dúvida, admito, precisamos submeter essa expressão a um tratamento mais sofisticado. Pobre Schaeffer; era um evangelista, não um filósofo, e muito menos um especialista em filosofia da linguagem religiosa.

Mas vou eu em sua defesa: ele conhecia o diabo o suficiente para enxergar o vazio sem fundo dentro dos olhos de algumas carcaças teológicas contemporâneas. Olhos tão parecidos com a velha tradição, tão brilhosamente evangélicos, tão impressionantemente consistentes mas... tão ocos de significado evangélico. Ou melhor, olhos tão cheios de outros significados, brilhando com luzes infernais, de sentidos infernais, quentes e vermelhos de revolta contra Deus.

Quem tem olhos para ver, veja. Isso não é coisa de somenos. Há crentes que apontam o poder do leão, e respondem tranqüilos: “o evangelho não precisa de defesa; só precisamos mantê-lo livre.” Pura inocência. Ainda mais com essa estratégia perversa de roubar o corpo dos outros. Como saber se aquele leão também é oco? Ou se está cheio com o pai da mentira?

Por isso Miguel descerá do céu, de novo, e de novo, e de novo, e contenderá pelos corpos de Deus, mesmo que sejam corpos mortos. E o diabo contenderá também; e os simples ficarão horrorizados: “porque tanta disputa em torno de um corpo? Porque tantas lágrimas e violências para guardar essas formas mortas, se o que importa é o espírito?”

Sim, o que, afinal, se pode fazer com esses ossos secos e empoeirados? Porquê submeter-se a horas, dias, e anos, de análise conceitual e reflexão, para demonstrar que a carga semântica de um certo discurso teológico é, finalmente, uma corrupção enganosa da verdade, do sentido que o evangelho nos trouxe? Porquê defender com unhas, dentes e mentes, o teísmo clássico, ou as duas naturezas de Cristo, ou sua unidade pessoal, ou a universalidade do pecado, ou a ressurreição literal dos mortos, ou a expiação vicária, e todas essas velharias dogmáticas?

Deus sabe o porquê. Deus e seus anjos o sabem, sim, mas principalmente, o diabo.

Convoca pois, o Senhor, anjos, para descerem de suas nuvens de apatia e desembarcar ali, onde um velho corpo é possuído, e dar luta ao pai da mentira. Quando aprouver a Deus, este velho corpo será ressurreto, e seus olhos estarão cheios do Espírito Santo. E seu rosto brilhará, com ainda maior brilho, e não haverá véu que oculte sua luz.

Até lá, - que saudade! – se temos apenas estes corpos inertes de tradição religiosa lançados aí, num canto, que seja. Os anjos chamados, fiéis em busca de compreender, estarão de guarda, esperando pacientemente pela ressurreição. E nossas espadas analíticas estarão prontas contra o diabólico misticismo semântico.

15 Comments:

Blogger Solano Portela said...

Caro Guilherme:

Brilhante ensaio, aproveitando o gancho da proposição bíblica. Realemente, ela não nos diz muito, em detalhes o que foi essa batalha e qual o seu sentido último. No entanto a batalha de Satanás, pelos corpos, como receptáculos através dos quais a mente se projeta e se comunica, na existência presente, é constante e dependemos totalmente da proteção de Deus. Essa proteção é tanto para nós quanto contra aqueles que já entregaram tanto a sua mente como corpos a Satanás, especialmente os travestidos de teólogos da modernidade, com o seu destrutivo misticismo semântico.

Um abraço e parabéns,

Solano

3:34 PM
Blogger Augustus Nicodemus said...

Caro Guilherme,

Gostei muito do seu texto. Criativo, inteligente e teologicamente perspicaz. O que você escreveu reflete a realidade. Somente através do corpo de Moisés é que o diabo tem chance de tentar enganar o povo de Deus. Nossa segurança é que Deus não permitirá que os eleitos sejam enganados.

Um grande abraço,

Augustus

5:41 PM
Blogger Charles L. Grimm said...

Muito bom este texto!

Realmente, o que tem de 'Emílias' por aí... nem no sítio do pica pau amarelo! :-)

2:54 AM
Blogger Norma said...

LINDO, Guilherme! Há tempos não leio um texto que trate propriamente de teologia com tanta criatividade formal-estilística-interpretativa. Adorei de cabo a rabo. Só não gostei de uma coisinha: a Emília de Lobato não merece ser associada a essas crápulas mortos-vivos... :-)

Vou recomendar a todos! Abração!

5:59 PM
Blogger Nagel said...

Parece que o diabo encontrou o poder da síntese. Por que negar a verdade se ele pode misturá-la sutilmente coma a mentira, a ponto de confundir os mais desatentos?

"Deus", "graça", "liberdade", todas palavras roubadas e preenchidas pelas mais variadas fantasias.

Abraços.

10:16 PM
Blogger Oswaldo Viana Jr said...

Eis a passagem: (Epístola de S. Judas, Cap. único, v. 9): "...o arcanjo Miguel, quando disputava com o diabo, discutindo a respeito do corpo de Moisés, não se atreveu a pronunciar uma sentença injuriosa contra ele, mas limitou-se a dizer: O Senhor te repreenda!"

O mais poderoso anjo preferiu deixar para Deus o julgamento do diabo, não?

11:18 PM
Blogger Caio Kaiel said...

Este texto foi indicação da amiga Norma Braga, mas sua sabedoria foi indicação de Deus. Obrigado.
Quanto ao texto, tomarei cuidado com os corpos alheios.

Deus te Abençoe Irmão.
Abraço.

10:44 AM
Anonymous Anônimo said...

nesse últimos dias, temos observado muitas "baboceiras" teológicas que mais causam dissensão do que edificação em Deus. Sou cristão a mais de 5 anos e pela graça de Deus recebi a tarefa de ministrar aulas na escola dominical e enfatizo muito os fundamentos sagrado da bíblia com meus aluno e não percam tempo com aquilo que não fundamentará a vida deles. Oremos para que Deus levante homens e mulheres comprimossados com a ortodoxia Bíblica a fim de sermos cooperadores de Senhor.

10:00 AM
Blogger Lou said...

Sua premissa teológica é o da salvação para alguns (os tais escolhidos). Com essa base, você desenvolveu um lindo texto. Interessante e cativante. Caso o Salvador tenha intenções maiores que as tuas (salvar toda a corja de pecadores, os maus pregadores e escritores entre eles, por exemplo) você poderá conviver com eles na vida eterna. Ore para que sua teologia seja a melhor, caso contrário, você correrá o risco de ter que servir a mesa onde esses hereges e ladrões do corpo de Moisés sentar-se-ão.

12:39 PM
Blogger Rev. Jonathan said...

Maravilhoso texto!
Parabéns!
Nao sei o que mais dizer agora...
Deus te abencoe Guilherme!

12:00 AM
Blogger Mauro Meister said...

Guilherme,

Bem atrasado, vi seu post. É isto mesmo... temos que lutar pela fé contra o misticismo semântico que invade nossas escolas teológicas e sites que ainda insistem em se chamar de evangélicos.

Vc deve lembrar que é que dizia ser 'a metamorfose ambulante'... antigo professor seu! Ele também dizia que era necessário 'defender-se dos defensores de Deus'.

abs
Mauro

8:50 PM
Blogger Allan Ribeiro said...

Hmmmmmm... um pensamento que faria muito sentido se em outros locais da Bíblia se relatasse a tentativa do rapto por Satanás de outros corpos (por que não o de Abraão, ou de Adão?).

Creio de outra forma:
Elias não morreu. Moisés morreu, mas o seu corpo foi disputado por um anjo. Os dois aparecem juntos a Jesus, Pedro, Tiago e João no monte. Depois, no início do livro de Atos, aparecem dois varões (não anjos, mas homens) e dizem aos seguidores de Jesus que Ele havia subido ao Céu para retornar da mesma maneira. No fim, em Apocalipse, duas testemunhas: elas poderão fazer fogo sair de suas bocas e impedir a chuva na terra por três anos e meio (quem fez isso em vida?!). Também serão capazes de converter água em sangue e ferir a terra com pragas (novamente, quem fez isso em vida?).

Tire suas próprias conclusões, como eu tirei as minhas. A Bíblia é um livro com uma estrutura fantasticamente interconectada e nada está ali por acaso. Estes pensamentos não são originalmente meus, mas eu os analisei muito e creio que são assim.

Mantenho um blog sobre apologética e filosofia. Gostaria muito se o irmão pudesse visitar e divulgar. O endereço é equipandoossantos.blogspot.com .

Abraços fraternos,

Allan Ribeiro

6:53 PM
Blogger Guilherme Carvalho said...

Caros amigos,

agradeço os comentários positivos - especialmente os da Norma - é que seus olhos são agudos, como se sabe!

Gostaria apenas de esclarecer ao Lou que meu texto não tem a intenção de dizer algo sobre o destino eterno de fulano ou beltrano, nem de falar de predestinação (embora eu seja mesmo um calvinista). Estou falando de idéias, e de seu significado religioso. Falando polemicamente, mas é isso.

Quanto ao Allan: é uma pena que vc não tenha captado a força do texto. Eu quis produzir uma impressão estética para reforçar uma crítica metodológica da teologia contemporânea. Me desculpe, mas o destino do corpo de Moisés não interessava, enfim, para a minha discussão...

abraços,

Guilherme

8:27 AM
Anonymous ailton said...

na minha opinião, satanas queria induzir o povo de deus a adorar o corpo de (moshe) moises, para desviar toda atenção de deus. sabemos que o intuito do diabo é fazer que o foco da adoração seja para ele.sabemos tb que o seu dia está chegando e o lago de fogo ardente está preparado para ele.que o nome do senhor de israel seja louvado em toda terra.amem

2:26 PM
Anonymous ailton said...

parabens pelo seo blog, e que deus lhe abençõe em nome de jesus.

2:28 PM

sexta-feira, 7 de julho de 2006

Sobre a Natureza da Fé

Os últimos meses me trouxeram algumas oportunidades muito interessantes de discutir o conceito de "Fé", a partir da filosofia reformacional. No início do ano eu apresentei uma discussão metodológica para o meu professor de Sociologia das Organizações Religiosas, o Dr. Leonildo Silveira Campos, em torno da possibilidade de se usar a fé como princípio explanatório associado à dinâmica social. Usei, na oportunidade, um pouco de Dooyeweerd, Peter Berger e uma obra interessantíssima do filósofo judeu Nathan Rotenstreich: "On Faith" (Chigaco University Press). Uma espécie de fenomenologia da fé.

No 12 Encontro da Sociedade Paul Tillich, em Maio, eu apresentei uma discussão crítica sobre o conceito de Fé de Tillich, que foi publicada agora, na CORRELATIO 9 (a revista da sociedade Paul Tillich), com o título "Sobre a Definição de Fé em Paul Tillich". Publiquei também uma resenha do livro de Rotenstreich, intitulada "As Estruturas Universais do Ato de Fé" (depois fiquei pensando: que título pretensioso, hehehe! Mas, na verdade, é isso mesmo o que Rotenstreich tenta fazer...).

Nesta primeira semana de Julho eu apresentei dois trabalhos no congresso da ALER, em São Paulo: "A Relevância do Teísmo Cristão para a Ciência no Pensamento de Roy Clouser", e "O Conceito de Crença Religiosa em Roy Clouser: Algumas Implicações para o Estudo da Religião". Nesta última eu fiz uma ponte entre Clouser e o trabalho sobre sociologia das organizações, que citei há pouco.

Numa conversa posterior o Dr. Steven Engler, coordenador da mesa, percebeu a conexão da proposta com Tillich - na verdade, Clouser foi aluno de Tillich! Uma curiosa proximidade com o pensamento neocalvinista... Opinou que introduzir o tema da fé e criticar o reducionismo na ciência seria "teologia disfarçada"! Eu retruquei que, pelo contrário, não era disfarçada, mas explícita, e que o problema era o disfarce dos pressupostos religiosos do "estudo científico da religião", que ficam sempre mantidos no escuro. Ele não concordou, obviamente, mas admitiu que seria uma metodologia limitada, mas viável. Foi uma excelente experiência de comunicação intelectual.

Estou aberto a ouvir as impressões daqueles que estiverem dispostos, ou puderem ler os artigos!

quinta-feira, 13 de abril de 2006

Uma Breve Conversa com Luiz Roberto França de Mattos

Em 2002 tive um breve diálogo com o Luiz Mattos, filósofo calvinista falecido em 2004. Na época eu estava começando na filosofia reformada. Foi interessante ouvir seus comentários sobre Wolterstorff e a Teologia da Libertação. Ele me recomendou a leitura de sua dissertação de doutorado, sobre o tema (que eu não consegui obter ainda); no próximo encontro da Rede (em Julho deste ano) vamos discutir um pouco as idéias de Wolterstorff.


Caro professor Luiz Mattos;

Tudo bem? Não sei se você se lembra de mim. Meu nome é Guilherme Carvalho. Sou de BH, e assisti a uma aula sua em 2001. Meu Pai (Elildo Carvalho) foi seu aluno. Pois bem: estou escrevendo porque eu e alguns professores aqui de BH estamos iniciando um núcleo de estudos interdisciplinares de orientação kuyperiana. Gostaria de estar em contato com filósofos reformados e de receber alguma ajuda, se você não se importar, é claro. Começo com uma pergunta: é possível fazer alguma conexão entre a epistemologia de Plantinga e a filosofia de Dooyeweerd? A primeira pode ajudar a esclarecer a intuição das esferas modais kuyperianas-dooyeweerdianas? Agora um pedido: tem como eu conseguir uma cópia de sua dissertação de doutorado (sobre a teologia da libertação)? É que eu estou pensando sobre as conexões (e descontinuidades também) entre a missão integral eo neocalvinismo (a propósito: li seu artigo na Fides e consegui uma cópia do Wolterstorff). Como sou neocalvinista convicto, sinto que há uns desajustes. Aguardo ansiosamente sua ajuda. Prof. Guilherme Carvalho. Faculdade Evangélica de Teologia de BH

Caro Guilherme,

Obrigado por seu e-mail. Você levanta várias questões muito interessantes. Terei muito prazer em manter um diálogo com você sobre elas. Prometo lhe enviar uma resposta, ao menos para aquelas sobre asquais já pensei um pouco a respeito, na próxima semana. Amanhã, terei uma reunião de planejamento do ano acadêmico 2003 com todos os professores do CPPGAJ, durante todo o dia. Grato por seu interesse e compreensão.

Luiz Mattos-----Mensagem original-----De: Guilherme Carvalho. Enviada em: quarta-feira, 13 de novembro de 2002 16:57Para: Luiz Mattos. Assunto: Epistemologia Reformada

Caro Guilherme,

Uma vez mais obrigado por seu e-mail. Lamento minha demora em responder. Estive bastante atarefado nos últimos dias trabalhando no preparo do Processo Seletivo 2003, ao lado de outras responsabilidades, o que me impossibilitou de lhe escrever antes. Conto com sua compreensão.
NA verdade, embora tenha me esforçado não consegui me lembrar de você. Creio que tivemos um contato muito rápido. No entanto, lembro-me muito bem de seu pai, e de suas participações sempre muito positivas nos cursos que ensinei.

Parabéns pela iniciativa de iniciar um grupo de estudos interdisciplinares a partir de uma cosmovisão Kuyperiana. Como você já percebeu, Kuyper (e o neo-Calvinismo holandês) ainda é bastante desconhecido em nosso meio reformado aqui no Brasil. À sua semelhança, estou convencido de que a obra de Kuyper é de extrema importância para que desenvolvamos um Calvinismo que nos permita interagir responsável e apropriadamente com as diversas esferas de soberania identificadas por ele: Ciência, Arte, Estado, Economia, etc.

Quanto à sua pergunta acerca da potencial conexão entre os projetos de Dooyeweerd e Plantinga, faço as seguintes observações:

1. meu conhecimento de Dooyeweerd é limitado. Além de sua crítica a Van Til na obra Jerusalem and Athen Revisited, avaliei superficialmente apenas Roots of Western Culture. Entretanto, é evidente, como você observa em seu e-mail, e Wolterstorff reconhece em sua obra Until Justice and Peace Embrace, que o projeto de Dooyeweerd incorpora a noção Kuyperiana de Esferas de Soberania como uma realidade ontológica baseada na ordem da criação.

2. Em Roots of Western Culture, identifico os seguintes elementos da filosofia Dooyweerdiana pelos quais nutro apreciação:

a. Seu reconhecimento de que iniciar a investigação da realidade em qualquer dos vários campos do saber humano (Matemática, Ciências Naturais, Biologia, Psicologia, Lógica, História, Lingüística, Sociologia, Economia, Estética, Teoria Legal, Ética ou Ciência Moral), “sem a luz do verdadeiro conhecimento de Deus e de si mesmo” tenderá a gerar uma absolutização de um conhecimento específico e um conhecimento falso da realidade como um todo. A seguinte declaração de Dooyeweerd substancia este ponto [peço licença para citar o texto em inglês para não correr o risco desnecessário de problemas com a tradução] : “Whoever absolutizes one aspect of created reality cannot comprehend any aspect of the basis of its own inner character. He has a false view of reality. Although it is certainly possible that he may discover important moments of truth, he integrates these moments into a false view of the totality of reality.” [Dooyeweerd, Roots of Western Culture. Toronto: Wedge Publishing Foundation, 1979, p. 42. Desculpe-me a citação completa. É só para permitir a conferência do texto se você desejar]
b. Seu reconhecimento de que ainda que o incrédulo possua uma falsa perspectiva da totalidade da realidade, ele ainda possui glimpses [vislumbres] da verdade, ou nas palavras do próprio Dooyeweerd, “momentos de verdade.” Esta posição parece-me mais apropriada do que a perspectiva defendida por Van Til, em My Credo, onde ele parece rejeitar o acesso do incrédulo à verdade “whatsoever.” [Reconheço que minha análise da obra de Van Til é por demais simplificada neste e-mail]. Se você desejar maiores informações acerca do assunto, não restará alternativa senão fazer um curso comigo em Epistemologia Reformada quando o mesmo for oferecido.

3. Plantinga, em suas obra mais recente em Epistemologia, Warranted Christian Belief, não se preocupa em relacionar seu projeto com as esferas de soberania propostas por Kuyper/ Dooyeweerd. Seu projeto é, até onde o entendo, desenvolver uma apologética negativa, demonstrando a racionalidade da fé cristã, de forma a responder a potenciais questionamentos de incrédulos. Note, entretanto, que ele não se propõe ao desenvolvimento de uma filosofia racionalista, nem de uma apologética positiva. È convicção explícita de Plantinga que apenas a obra regeneradora do Espírito Santo pode levar à conversão e ao conhecimento de Deus. Não obstante, ele se dispõe a descrever racionalmente este processo, investigando a capacidade noética do ser humano antes e pós-queda, bem como os efeitos noéticos da ação do Espírito no homem regenerado.

4. A despeito de Warranted Christian Belief não fazer qualquer menção às esferas de soberania Kuyperianas, é possível identificar uma ênfase de Plantinga a elementos da estrutura da criação e aos efeitos da queda sobre os mesmos. Em outras palavras, não creio que Plantinga tivesse qualquer razão para rejeitar a perspectiva Kuyperiana.

Quanto à minha dissertação de doutorado, esclareço o seguinte:

1. A obra não é sobre a Teologia da Libertação. O título é “Uma Análise da Teologia e da Ética Social de Leonardo Boff.” O texto está em inglês. Há um exemplar na Biblioteca do Calvin, mas não creio que isso lhe será muito útil. Eu tenho original, mas você teria que aproveitar uma de suas vindas a São Paulo para verificar o que desejaria copiar. Num futuro não muito remoto, espero trabalhar na tradução e publicação da obra.

2. Não entendi exatamente o que você quis dizer em seu e-mail por “desajustes.” Os desajustes a que você se refere são entre a Teologia da Libertação e projeto neo-Calvinista? Entre minha interpretação de Wolterstorff e a intenção do autor em Until Justice and Peace Embrace? Entre a posição de Wolterstorff e a da Teologia da Libertação?

3. O que quer que você tenha em mente, é minha convicção que Wolterstorff, a despeito de ser um neo-Calvinista assumido, tentou se valer de alguns subsídios fornecidos pela Teologia da Libertação, tal como, a teoria da dependência por exemplo, promovendo um tipo de síntese entre neo-Calvinismo e TL. Não creio que ele tenha sido bem sucedido. Em minha dissertação, deixo isso claro, como você poderá observar, se vier a lê-la.

Espero que estas observações sejam úteis em seus estudos. Lamento uma vez mais minha demora em responder seu e-mail. Minha oração é que o Senhor continue a abençoá-lo em sua vida acadêmica e pessoal.

terça-feira, 11 de abril de 2006

Teologia Radicalmente Evangélica

Revirando meus papéis em busca de uma fatura desaparecida, encontrei o discurso de formatura que eu escrevi para meus alunos da FATE BH. Foi a minha última turma naquela faculdade; uma turma jóia. O discurso foi lido em 12 de Julho de 2005 pela minha esposa, e representa bem o que penso sobre o desafio de ser evangélico hoje, especialmente nos círculos pensantes.


Agradeço aos meus alunos pela escolha do meu nome como paraninfo da turma. Este prazer só não será completo devido à minha ausência necessária.

Estou certo de que essa escolha reflete o nosso relacionamento ao longo do curso. E como o nosso relacionamento sempre girou em torno de uma mensagem, que permeava nossas aulas e conversas de corredor, tenho certeza de que essa escolha reflete o impacto positivo dessa mensagem na turma.

E qual é essa mensagem? A mensagem a respeito da radicalidade do evangelho.

Os ouvintes podem se surpreender com essa declaração, por sua aparente banalidade. Afinal de contas, não é verdade que todos os cristãos afirmam a radicalidade do evangelho? Não é isso o pressuposto nos seminários evangélicos? Não é esse o tema dos púlpitos, dos livros e dos cânticos?

Infelizmente, não. A igreja evangélica vive uma grande crise de legitimidade e de fundamentação. Essa crise é bem conhecida entre aqueles cristãos mais informados. Na busca, em si legítima, por um impacto mais significativo na sociedade, os evangélicos tem se adaptado acriticamente a posições políticas, ideológicas e econômicas humanistas, e a níveis de moralidade inaceitáveis, do ponto de vista das Escrituras.

Um dos setores nos quais essa acomodação tem se apresentado de forma mais evidente é o da teologia evangélica. A reflexão sobre a fé e a práxis evangélica tem lutado desesperadamente por legitimidade e eficiência, no interesse sincero de contribuir para a missão da igreja.

Entretanto, por uma ingenuidade filosófica, muitos pensadores evangélicos vem renunciando à radicalidade do evangelho, submetendo-o a padrões de pensamento cuja raiz é patentemente pagã.

Permitam-me repetir o que eu disse em sala de aula inúmeras vezes: isso não é radicalmente evangélico.

Não é radicalmente evangélico tentar compreender o evangelho a partir da mente secular, pois "o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, nem pode entendê-las, pois elas se discernem espiritualmente". Não é radicalmente evangélico acreditar que nossa compreensão do evangelho é totalmente condicionada e fundada pelo nosso contexto de origem; pois, "se alguém não nascer de Novo, não pode ver o Reino de Deus". O efeito historicamente comprovado desse tipo de hermenêutica tem sido a secularização do cristianismo, e o comprometimento da verdade cristã. Como Francis Schaeffer disse tantas vezes, ao dar-se autonomia à natureza, ela "devora a graça". Ao conferir a autonomia aos processos de pensamento utilizados na teologia, a "razão natural" devora a "fé".

O que seria, então, "radicalmente evangélico"? Nada menos que reverter completamente essa situação. Radicalmente evangélico seria compreender a mente secular a partir do evangelho; seria acreditar e aplicar o evangelho como chave hermenêutica radical para destravar a realidade, ao invés de tentar ler o evangelho a partir de uma suposta "realidade do leitor".

Para muitos cristãos sinceros essa posição é vista como "fundamentalismo". Não é o momento, aqui, para discutirmos a propriedade desse rótulo. Quero, no entanto, desafiar os meus alunos a não se incomodarem com isso. O mínimo que um teólogo cristão precisa fazer é se submeter a tais injustiças com coragem. Se existe uma forma de seguir a Cristo com a mente, ela certamente envolve levar o "opróbrio de Cristo" - a vergonha de confiar no Senhor de todo o coração e não se estribar no próprio entendimento.

A partir deste desafio, poderemos reconhecer as amplas implicações de um pensamento radicalmente evangélico. E a práxis da Missão Integral será, agora, entendida no sentido mais pleno possível: a missão de constituir uma cultura cristã, expressando o poder redentivo do evangelho em todas as esferas da vida: na política, na arte, na ciência, na caridade, na educação - enfim, na totalidade da vida humana. Como o expressou Abraham Kuyper, em sua célebre declaração:

"Não há um só centímetro, em toda a extensão da vida humana, sobre o qual Cristo, o Senhor de todos, não clame: isto me pertence."

É a minha oração que isso se cumpra na vida e no ministério de cada um de vocês. Que o evangelho seja crido e domine radicalmente todas as áreas de suas vidas, de tal modo que, um dia, as pessoas digam a seu respeito: não há um único centímetro na vida dessas pessoas que não pertence a Cristo!

Amem, e que Deus os abençoe.

Pr. Guilherme Carvalho

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Crise das Charges: O que Arnaldo Jabor, Bush e Laman tem em JustificarComum


As recentes convulsões em torno das caricaturas de Maomé tem se revelado um verdadeiro enigma para os ocidentais. Há uma legião de jornalistas e intelectuais que insiste em pintar o islã como uma religião "pacífica", e em dizer que o fundamentalismo radical pertence a uma minoria barulhenta. Vários deles, como Arnaldo Jabor (embora ele tenha caído em contradição diversas vezes, a esse respeito), acreditam que esses fundamentalistas são excitados pelo "fundamentalismo" protestante de direita de Bush, o protótipo do stupid white men.

Pois bem, os fatos não confirmam essa interpretação otimista. Há, entre grande parte dos muçulmanos, um profundo ódio contra a modernidade e a cultura ocidental, e não é contra o "fundamentalismo cristão", que, para eles, fracassou miseravelmente. O ódio deles é contra o humanismo secular ocidental, que une o conservadorismo liberal de Bush, o progressismo desbocado de Arnaldo Jabor e os chargistas dinamarqueses.

Na verdade Jabor, como um "fundamentalista secular" do pior tipo, não tem o que dizer das charges, e a razão é óbvia: se ele fosse um cartunista, as teria feito. Os chargistas dinamarqueses são Arnaldo JabØr...

Mas não é tudo culpa do Jabor, obviamente. Ele é apenas um "tipo ideal" aqui. Representa a grande massa de intelectuais humanistas seculares que assume dogmaticamente o seu secularismo, e que não podem conceber a verdade: o totalismo islâmico é uma reação, é o oposto, a imagem invertida deles próprios, em seu radicalismo anti-religioso. Não é uma conspiração da "direita cristã" como sonham esses xiitas de esquerda. Por sinal, jornais de esquerda, por toda a Europa, republicaram as charges!

É por isso que em tantos editoriais e colunas recentes de jornais e revistas conhecidos, encontramos esforços incoerentes de indivíduos que condenam o desrespeito à religião (intimidados, talvez, com o terror), tropeçando abismados na mesma "liberdade de expressão" que é utilizada, em seus países, para atacar o assim-chamado "fundamentalismo cristão": evangélicos, o papa Bento XVI, etc. Porque não pedem desculpas a nós? É porque não explodimos bombas?

A verdade é que o islã é uma religião intolerante mesmo, com tendências fortemente totalistas, e que o humanismo secular, por outro lado, é estúpido e incompetente para lidar com a religião. Nesse sentido os Jabores parecem mais com os imans do que o próprio Bush.